Resenha: “À procura de Eric”
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Por Ricardo Gomes
Uma das maiores lendas da história do Manchester United na vala comum, sob a perspectiva de um fã fervoroso. Foi assim que ex-atacante francês Eric Cantona deu o seu aroma ao filme “À procura de Eric” (Looking for Eric, 2009), produção que gravita entre o futebol e a vida ordinária de todos nós. Ou pelo menos a maioria de todos nós.
Mas ainda é cedo para pinçar a ilustre presença do craque arruaceiro nesta película. “À procura de Eric” é co-dirigido por Paul Laverty e Ken Loach e fragmenta a sua trama com doses de dramas familiares, conflitos existenciais, amizade, redenção e, é claro, futebol. Mas, ao contrário de outras peças do gênero, “À procura…” emprega o futebol como pano de fundo de uma fábula muito maior, que tem o desgostoso e melancólico carteiro Eric Bishop (Steve Evets) como protagonista.
Intempestivo – ou doente, como achar melhor – Bishop é um trevo. Quando mais jovem, abandonou esposa e filha recém-nascida por conta de um surto de pânico. Fugiu e não noticiou o paradeiro. Perdido, desventurou-se num segundo casamento. De herança deste matrimônio, ficaram os dois problemáticos enteados, garotos sem qualquer limite do que é certo ou errado. Anos mais tarde, amadurecido com as peças que a vida lhe pregou, Bishop decide reaver os fantasmas do passado.
Aproximar-se da primeira esposa, Lily, de quem jamais negou a admiração, e a filha, já adulta e prestes a se formar na faculdade, era encarado como questão de honra. Todavia, Bishop não se sentia seguro. Julgava-se ainda perverso para restabelecer qualquer tipo de contato com quem ele abandonara num passado nem tão distante.
E foi procurando a catarse que Bishop evocou um personagem que, segundo a sua lógica, representava a sabedoria e a pujança que tanto lhe faltava. Eric Cantona deixou de ser apenas uma imagem transposta num pôster gigante decorado na parede do quarto para tomar forma, cor, voz e até vício – invariavelmente, tragava um generoso charuto.
Cantona é uma espécie de entidade, que aterrissa para explicar os porquês da vida à Bishop.
A presença do craque francês é um mantra na vida do humilde carteiro. Entre frases de efeito e outros doutrinas, o eterno camisa sete dos Red Devils recorda os seus grandes lances em campo para costurar um paralelo com situações do cotidiano de todo mortal.
“À procura de Eric” é o testemunho de que o singelo pode, e deve, ser primoroso. Atuações exemplares e um roteiro bem encaixado! Um filme que vale muito a pena conferir.