Resenha de “Por que não desisto”, de Juca Kfouri
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Por Joza Novalis
Lançado em 2008, “Por que não desisto” é a reunião em livro de crônicas de Juca Kfouri ao longo de quase trinta anos de carreira. Mais que isso, é um panorama do pensamento de um dos jornalistas mais críticos e inconformados das mídias brasileiras. Pensamento que se recusa a ficar sitiado e que se processa notavelmente pela ironia: figura que quanto mais fina e sofisticada mais permite a sobrevivência no inferno.
O subtítulo do livro fala em futebol, dinheiro e política. Três coisas. Separadamente cada uma tem sua própria natureza. Juntas, formam um mundo particular no qual em vez de ser o futebol a principal preocupação é, pelo contrário, colocado em segundo plano. Utilizado – como qualquer outro esporte – em benefício de alguns. Entre eles, cartolas, dirigentes ditadores, mafiosos e políticos que vão dos mais insignificantes até presidentes da república. E a única figura que não aparece como beneficiado é justamente o amante mais genuíno do esporte, o torcedor.
À pergunta-título segue uma apresentação profunda de tudo aquilo que na visão de seu autor não faz bem à saúde de desporto em geral. Sobretudo a do Brasil, e, neste caso, do futebol, que é a matéria-prima de suas preocupações. Alude a este cenário o texto “Lições da Copa”, de 1989. Para o autor não falta aos dirigentes públicos o conhecimento de como fazer as coisas com correção e competência. Neste caso, eles não são nem um pouco diferentes dos principais dirigentes pelo mundo afora. Para o bem ou para o mal. Mas se a coisa é assim, o que impede que apesentem solução aos problemas reais? A resposta está em que ao se colocarem no comando de entidades organizativas colocam antes o interesse particular à frente do interesse público.
É assim na FIFA, UEFA, CBF, federações estaduais e nos clubes em geral. E esta é uma das razões por que o ex-presidente Lula virou um cartola. Com legitimidade para propor mudanças na estrutura de organizações como CBF e COB, o então presidente preferiu abrir as portas do Planalto para Ricardo Teixeira e Nuzman. Ou seja, subverteu o ideal democrático que o conduziu ao poder ao fazer de ditadores de entidades desportivas verdadeiros chefes de estado. Aceitando suas sugestões e ideias, Lula praticamente se tornou um de seus pares.
Embora seja ácido a figuras como Teixeira e Nuzman, Kfouri vê, contudo, diferenças entre elas. Uma está no melhor dos mundos possíveis, a outra não. Uma fez do vôlei tupiniquim o mais respeitado do planeta, enquanto a outra cada vez mais fragmenta o respeito ao futebol brasileiro tanto na sucessão de derrotas como, até mesmo, em algumas de suas vitórias. E a razão é simples. Enquanto Teixeira não passa de um amador, Carlos Arthur Nuzman é um senhor dirigente esportivo. Em uma palavra, é a competência que os distingue.
Mas o inconformismo de Kfouri não admite nem um nem outro e o motivo é que algo anterior os assemelha e confunde: o interesse particular. Se para o típico ditador o fim justifica os meios, Nuzman não foge do perfil, assim como demonstrou sua gestão à frente da CBV, quando então modificou leis, atropelou patrocinadores e clubes não somente para forjar a seleção vitoriosa de vôlei, mas também para criar sua própria identidade vencedora, que o levaria depois ao COB. Fez mais. Montou uma empresa de marketing esportivo para a qual sequer se apesentou como dono.
Desorganização dos clubes, estádios vazios, times baratos e sem os craques do passado, decadência e falência generalizadas estão intimamente unidos com a subversão do espírito público ao privado. Subversão que impede que até mesmo as boas ideias não funcionem por aqui, como a do clube-empresa. Trata-se de um cenário que todos abandonam no fim das contas. Os da Hicks Muse partem por se darem conta de que seus investimentos não terão retorno. Os mafiosos como os que se incrustaram no Palmeiras (Parmalat), Corinthians, Flamengo lavam dinheiro e enchem os bolsos e depois partem ou por se darem conta de que precisam “investir” em outras capitais, ou pelo fato de que suas práticas abusivas uma hora cai na mira de instituições mais sérias como a polícia federal.
