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“Podemos surpreender na Copa do Mundo”

Os resultados não empolgavam. O principal destaque da equipe havia sido afastado do grupo. E o treinador estava com o cargo ameaçado. O cenário definitivamente não era nada bom antes da Copa das Confederações. Mas bastaram cinco jogos para que esse panorama fosse revertido e a pressão sobre a África do Sul se transformasse em esperança para a Copa do Mundo a ser disputada no país no ano que vem. Desacreditados até pouco tempo atrás, os Bafana Bafana agora sonham com uma boa campanha no Mundial.

É o que garante o zagueiro Matthew Booth, do Mamelodi Sundowns. Uma das gratas surpresas da seleção sul-africana na Copa das Confederações, Booth precisou superar as críticas da imprensa local para se firmar na equipe e se tornar uma das sensações do torneio. Único jogador branco entre os titulares do time, ele protagonizou uma relação especial com os torcedores. Os gritos de “Boooooth” que vinham das arquibancadas a cada toque seu na bola foram tema de diversas reportagens durante a competição. Nesta entrevista concedida à Trivela, ele fala um pouco sobre esse e outros assuntos.

Como é para você ter seu nome gritado pelos torcedores?
Na verdade, é uma surpresa para mim ser tratado da mesma forma que jogadores sul-africanos consagrados como Mark Fish, Lucas Radebe e John Moshoeu foram no passado. Me inspira a fazer cada vez mais o meu melhor em campo.

Qual foi a sua reação na primeira vez que recebeu essa homenagem da torcida?
Acredito que isso começou quando eu me transferi do Ajax Cape Town para o Mamelodi Sundowns em 1999. Naquela mesma época, eu também atuava pela seleção sul-africana sub-20 e vi os torcedores gritarem o meu nome nas arquibancadas pela primeira vez. Acabou sendo uma surpresa agradável. Em nenhum momento, passou pela minha cabeça que poderiam ser vaias.

Durante a Copa das Confederações, esses mesmos gritos chegaram a ser confundidos com insultos racistas. O que você acha disso? Ainda existe racismo na África do Sul?
Essa é uma situação um pouco chata. Eu tive que ter muita paciência para explicar essa questão para os jornalistas estrangeiros durante e depois da Copa das Confederações. O racismo ainda existe em regiões da África do Sul, mas, no futebol, em 15 anos de carreira, eu nunca tive problema com isso.

Sua convocação para a Copa das Confederações foi bastante criticada pela imprensa sul-africana. Como você superou isso?
Eu recortei as matérias que saíram sobre a minha convocação e prendi todas elas na parte de cima de minha cama. Assim, ficou mais fácil lembrar, sempre que acordava ou ia dormir, o que parte da imprensa pensava sobre mim. Isso me deu bastante força para provar que eles estavam errados. E, claro, o apoio de minha família também me ajudou bastante nesse momento.

Na Olimpíada de Sidney em 2000, você atuou na vitória da África do Sul sobre o Brasil. Quais lembranças você guarda daquela partida?
Aquele jogo foi memorável. Um dos pontos altos da minha carreira, sem dúvida. Ganhamos de um time muito forte do Brasil, formado por nomes como Ronaldinho Gaúcho, Alex e Fábio Aurélio, mas, depois, como sempre acontece no futebol sul-africano, acabamos perdendo para o Japão e a Eslováquia e voltando mais cedo para casa.

De qualquer forma, foi a partir daquela vitória que eu me tornei mais conhecido ao redor do país e consegui estreitar essa relação que tenho hoje com os torcedores. Isso, aliás, após ter feito também uma boa temporada com o Mamelodi Sundowns, conquistando, naquele mesmo ano, o campeonato e a copa nacionais.

E como você vê o atual momento de Ronaldinho Gaúcho?
Os grandes jogadores também passam por momentos ruins e estou na torcida para que ele possa recuperar a sua forma nesta temporada. É um dos melhores do mundo e eu sempre gostei de vê-lo jogar.

Benni McCarthy também estava presente naquele jogo na Olimpíada. A volta dele para a seleção sul-africana seria bem-vinda?
Com certeza. Ele fez muita falta em nosso ataque na Copa das Confederações. Não só em campo, mas também fora dele, orientando nossos jovens atacantes. Mas, primeiro, ele precisa resolver suas pendências com nosso treinador e a federação para retornar à seleção. O elenco, posso te assegurar, o receberá de braços abertos quando isso acontecer.

