Relembre o Jogador: Enrique Omar Sívori

Por Joza Novalis

No começo da década de 30, San Nicolas de los Arroyos era apenas mais uma das pequenas cidades argentinas sem muita notoriedade. Contudo, o dia 2 de outubro de 1935 mudaria essa história com o nascimento de seu filho mais notável: Enrique Omar Sívori.

Introduzido na Argentina em 1876, o futebol se prestou inicialmente à diversão dos descendentes de europeus que se esparramavam por toda a província de Buenos Aires e também de Santa Fé. Sua prática chamou a atenção das autoridades que rapidamente o fez partir dos colégios particulares às escolas publicas do país. Embora tenha alcançado relativo sucesso, seu ensino foi abortado das entidades públicas em razão de desacordo entre o Estado e as próprias escolas, interessadas em diversificar o currículo com outros esportes. Sua prática e desenvolvimento passaram a ocorrer nos terrenos baldios e parques públicos das cidades. Tanto esses espaços como o futebol, neles praticado, receberia o nome de “potreros”.

Desta forma, o futebol se desenvolveu de maneira espontânea, em que prevalecia a ausência de figuras como o treinador, capitão e organizador da equipe. Sua prática era multifacetada. Era massivo, diversificado e praticado em todos os cantos em que se era possível encontrar um terreno baldio. Em raras vezes era jogado por duas, três, cinco pessoas. Na maior parte dos casos, o espaço que ocupava apresentava um número de praticantes superior e incompatível com a prática. Podia variar de uma mínima formalidade organizacional a partidas de várias horas de duração.

No futebol potrero argentino grandes jogadores surgiram de um lado ou de outro. Descendentes da mais genuína habilidade, podemos nos lembrar de Ariel Ortega. Descendentes do planejamento tático na cancha não há como se esquecer de Javier Mascherano. Mas, ao longo dos tempos, pouquíssimos foram os casos de atletas que reuniram as duas características de maneira grandiloquente. Um dos primeiros do futebol argentino foi Enrique Omar Sívori.

Em meados da década de 40, no braço oeste da periferia de San Nicolas de los Arroyos, um garoto apelidado de “el Chiquín” chamava a atenção não somente pela habilidade que tinha, mas pela fome de bola. Era comum vê-lo até o anoitecer correndo atrás da bola. Sua sapatilha era furada, suas roupas eram sempre as mesmas: short longo e camisa rasgada e sem botão. Jogava com vários, jogava com poucos e, o mais notável, jogava sozinho muitas vezes. Nessas situações praticava o manejo da pelota de um lado a outro do espaço e sempre driblando o que via pela frente. Na maioria das vezes, só voltava para casa quando dona Carolina Tiracchia, sua mãe, ia buscá-lo. Testemunhos dão conta de que muitas vezes ela não aliviava com “el Chiquín”. As mesmas testemunhas que alegam que foi justamente dona Carolina quem convenceu a todos, anos depois, de que o menino precisava partir de San Nicolas e procurar o seu rumo.

Chegada ao River Plate

Com 16 anos incompletos chegou ao River para fazer um teste. O responsável pela peneira era o próprio técnico Renato Cesarini. Foi um fiasco. Não conseguiu fazer sequer uma jogada. Perdia a bola com facilidade assim que ela chegava a seus pés. A cabeça baixa na cancha foi a mesma que apresentava quando seu teste terminou. Porém, havia alguma coisa de diferente no jogador e Cesarini percebeu. Notou como ele corria atrás da bola. Sua atitude feroz de recuperá-la quando a perdia. Das faltas que cometia, da preparação do corpo para fazer o drible; do uso das mãos; do olhar panorâmico que executava na busca de seus companheiros mesmo antes de pegar na pelota. E mais: embora fosse um dos menores em campo, franzino e leve, era o único que tinha a particularidade de jogar com as meias  abaixados até o tornozelo. Então Cesarini o chamou novamente e “el chiquín” não decepcionou. Foi o destaque da peneira e passou a integrar a base do clube de Núñez.

O sucesso na base foi extraordinário e marcado por inúmeros gols. Perceberam o desperdício mantê-lo ali e o convocaram à equipe principal. Era janeiro de 1954. Sivori tinha 18 anos recém-completos e o River fazia um amistoso internacional contra o Partizan, da Iugoslávia. De repente apareceu a oportunidade de substituir o grande Angel “el Feo” Labruna. Sivori conta que estava tão nervoso que sequer via o chão. Foi quando Labruna chegou para ele e ao colocar a mão em seu ombro lhe disse: “garoto, está nervoso? Não se preocupe, pois esta partida você é capaz de ganhá-la sozinho”. O 5 a 1 daria razão para “el Feo”. Em abril daquele ano, estreava no primeiro cotejo oficial pelo River. Na partida o Millonario bateu no Lanús por 5 a 2, com o gol final sendo anotado por Sivori. Foi seu segundo batismo. O terceiro ocorreria oito rodadas depois na partida em o Millonario de Núñez enfrentaria seu grande rival, Boca Juniors na Bombonera. Foi um baile. Não que o resultado o representasse. Foi somente 1 a 0, com o gol anotado por Eliseo Prado. Mas foi uma das maiores apresentações de Sívori com a camisa do River. Fazendo parceria no ataque com Menéndez, o jovem de San Nicolas infernizou a defesa xeneize com um espetáculo de futebol. Sua apresentação resumiu a essência do futebol potrero, que ele conhecia tão bem. Passou a compor o banco de reservas da equipe na temporada. Ainda assim fez 11 gols em participação parciais em 21 partidas.

