França

Sai Deschamps, entra Zidane: A relação complexa de duas lendas da França

Um foi capitão e o outro o camisa 10 do título da Copa do Mundo de 1998; agora, um sucederá o outro no comando dos Bleus

Poucas trocas de comando carregam tanto simbolismo quanto a que acontece agora na seleção francesa. Depois de 14 anos no comando do time, Didier Deschamps deixou os Bleus depois da Copa do Mundo. Em seu lugar chega Zinédine Zidane, talvez o único nome capaz de assumir o cargo sem precisar “se provar”.

É uma sucessão que parecia inevitável havia anos, mas isso não significa que tenha sido simples. Principalmente porque a dupla carrega uma história de títulos juntos, mas tensão, cobranças e um clima de cobrança envolvendo a seleção.

Blitz por Guardiola e plano B na mira: Itália se aproxima de definição do novo técnico

Blitz por Guardiola e plano B na mira: Itália se aproxima de definição do novo técnico

Leia →

A dupla que construiu a maior geração da França

Durante praticamente todo o ciclo de Deschamps, a figura de Zidane esteve presente como uma possibilidade permanente. Sempre que a França fracassava em um grande torneio ou surgiam dúvidas sobre o futuro do treinador, o nome do ex-camisa 10 voltava imediatamente ao debate público.

Como revelou o jornal francês “L’Équipe”, essa expectativa constante criou uma dinâmica delicada entre duas das maiores lendas da história do futebol francês. Agora, com a mudança finalmente concretizada, Zidane herda uma seleção extremamente talentosa, mas também uma das sucessões mais complexas do futebol de seleções.

Zidane está livre no mercado desde 2021
Zidane está livre no mercado desde 2021 (Foto: Pierre Teyssot / IPA Sport / Imago)

Mas antes de existirem comparações entre treinadores, havia uma parceria dentro de campo. Deschamps e Zidane dividiram o vestiário durante boa parte dos anos 1990. Foram companheiros na Juventus e disputaram 55 partidas juntos pela seleção francesa.

Os papéis estavam perfeitamente definidos: Deschamps organizava, equilibrava e liderava, Zidane decidia. O capitão, volante, encontrava constantemente o camisa 10, que transformava a posse de bola em criatividade. Foi assim que a França construiu a geração que conquistou a Copa do Mundo de 1998 e a Eurocopa de 2000.

Naquele período, praticamente não houve atritos relevantes. O episódio mais conhecido aconteceu justamente durante a Copa de 1998, quando Zidane foi expulso contra a Arábia Saudita após agredir um adversário. Deschamps criticou publicamente a atitude do companheiro, mas rapidamente pediu desculpas, e o assunto foi encerrado.

A relação entre ambos parecia sólida e as tensões surgiriam apenas muitos anos depois.

- - Continua após o recado - -

Assine a newsletter da Trivela e fique por dentro do melhor conteúdo de futebol!

Um conteúdo especial escolhido a dedo para você!

Aoa se inscrever, você concorda com a nossa Termos de Uso.

A sucessão de 2012 mudou a dinâmica entre os dois e Zidane virou sombra de Deschamps

O ponto de ruptura nunca aconteceu diretamente entre Deschamps e Zidane, e o problema foi o contexto. Em 2012, Laurent Blanc deixou o comando da seleção francesa e Deschamps assumiu seu lugar.

Segundo reconstrução feita pelo “L’Équipe”, Zidane sempre enxergou que Blanc havia recebido pouco respaldo da Federação Francesa naquele processo. Como amigo e companheiro da geração campeã mundial, tomou naturalmente o lado do antigo treinador.

Deschamps sempre negou que tivesse articulado sua chegada antes da saída oficial de Blanc. Mesmo assim, aquela mudança criou um desconforto silencioso. Não houve conflito público, também nunca existiu rompimento, mas a partir daquele momento, a relação deixou de ser apenas entre dois ex-companheiros de equipe.

Poucos técnicos convivem tanto tempo com um sucessor tão óbvio. Durante praticamente toda a passagem de Deschamps, Zidane foi apontado como o próximo treinador da França.

