Osasco, 9 de agosto de 1998

Nasci em um hospital no Bexiga e passei toda minha vida morando na Zona Sul de São Paulo. Por mais que eu goste da ZS e tenha me acostumado a ela, porém, não posso negar que tenho um pé na Zona Leste. Uma parte grande da minha família é do eixo Vila Prudente-Vila Zelina-Mooca e, durante minha infância e adolescência, quase todo fim de semana eu rumava à ZL.

Como você já devem ter imaginado, vez ou outra eu resolvia dar as caras na Rua Javari. Lembro-me da primeira vez: um primo mais velho, macaco-velho da casa juventina, me levou para um Juventus x Ponte Preta pela última rodada do Campeonato Paulista de 1995. Quem perdesse seria rebaixado.

Apesar da importância do duelo, o clima era diferente. Tenso, claro, ninguém gosta de ser rebaixado. Mas era mais… ingênuo (no bom sentido). A torcida da Ponte entrou pelo portão principal, onde estavam os juventinos. Conceição, torcedora-símbolo da Macaca, foi conversar com Serjão, diretor da Ju-Jovem. Ambos se abraçam e falam “gostaria de lhe desejar boa sorte, mas, você sabe, hoje eu preciso ganhar”.

O jogo rolou, o Juventus ganhou e a Ponte caiu. Nos anos seguintes, não deixei de acompanhar o time grená em sua casa (sempre com os dois clássicos da Javari: a esfiha Juventus antes da partida e o canoli durante). Duelos contra Araçatuba, União São João, XV de Piracicaba e outros tantos times do interior paulista que faziam boas campanhas até os clubes de empresários e prefeituras tomarem conta do Estado.

Por isso, quando a CBF anunciou que Fluminense e Juventus estariam no mesmo grupo da Série B de 1998, eu logo comecei a pilhar meus amigos para irmos à Javari ver tão nobre encontro. Só dois aceitaram me acompanhar. E não desistiram nem quando foi definido que a partida seria em Osasco, não na Mooca.

Fizemos questão de ir no ônibus com a torcida juventina, cantando coisas como “Mooca é Mooca / O resto é b*%#” e “A, e, i, tem que ser na Javari”. Na chegada, houve um medo de alguma organizada do Fluminense resolver partir para a briga. Que nada! Tricolores e grenás se confraternizaram antes do jogo, reclamando do local da partida (o estádio de Osasco passava por reformas, estava em pior estado que a Javari) e do infortúnio de estarem se encontrando.

Podem falar do dramático título da Copa Paulista, mas acho que aquele jogo foi a maior glória do Juventus desde a conquista da Taça de Prata de 1983. Vitória por 1 a 0, com gol (roubado) no meio das pernas do Ronaldo (ex-Corinthians e ex-roqueiro). A torcida do Flu perdeu a paciência e ameaçou invadir o gramado para tirar satisfação com seu próprio time. A polícia impediu, ainda que isso tenha custado um certo grau de destruição do que havia do estádio em Osasco.

Nesses últimos 11 anos, nunca deixei de ter carinho pelo clube da Mooca. Em 2006, até levei dois amigos de fora (um paranaense, torcedor do Atlético, outro paraense, remista) para a Javari (que deveria, sim, ser considerado um ponto turístico de São Paulo). O Moleque Travesso deu mais um empurrãozinho no que seria o rebaixamento da Portuguesa.

Na saída, os motoristas que passavam pela rua perguntavam o resultado para os juventinos. Teve início um pequeno buzinaço. Um pedestre qualquer parou meu amigo paraense e perguntou quanto tinha sido o jogo. Todo animado, o ilustre remista me falou: “puxa, que legal. As pessoas daqui realmente se preocupam com o Juventus!”. Verdade. Gostar do Juventus uma obrigação cívica de quem mora na Mooca ou gosta do bairro.

Isso não é gratuito. Quando se passa pelo portão principal da Rua Javari, parece que futebol profissional é uma coisa mais simples e gostosa. É ir para o estádio, comer uma esfiha, um canoli, tomar alguma coisa (porque esfiha + canoli dão sede), ver um joguinho de futebol e voltar para casa sabendo que sua tarde de sábado ou domingo foi bem aproveitada. É o futebol pelo futebol, e também pela comunidade que se forma em torno de um time. Sem achar que o amor ao clube só é válido se houver muito marketing por trás ou vitórias. Como se, em época de derrotas, você passasse a gostar menos do time.

Sim, eu gosto muito do Juventus e trabalho na Trivela. Aliás, no geral, as pessoas que trabalham na Trivela gostam do Juventus. Tanto que criamos uma campanha ligada ao Juventus, clube do coração de um dos maiores amigos deste veículo (desavisados, cliquem aqui para saber de quem estou falando).

O fato de o Caio ter escrito um texto reclamando do que ele considera uma “modinha de exaltar o futebol romântico” não significa que a Trivela tenha feito isso. Ele, Caio, o fez. Ele não é a Trivela. E eu também não sou. Ele emitiu sua opinião naquele momento, do mesmo modo como eu emito a minha agora.

É por isso que cada texto nesse blog é assinado. E é por isso que evocar a memória de um amigo nosso é de uma covardia e falta de se-mancol gigantesca. Porque ele sabia muito bem as diferenças de opinião dentro da própria Trivela. E as respeitava. Por favor, façam o mesmo. Ou vocês sentem prazer em se irritar com as coisas sem motivo?

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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