Foi campeão nas três temporadas seguintes pelo Millonario. Convocado à Seleção Argentina fez parte do ataque chamado de “Los Carasucias” (com Maschio, Angelillo e Cruz), que levaría a Albiceleste à conquista da Copa América de 1957. No currículo da Albiceleste resultados como um 8 a 2 na Colômbia, 3 a 0 no Equador, 4 a 0 no Uruguai, 6 a 2 no Chile e 3 a 0 no Brasil; conquistando o seu 11º troféu. Uma seleção extraordinária que teve em Sívori o melhor jogador do Torneio e que não ganharia a Copa do Mundo do ano seguinte, entre outras coisas, por descartar alguns de seus carasucias que foram à Europa. Entre eles, o próprio Sívori. Depois da Copa América, foi transferido à Itália por uma cifra recorde de dez milhões de pesos.

Chegada à Juventus da Itália

Assim que desembarcou na Itália, Umberto Agnelli, presidente da Juventus, lhe disse: “Há dois anos que esperava tê-lo por aqui”. Ao que Sívori respondeu: “E há cinco anos que eu sonhava em jogar na Juventus”. A este fato se somou outro ainda mais positivo à sua boa recepção no Velho Continente. Minutos antes de sua estreia diante do Hellas Verona, Sívori deu quatro voltas no campo sem deixar a pelota cair, em uma demonstração de sua habilidade para os torcedores. Foi o começo de sua adoração na equipe de Turim. Mas não foi fácil.

Desde sua contratação, o presidente do clube, Umberto Agnelli teve de lidar com uma campanha de questionamento e de desprestígio em razão do alto valor pago ao River Plate. Essa campanha se agudizou ainda mais graças ao próprio jogador. Ele acreditava que não era bem aceito no clube e por alguma razão imaginou que o fato se devesse ao seu estilo. Também era comum, por exemplo, as falas de que um gigante italiano não poderia pagar uma fortuna a um atleta que sequer usava a perna direita. Ao fato se juntou a impressão de que sua baixa estatura era um aspecto relevante no pacote das críticas. Como jogar então? Ele não sabia. Seu rendimento era decepcionante. Mas, graças à forte personalidade que sempre possuiu, o jovem atacante bancou que recuperaria seu futebol apostando no estilo que o havia levado à Itália. Não deu outra, pouco tempo depois já era ovacionado dentro e fora de campo: um grande ídolo em Turim.

Assim como no River, foram três títulos nacionais consecutivos: 1957/58, 1959/60 e 1960/61, além das duas Copas da Itália de 1960 e 61. Neste ano ganharia o prêmio Bola de Ouro da Europa, da revista France Football. Na sua primeira temporada na Vecchia Signora marcou 22 gols em 32 partidas. Na temporada seguinte, 18 gols em 26 participações. Na temporada 1959/1960 anotou 27 gols em 31 partidas e na de 60/61 foram 26 gols em 29 jogos. Atuou na Juve até o ano de 1965, quando então se desentendeu com o novo treinador Heriberto Herrera e foi para a Azzurri napolitana.

Em sua chegada à nova casa, foi recebido pela maior festa já propiciada a um jogador na história do futebol italiano. Convertido no “Rey de Nápoles” foi tão ídolo no novo clube como na Juventus. E levaria sua nova equipe à conquista do vice-campeonato de 1967/68. Sua adoração em Nápoles só seria comparada à de Maradona, duas décadas depois. Mesmo vitimado por muitas contusões fazia a alegria dos napolitanos quando estava em campo. Porém, quatro anos depois de chegar ao Sul da Itália, essa alegria teve fim com sua retirada prematura do futebol. Cansado de apanhar em campo, Sívori se aposentou aos 33 anos de idade. Por ironia foi justamente depois de uma partida de sua atual equipe com a Juventus. O jogador retornava de longo afastamento, após cirurgia no joelho. Depois de receber uma pancada violentíssima no local se desentendeu com o agressor, foi expulso e decidiu que seus dias pela cancha chegavam ao fim. Retornou à Argentina. Primeiro a Buenos Aires, onde foi treinador por alguns clubes. Depois a San Nicolas de los Arroyos, que ele havia abandonado pelo amor ao futebol 24 anos atrás. Ali permaneceu até seus últimos dias, quando faleceu em 17/02 de 2005, aos 69 anos de idade.