Como é atuar no clube mais rico da África do Sul?
É uma grande honra fazer parte do clube mais vitorioso da África do Sul nos últimos 20 anos. O nosso presidente, Patrice Motsepe, está sempre próximo da gente, envolvido com o time e, como qualquer empresário, atento aos resultados que alcançamos com o investimento que é feito na equipe.

Ao assumir o controle do Mamelodi Sundowns, Motsepe afirmou que seu sonho era ver o time entre os maiores do continente. Existe uma pressão interna em torno disso?
Essa pressão começa, na verdade, pela Premier League sul-africana. Hoje em dia, é bastante difícil conseguir a classificação para as competições continentais. E, ainda assim, mesmo quando esse objetivo é atingido, surgem, então, novos obstáculos nos jogos disputados fora de casa, em outros países. As condições de viagem, os árbitros, o clima, entre outros entraves.

O Sundowns está montando um time para melhorar esse retrospecto. E, embora Motsepe não nos pressione tanto, o próprio fato de sermos considerados o time mais rico da África do Sul já acarreta em uma pressão natural sobre o nosso desempenho.

O búlgaro Hristo Stoichkov assumiu o comando do Sundowns recentemente. Como tem sido trabalhar com ele?
Stoichkov foi um grande jogador, mas ainda não possui muita experiência como técnico. Apesar disso, conseguiu conquistar o elenco rapidamente e está fazendo um trabalho que tem deixado a todos satisfeitos. Não vemos a hora de começar logo a temporada. Como um dos atletas mais experientes do grupo, sei que ele espera muito de mim.

Ter ficado de fora da Copa do Mundo de 2002 foi a maior frustração de sua carreira?
Na verdade, uma das muitas, mas, de fato, foi, sim, a maior decepção da minha carreira. Nunca havia precisado fazer uma cirurgia até 2002, quando surgiu esse problema no menisco do joelho direito. Retornaria aos treinos em duas semanas, porém, acharam melhor me cortar.

Após a sua transferência para o futebol russo, você foi deixado de lado na seleção sul-africana.
Mas não me arrependo de ter ido, não. Tive uma passagem muito boa pela Rússia e consegui me firmar longe de casa durante esse período em que passei fora. No fundo, é claro, fica um pouco de mágoa por ter sido esquecido e chegar aos 32 anos com tão poucas convocações em minha carreira.

O responsável pela sua volta à seleção foi o brasileiro Joel Santana. Como é a sua relação com ele?
Temos um bom relacionamento. Respeito muito ele pelo trabalho feito no maior clube do Brasil, o Flamengo. E ele sabe como lidar com o grupo. É um treinador que compreende bem a cabeça dos atletas e que, assim como eu, conseguiu superar as críticas que vinham da imprensa.

Até onde você acredita que a África do Sul pode chegar na Copa do Mundo?
Depende muito do sorteio de grupos, mas, se continuarmos jogando da mesma maneira que fizemos na Copa das Confederações, tenho certeza que poderemos vencer qualquer seleção e protagonizarmos uma surpresa diante de nossos torcedores.

As vuvuzelas devem ser banidas dos estádios no Mundial?
É claro que não! É parte de nossa cultura e não matou ninguém até hoje.

A África do Sul está pronta para receber a competição?
Sem sombra de dúvida. É óbvio que ainda temos problemas a serem resolvidos em áreas como hotelaria e transporte público, mas, numa análise geral, posso dizer que estamos prontos para repetir o sucesso que foi a Copa das Confederações. Todos os torcedores sul-africanos estarão aguardando pelos brasileiros na festa do futebol mundial em 2010.

No Brasil, as entrevistas de Joel Santana em inglês viraram motivo de piada. O mesmo acontece entre os atletas?
Também gostamos de brincar entre nós quando ele comete algum erro. No entanto, posso garantir que ele já melhorou bastante e que agora raramente precisa do Jairo Leal, seu auxiliar, para traduzir alguma mensagem. E mesmo quando precisava, sempre conseguiu se fazer entendido entre os jogadores.

A prancheta dele faz sucesso na África do Sul?
Não é tão famosa por aqui, não, mas um detalhe que me chamou a atenção é fato de ela ainda ter um adesivo do Flamengo.

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Equipe Trivela

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