Pavone: Vivendo um conto de fadas

Toda fábula tem um roteiro meio parecido: um herói humilde, que começa a história desacreditado, não impõe muito respeito, mas na hora H supera um adversário poderoso, entra pra história e vive feliz para sempre. É ou não assim?

E a Argentina vê, hoje, um jovem que vive seu conto de fadas. Ele passou da condição de jogador desacreditado pela própria torcida, que vivia sob a sombra do irmão mais famoso, para ídolo de seu clube e artilheiro do campeonato argentino. Falamos de Mariano Pavone, centroavante do Estudiantes.

Pavone sentiu o gosto da consagração no dia 20 de março, quando o Estudiantes recebeu o River Plate em La Plata. Particularmente para Pavone, o jogo era a oportunidade de mostrar à torcida que ele poderia substituir o ídolo Ernesto ‘Tecla’ Farias, que deixou o time no começo da temporada. E Pavone surpreendeu a todos marcando os dois gols da virada do Estudiantes e tornou-se o novo ídolo da torcida de La Plata.

A trajetória do ‘Tanque’

Os gols marcados contra o River foram definidos pelo próprio Pavone como “inesquecíveis”. Foram perfeitos para um jogador que, até antes da partida, não era bem-visto pela torcida do próprio clube. Apelidado pela imprensa e torcida argentinas de ‘Tanque’, Pavone é, de fato, um jogador que não tem a técnica como sua principal virtude. Faz mais o gênero trombador, usando a força física como principal virtude para ganhar as disputas na área.

Talvez a boa constituição física seja fruto da família de atletas da qual Mariano faz parte. Seu irmão mais velho, Gonzalo, apelidado de ‘Negro’ pelos torcedores do Estudiantes, também defendeu o time de La Plata e hoje está no Extremadura, da Espanha. O mais novo, Tomás, hoje está nas categorias de base do Estudiantes. Já o pai dos três também era esportista, mas de outra modalidade: o automobilismo.

No meio da família de atletas, foi natural que o jovem Mariano se interessasse em seguir a carreira de esportista – apesar de, durante a juventude, ter feito ‘bicos’ como atendente em uma lanchonete. Deixou o município de Tres Sargentos, onde nasceu, e rumou para La Plata, para defender o Estudiantes. Nas categorias de base dos Pincharratas, Pavone mostrou competência para permanecer no clube quase que ininterruptamente até se profissionalizar.

Queda e ressurgimento

Quando finalmente ingressou no elenco profissional, em 2000, Pavone sentiu a pressão de defender um clube que passa por um momento instável – o Estudiantes não conquista o campeonato nacional desde 1983 e não é nem sobra do time que surpreendeu a América ao levantar o tri da Libertadores em 1968, 1969 e 1970. Na década de 90, o clube chegou até a passar algumas temporadas na Segundona.

Soma-se a isso a tradição de goleadores formados pelo Estudiantes. Além de ‘Tecla’ Farias, que hoje defende o River Plate, o clube de La Plata revelou nomes como Calderón, Romeo, Galetti e Martin Palermo.

Com tanta pressão na cabeça, foi até natural que o garoto de Tres Sargentos não vingasse no time principal. A maior parte dos torcedores do Estudiantes não acreditava em seu futebol e, quando apareceu o interesse da Universidad do Chile na contratação de Pavone no começo de 2004, parecia que o negócio seria bom para ambas as partes. Pavone receberia um bom dinheiro na transação, e a torcida do Estudiantes se veria livre de um jogador que mais rendia vaias do que gols.

Mas a transação não vingou, e Pavone acabou permanecendo no Estudiantes. E, ainda seguindo a tradição dos contos de fadas, a ‘fada madrinha’ do centroavante acabou sendo o técnico Mostaza Merlo, que assumiu o clube em 2003. Foi ele que bancou a permanência de Pavone no clube e foi quem confiou que ele substituiria Farias à altura.

Foi então a ‘fada madrinha’ quem disse a Pavone: “você vai fazer dois gols nesse jogo”. As palavras de Merlo fizeram efeito e, realmente, Pavone acabou anotando duas vezes no confronto contra o River Plate. Hoje, é o artilheiro do campeonato argentino, com uma marca que surpreende a cada rodada. Já até fala em seleção e o jogador desmente negociações com o exterior – entrou na rotina de craque, quem diria. Agora é hora de ver até quando esse conto de fadas vai durar.

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