A leitura de “Por que não desisto” choca pelo estado de coisas que apresenta de modo cru. Porém, se o pessimismo por um lado absorve o leitor a contrapartida está justamente no perfil lutador de um eu-cronista que encanta pela insistência em não desistir, mesmo quando parece que as coisas por aqui nunca vão mudar. Em outras palavras, o que encanta e se contrapõe a desilusão é ver que a essência do bom e verdadeiro jornalismo jamais se corrompe diante desse estado de coisas.
Mas se equivoca quem pensa que o livro é o resumo da crítica que nada propõe. As propostas são muitas, mas quem as quer utilizar? Uma delas é a da profissionalização de árbitros e do uso de meios eletrônicos (2006). No entanto, nem mesmo a autonomia dos departamentos de arbitragem chegou. O que é antes essencial porque se a subserviência dos árbitros já ocorre, imagina só fossem eles profissionais do apito no contexto que tempos. À proposta da criação de um Tribunal de Conta do Esporte (1982) e da ANE (Agência Nacional de Esportes), que atuasse entre a autonomia das entidades esportivas e os abusos que elas cometem, também são sugestões a que pouco se deu ouvidos.
E não há como não supor o riso sarcástico de cartolas que têm em Juca Kfouri um inimigo, mas também um ingênuo. Não só por várias de suas sugestões terem sido esquecidas, como também pelo fato de que em outras sugestões ou críticas ele volta e meia se repete. E não é sem um provável constrangimento que o próprio jornalista deve admitir. Mas, para o leitor desavisado, precisamos lembrar que nesse caso o problema é do assunto e não do cronista. Como não continuar criticando um estado de coisas que nunca muda?
Todavia é fato que de sua primeira crônica à última, a despeito da capacidade de enxergar a realidade, seu olhar crítico foi por vezes encoberto pela força de algumas circunstâncias. “E o Brasil não possui chance alguma de sediar as Olimpíadas, porque o Comitê Olímpico internacional nunca dará a competição a um país instável do ponto de vista do Primeiro Mundo” (2006). À época o país já acenava, mesmo que timidamente, para o cenário de nação em desenvolvimento. Juntando isso à debilidade de caráter das instituições terceiro-mundistas (como o seu uso político e o baixo grau de fiscalização de contas públicas) e basta para que o COI e a FIFA vejam em países como o Brasil o porto seguro para o uso abusivo de suas falcatruas.
Verdade é que se deparou muitas vezes com esse porto em países ditos desenvolvidos. Mas o círculo por lá esta se fechando e o paraíso da vez é o tropical, sobretudo se há dinheiro circulando. Além disso, mesmo exigências como as feitas à Alemanha ou à China já não encontram a simpatia das nações desenvolvidas nesses tempos de vacas magras. O jeito é vim para cá. Diria mais o próprio Juca Kfouri (como estamos dizendo agora comodamente, depois de o Brasil ser declarado sede dos Jogos Olímpicos e Copa do Mundo): hoje é mais fácil para Angola sediar Olimpíada ou Copa do Mundo do que o Canadá ou Austrália.
Por fim, uma das ideias principais que fecham o livro é a de que um dos absurdos do nosso tempo é que os sujos querem parecer limpos. Mais que isso, são capazes de tudo fazerem para isso. E ai de quem se coloca contra. A dissimulação dessa postura é tamanha que perto dela Capitu seria um anjo. Além disso, o cinismo e hipocrisia que tal postura encerra são de tal ordem que na figura controversa de um Castor de Andrade é até possível ver bom senso. Diante dessa calamidade, um dos mais objetivos jornalistas brasileiros pede uma merecida concessão, espécie de permissão para deixar fluir sua indignação. O que é justo, pois trinta anos de enfrentamento com um poderoso inimigo não foram suficientes para que ele desistisse do embate.
FICHA TÉCNICA
Por que não desisto – Futebol, Dinheiro e Política
Autor: Juca Kfouri
Organização e notas: Márcio Kroehn
Editora: DISAL EDITORA
Edição: 1ª – 2009
Páginas: 146
Formato: 16,00 x 23,00 cm.