Pepe: um cometa no campo e na vida

Sempre há o contato entre o redator dos textos da Trivela e o seu editor para escolher o tema da coluna. Pensei em um ex-jogador que já teve seu perfil publicado. Assim, o editor sugeriu o português Pepe, “o melhor jogador português de todos os tempos”. Mas e o Eusébio, perguntei. Este é moçambicano foi a resposta. É verdade, e Pepe, além de grande jogador, é uma lenda de Portugal.

Sua morte prematura é uma das histórias mais tristes da história do futebol. No dia 24 de outubro de 1931, devido a uma intoxicação alimentar, morreu José Manuel Soares – o Pepe. Na véspera de sua morte, sua mãe preparou uma sopa com chouriço e, segundo a versão oficial, teria inadvertidamente confundido o sal com soda cáustica, causando a dramática e comovente morte do jovem de apenas 23 anos. Lisboa parou.

Várias foram as versões para a causa da morte, incrementando ainda mais o mito, a lenda. Acidente, crime ou suicídio? Pepe tinha uma noiva, mas algumas fontes contam que havia também uma amante na história. Aliás, as duas estavam presentes no velório, e a noiva, em uma cena de ciúmes, quis colocar a outra para fora do velório. Pepe, como notamos, era um jovem com alegria de viver, o que exclui a hipótese de suicídio, que também foi cogitada. A versão mais consistente é a de que o veneno se concentrou no chouriço da sopa, que a mãe tirou para que o filho preferido comesse com pão, enquanto o resto da família tomou apenas o caldo. A polícia descobriu tudo, mas, para não traumatizar mais a mãe, preferiu manter o silêncio sobre o caso.

Era inacreditável que tinha morrido o maior ídolo do futebol lusitano. Foi o maior funeral daquele país. O seu único time, o Belenenses, vestiu uma tarja preta durante o resto da temporada de 1931/32, quando – mesmo sem o saudoso companheiro- conquistou o Campeonato de Lisboa (espécie de campeonato estadual) e o Campeonato Português.

Belenenses e Seleção

A história do filho de vendedores de hortaliças se mistura com a das glórias do Belenenses, de Lisboa, na freguesia de Belém. Era uma época de muita pobreza em Portugal – a república dava seus primeiros passos -, e com a família de Pepe não era diferente. A vizinhança via o menino franzino como salvação da família, já que o rapaz mostrava seu talento nas ruas de Belém. Quando Pepe completou 11 anos, foi fundado o Clube de Futebol Os Belenenses. Logo o garotinho estava nas categorias de base do clube.

Com 18 anos, o mito já começava a se formar, jogando pela meia-esquerda. Sua estréia foi épica. Aos 30 minutos do segundo tempo, o Belenenses perdia por 4 a 1 para o Benfica. No final do jogo, já empatado, o juiz dá um pênalti para os Pastéis (alcunha do time de Belém). Ninguém queria assumir a responsabilidade de cobrar o tiro livre. Augusto Silva, o mais velho da equipe, virou para Pepe e disse: “O pênalti marcas tu!”. Mesmo receoso e envergonhado, o garoto foi lá e marcou o gol de um dos mais mágicos jogos de toda história do futebol. A torcida foi ao delírio, e Pepe, o “miúdo”, já era um herói.

O Campeonato Português começou em 1921. Na temporada 1926/27, o Belenenses conquistou seu primeiro título nacional, e foi nesta temporada que Pepe fez sua estréia na seleção portuguesa. Em março, Portugal bateu a França por 4 a 0, com dois gols de José Manuel Soares Louro, o Pepe. Ele não era mais um herói local, tornara-se um herói nacional. Quanto ao Campeonato Português, o título veio em junho com uma vitória de 3 a 0 sobre o Vitória de Setúbal. Com apenas 19 anos, Pepe recebeu o título de Sócio de Mérito do Clube de Futebol, em homenagem à graça alcançada.

Na temporada posterior, mesmo com boa campanha, o título não veio, mas Pepe continuava esbanjando seu bom futebol. Os Jogos Olímpicos de 1928 serviram para mostrar ao mundo o craque português. Em Amsterdã, já na estréia, o Cometa Azul (apelido de Pepe) marcou 2 gols na vitória de virada por 4 a 2 contra a dura seleção do Chile. No segundo jogo, mais uma vitória, agora contra a Iugoslávia. Além de uma péssima arbitragem (um gol anulado), o excesso de confiança atrapalhou os portugueses, que foram eliminados pelo Egito nas quartas-de-final. O meia-esquerda Pepe jogou pela direita, o que também pode ter influenciado no resultado final. Mesmo assim, Portugal entrava para o cenário do futebol mundial.

Mesmo com seu corpo franzino e apenas 1,70 metro de altura, seu chute forte e sua combatividade chamavam a atenção e incomodavam qualquer defesa. Na temporada 1928/29, os Belensenses conqusitou o Campeonato de Lisboa e o segundo título de Campeonato Português, conquista inédita para um time de Lisboa. Talvez, a temporada seguinte seja a que Pepe tenha exibido seu melhor futebol. Numa vitória contra o Bom Sucesso, um recorde inatingível até hoje em competições oficiais: 10 gols, sim, 10 gols em um jogo que terminou em 12 a 1. O único título da temporada foi o Campeonato de Lisboa, mas outro recorde foi batido: 61 gols em uma temporada.

O fim

Sempre com uma boina, que usava no dia-a-dia, no trabalho ou para jogar futebol, Pepe ainda jogou na temporada 1930/31, mas sem conquistar títulos importantes. Em 19 de outubro de 1931, num jogo em homenagem a Serra Moura, colega de seleção de Pepe e falecido prematuramente, Pepe fez – ironicamente – seu último jogo da vida.

Foram apenas cinco anos dentro de campo, deste craque que teria completado 100 anos em janeiro passado. Anos de gols e bom futebol de um herói português. Pouco se fala de suas glórias, pois era uma época sem Copa do Mundo, mas foi um herói inesquecível, tanto é que toda vez que o Clube do Porto visita o Belenenses coloca uma coroa de flores em um monumento em sua homenagem no Estádio do Restelo. É só mais uma prova da adoração da qual Pepe era alvo, já que nunca jogou pelo Porto.

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Equipe Trivela

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