Características

 

Omar Sívori foi considerado por especialistas recrutados pela Fifa como um dos 50 maiores jogadores de todos os tempos. Em outra lista aparece como o 16º melhor sul-americano do século XX. E tudo isso graças ao seu estilo peculiar de jogar futebol. Sua inteligência em campo era assombrosa. O que era refletido na leitura que fazia dentro da cancha. Era um assistente nato no estilo de Sneijder e Xavi Hernández. Justamente por ser cerebral recebeu o apelido de “el Cabezón”.  Contudo, era genial porque não se enquadrava em nenhuma comparação. Como exímio representante do futebol potrero era do tipo que apreciava o passe curto e o arremate de cara para o arqueiro. Diferentemente do que ocorria no futebol potrero, já nos terrenos baldios de San Nicolas era conhecido pelo arremate certeiro de meia e longa distância. Era capaz de colocar a bola onde quisesse bastava passar do meio-de-campo. Com apenas 1,63 metro conseguia fazer gols de cabeça pelo posicionamento e deslocamento dentro da área. Devido à sua agilidade era um típico fator surpresa para os defensores, que muitas vezes só se davam conta de sua presença quando a pelota já estava nas redes. Mas não foi por causa desses quesitos que se fez grande.

Dentro da cancha recordava Mohamed Ali. Enquanto o mito americano dava a cara para apanhar, Sivori dava as canelas para receber pancadas. E este aspecto o difere de qualquer outro jogador da história. Se não é difícil de recordar o quanto apanhou Maradona parece impossível imaginar que alguém antes dele apanhou muito mais. Isto aconteceu com “el Cabezón”. A marcação a Sívori era uma caçada desumana e sanguinária. Mas tinha um detalhe: ele gostava. No seu futebol havia o princípio das artes marciais de usar a força adversária como suporte para golpear o adversário. Era o que ele fazia com o seu drible. E provocava. E ria dos marcadores. E chamava para o drible. E quando muitos imaginavam que ia arrematar simplesmente parava e esperava pelo desespero dos defensores para dar mais um drible. Genial que era, confundia a marcação justamente porque quando imaginavam que ele pararia para mais um drible, el Cabezón surpreendia e colocava a bola nas redes.

Seu repertório de dribles não tinha fim, mas ele gostava mesmo era de colocar a bola por entre as pernas dos marcadores. Quanto mais era caçado mais provocava. Chorava de raiva quando era expulso de campo. Muitas vezes era preciso que os próprios companheiros o contivessem para não acertar a cara de algum árbitro, ou mesmo para sair de campo quando expulso. Muitas vezes tinha de ser carregado. Típico potrero, seu domínio da bola era completo e dificilmente a conseguiam tirar de seus pés. Destoava fácil, pois assim que tocava na bola, todos percebiam que o que ele fazia era diferente de tudo o que os outros praticavam em campo. Era tão provocador que em certa ocasião levou uma bofetada de John Charles devido à tamanha provocação que causava aos adversários. Esta foi a única vez que Sívori não devolveu uma agressão direta. É que o galês, além de companheiro de ataque, era também seu grande amigo pessoal.  Por fim tanto na Nápoli quanto na Juve, assim como no River Plate, Enrique Omar Sívori entrou para a galeria de grandes ídolos históricos.

O Fim

 

Em meados da primeira década deste século, San Nicolas de los Arroyos era uma cidade em plena recuperação econômica na província de Buenos Aires graças, sobretudo, à exportação de seus grãos, em alta no mercado mundial. Contudo a cidade continuava pacata e até silenciosa. Todavia o dia 17 de fevereiro de 2005 mudaria essa história com o falecimento de seu filho mais famoso: “el Cabezón Omar Sívori. Depois de lutar contra um câncer de pâncreas por quase cinco anos, o ex-atacante da Juve não conseguiu dar o drible final e faleceu finalmente, depois de alguns dias de agonia.  “A única forma de divertir a 60, 70 ou 80 mil pessoas, que vão a um estádio de futebol, é buscar a diversão de todos. Se uma pessoa, e apenas uma, não se diverte então o espetáculo não valeu a pena” (Enrique Omar Sívori).

Números de Omar Sívori
Seleção Argentina: 19 partidas, 9 gols.
Seleção da Itália: 9 partidas: 8 gols.
River Plate: 63 partidas: 28 gols.
Juventus: 253 partidas: 171 gols (4 não oficiais).
Nápoli: 71 partidas: 15 gols.
Artilheiro da Série A em 1961 com 27 gols.
Bola de Ouro da Revista France Football em 1961
Treinador: Seleção Argentina nas eliminatórias da Copa de 1974. Também treinador do River Plate, Rosário Central, Estudiantes, Racing e Vélez Sársfield.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo