Ouro, Prata e Yulianti

A psicologia esportiva chegou à Pequim como favoritíssima ao ouro. Era a mais comentada pelos brasileiros que nos últimos meses se acostumaram a associar o “chororô” aos fracassos no esporte. Tudo começou com o Cuca e terminou, é claro, com a Jade Barbosa. Mas quem subiu no lugar mais alto do pódio em Pequim foi mesmo a fisiologia.

Nunca se falou tanto essa palavra. Quem acompanhou a Olimpíada em um dos 237 canais disponíveis está obrigatoriamente familiarizado com essa expressão que serve mais ou menos para qualquer comentário, sobre qualquer atleta e de qualquer país. Serve até para explicar porque o cavalo bate ou não bate no obstáculo. Com Usain Bolt e Michael Phelps nas raias, então, virou febre. A fisiologia deles é espetacular, seja lá o que isso significa. Valeu até criticar a repentina mudança no peso da bola, que – acreditem – segundo um comentarista mudou a fisiologia dos atletas de vôlei.

Falar da Olimpíada de Pequim, ou seria Beijing 2008?, é falar de comida, é claro. A exótica gastronomia foi pauta das primeiras duas semanas da cobertura intensiva. No final, acredito, todos descobriram onde era o McDonald’s. A imprensa também parece ter ficado um pouco revoltada com a ausência de protestos durante os jogos. O cerco chinês parece ter funcionado, o que matou um terço das possíveis pautas. A solução foi mesmo ter que falar de esporte.

E, como todo mundo sabe, Olimpíadas são legais para burro, mas contraditoriamente meio monótonas. Principalmente se o horário das disputas for no meio da madrugada. O fenômeno acontece porque os esportes coletivos e o atletismo acabam se resolvendo só nos últimos dias e a maioria dos outros esportes são de difícil acompanhamento. Judô pode ser super legal. Saber o que é shido, wazari e yppon é um orgulho para qualquer fã olímpico, mas é impossível acompanhar todo um dia olímpico do judô. Não é à toa que não virou o esporte mais popular do mundo. O mesmo raciocínio se aplica a todos os outros esportes. Menos adestramento, que não é esporte.

Olimpíada é a hora daquelas histórias emocionantes de superação serem mostradas ao mundo e, de preferência, em confrontos impensáveis. Por isso, não acho que o americano Phelps deve ser o nome dessa Olimpíada, nem mesmo Bolt – apesar de ter muito mais simpatia por esse. O nome da Olimpíada de Pequim é, sem medo de errar, Maria Kristin Yulianti. A jogadora de badminton da Indonésia que odiava o esporte quando era criança não era uma das favoritas e chegou à disputa do bronze com uma ingrata missão: evitar que a China levasse ouro, prata e bronze na categoria simples, entre as mulheres. Vale lembrar que o esporte da peteca, jogada com raquete de squash, rede de vôlei e mini-quadra de tênis é bem popular lá na China e a torcida não só lotava o estádio como fazia um barulho capaz de desestabilizar a fisiologia de qualquer psicólogo esportivo. Ainda assim, Yulianti teve forças para bater a chinesa Lu Lan, em uma virada sensacional por dois sets a um. Ufa, que jogo!

A Olimpíada vai embora e com ela todos os esportes que não vingaram como o futebol. A nova promessa do governo para Londres, ou será London 2012?, é investir durante esses próximos quatro anos em modalidades individuais, porque essas dão mais medalhas. Levantamento de peso promete ser uma delas. A única esperança que me resta é torcer para a fisiologia ganhar o bi-olímpico. Afinal, nem inglês merece ver marmanjo bombado chorando.

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Equipe Trivela

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