Deschamps se despediu da seleção francesa
Deschamps se despediu da seleção francesa (Foto: Alexandra Fechete/SPP via Imago)

Primeiro quando ainda era auxiliar de Carlo Ancelotti, depois já comandando o Real Madrid. Mais tarde, conquistando três Champions League consecutivas. Desde sua saída do clube espanhol, ficou aguardando apenas a oportunidade de assumir a seleção.

Essa expectativa nunca desapareceu. Cada renovação contratual de Deschamps era acompanhada pela mesma pergunta sobre Zidane e cada eliminação em grande torneio reacendia o mesmo debate.

Segundo o “L’Équipe”, Deschamps nunca culpou Zidane diretamente por essa situação. O problema era o ambiente criado ao redor da seleção. Ter um sucessor tão prestigiado disponível no mercado fazia com que qualquer resultado abaixo das expectativas imediatamente colocasse sua permanência em discussão.

E a troca de comando também representa uma mudança de perfil. Deschamps construiu sua carreira como treinador reproduzindo muitas das características que tinha como volante: pragmatismo, controle emocional, organização defensiva e competitividade.

Sua França raramente encantou de maneira constante, o que faz o time de 2026 ter sido talvez o mais encantador da sua era, mas quase sempre foi extremamente difícil de vencer. Durante mais de uma década, a França tornou-se presença praticamente obrigatória nas fases decisivas: campeão da Copa do Mundo de 2018, vice em 2022 e amplo favorito na última edição.

Zidane chega com uma imagem diferente: embora seus times no Real Madrid fossem muito mais equilibrados do que costuma sugerir a memória popular, existe uma percepção de futebol mais ofensivo, mais técnico e mais baseado na qualidade individual.

Não significa necessariamente uma ruptura completa — até porque a eleção continua sendo formada, em grande parte, pelos mesmos jogadores. Mas é possível imaginar mudanças na forma como o enorme talento ofensivo francês será explorado.

França tem um elenco ‘feito’ para Zidane

Franceses comemoram gol de Mbappé contra a Suécis (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)
Franceses comemoram gol de Mbappé contra a Suécis (Foto: IMAGO / ZUMA Press Wire)

Se houvesse um momento ideal para Zidane assumir a França, talvez seja exatamente este. A nova geração oferece praticamente tudo o que um treinador gostaria de encontrar.

Aurélien Tchouaméni e Eduardo Camavinga garantem equilíbrio no meio, Michael Olise vive o melhor momento da carreira, Ousmane Dembélé continua desequilibrando no um contra um e Kylian Mbappé permanece como uma das principais estrelas do futebol mundial.

Poucas seleções conseguem oferecer tanta profundidade técnica. Isso faz com que a missão de Zidane não seja montar uma equipe competitiva, porque ela já existe. Seu desafio será potencializar um grupo que, muitas vezes sob Deschamps, parecia jogar abaixo do enorme talento disponível. Mas com o ex-camisa 10 também existe também um peso inevitável.

Zidane não chega apenas como treinador, mas como talvez o maior ídolo da história do futebol francês.

No Real Madrid, trabalhou diariamente com alguns dos melhores jogadores do mundo e conquistou três Champions League consecutivas. Na seleção, porém, o contexto é diferente: menos tempo para treinar, menor controle sobre a evolução coletiva e torneios curtos em que detalhes costumam definir campanhas inteiras.

E embora a narrativa frequentemente apresente Zidane e Deschamps como opostos, a realidade parece bem mais complexa. Os dois compartilham praticamente a mesma história dentro da seleção francesa.

Foram campeões juntos, construíram amizade e passaram décadas representando o futebol francês em diferentes funções. Segundo o L’Équipe, mesmo nos momentos de maior tensão, nunca houve ruptura definitiva entre ambos. O respeito sempre permaneceu, e talvez por isso essa sucessão faça tanto sentido.

Foto de Guilherme Ramos

Guilherme RamosRedator

Jornalista pela UNESP. Vencedor do prêmio ACEESP de melhor matéria escrita de 2025. Escreveu um livro sobre tática no futebol e, na Trivela, escreve sobre futebol nacional, internacional e de seleções.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo