Os 12 trabalhos de Edson

Bauru, 1950. Endiabrados, cinco meninos invadem um vagão de trem estacionado na Estrada de Ferro Sorocabana. Os pestinhas então saqueiam os amendoins contidos no vagão, com o maquiavélico intuito de vendê-los nas praças e na entrada do cinema da cidade e, com o dinheiro da tramóia, comprar bolas e uniformes de futebol.
Caminhando para a casa após mais uma tarde de pelada, o pequenino Edson escutou um chamado:
– Menino, venha cá.
– Quem é o senhor? – perguntou o garoto, assustado.
– Sou Delfônio, o Preto Velho de Bauru. Eu sei o que vocês têm feito naqueles vagões e quero que você saiba que por causa deste pecado seu sonho jamais se realizará. Enquanto estiver vivo, você assitirá às partidas de futebol do lado de fora do campo. Jamais pisarás num gramado como profissional.
– Não! Meu pai me disse que serei o maior jogador de todos os tempos.
– Conversa fiada daquele velho frustrado. Seu talento jamais será exercido profissionalmente.
– Não diga isso! Eu farei o que for necessário para quebrar a maldição, entende? Deve haver uma maneira!
– Na realidade, há. Mas nenhum humano conseguiria reverter o efeito da maldição. – completou, reticente, o ansião.
– Diga-me o que é e eu farei.
– Existem 12 tarefas que jogador algum conseguiu cumprir. Caso consiga completá-las, o que eu sinceramente duvido, continuarás jogando. Mas assim que falhar em uma delas, qualquer que seja, sua carreira estará arruinada para sempre. Uma contusão o jogará no calabouço do anonimato. E, para que jamais roube nada na vida, seu país jamais vencerá uma copa do mundo.

Cabisbaixo, atordoado com a maldição do preto velho e com um papiro velhíssimo debaixo do braço, o guri rumou pra casa, com os olhos cheios d’água. Nem mesmo Dondinho conseguiria completar aquelas maluquices. Passou aquela noite em claro, desolado. Por causa de um crimezinho besta seu sonho tinha ido por água abaixo, seria engraxate para sempre. A vida era mesmo injusta.

Estocolmo, 19 de junho de 1958. Diante dos 51.800 torcedores presentes no estádio Rasunda, o menino Edson anota dois gols, maravilha o mundo e se torna o mais jovem campeão do mundo, aos 17 anos e 8 meses de idade. Aos prantos, no vestiário, encontrou o preto velho de Bauru balançando positivamente a cabeça, em sinal de aprovação.

Santos, 1958. Levando o preto velho a sério, Edson anota 58 gols em 30 jogos e se torna o maior artilheiro da história do Campeonato Paulista. De quebra, ajuda o Santos a ganhar seu 4º título estadual. Ao chegar em casa, encontrou um cajado sobre o sofá da sala.

Recordando aquela tarde nefasta em Bauru oito anos antes, Pelé lembrou-se de ter visto o Preto Velho usando uma camisa do Corinthians por baixo de sua roupa de preto velho ameaçador de criancinhas. Encarando aquilo como um sinal, e notando que a terceira tarefa no papiro estava ilegível, tratou de ficar 10 anos, ou 24 jogos, sem perder um único jogo para o alvinegro de Parque São Jorge. Afinal de contas, um preto velho como aquele tinha tempo de sobra pra esperar sua revanche.

Rua Javari, dois de agosto de 1959. Irritado com a marcação da torcida, e obediente ao tal pergaminho, Pelé recebeu a bola na meia lua adversária, aplicou três chapéus consecutivos, chapelou o arqueiro Mão de Onça e cabeceou para o fundo do gol vazio. Na comemoração do gol antológico, assustou-se ao ver, no rosto do gandula embasbacado, a expressão facial daquele Preto Velho danado.

Dois anos se passaram e uma tarefa inglória surgiu diante do Rei, em pleno Pacaembú. O Santos vencia o Grêmio por 4 a 3 pela Taça Brasil, 3 de Pelé. Aos 40 do segundo tempo, o goleiro Gilmar foi expulso. Pelé leu o pergaminho, aceitou o desafio e vestiu a camisa número 1 do Santos. Os jogadores do Grêmio sentiram que poderiam chegar pelo menos ao empate, devido à inexperiência de Pelé na posição, e chutaram de todas as distâncias. Pelé fez duas defesas sensacionais e garantiu a vitória de seu clube por 4 a 3. Foi ovacionado e carregado em triunfo pelos seus companheiros, pra azar de quem imaginava que no gol o gênio fraquejaria.

Em circunstâncias normais, a artilharia do campeonato Paulista de 64 não seria uma tarefa digna de figurar naquele pergaminho empoeirado. Afinal, Pelé se sagrou artilheiro 11 vezes neste torneio. Mitológico mesmo foi fazer 8 gols no massacre de 11×0 ante o Botafogo de Ribeirão Preto em 21/11/64, ultrapassar os concorrentes e garantir a artilharia.

Preocupado, o tal Preto Velho resolveu se encarregar pessoalmente de impedir que aquele menino petulante aprontasse mais uma. Em 1968, disfarçou-se de árbitro no estádio El Campin, onde se enfrentariam Santos e Millionarios, em partida amistosa na Colômbia. O suposto árbitro anulou um gol de Pelé, que, enfurecido, reclamou e foi expulso, para desespero da massa presente. Ensandecida, a torcida local começou a atirar objetos no campo e ameaçou derrubar o alambrado e atear fogo nas arquibancadas. Temendo pelo pior, a policia decidiu mostrar o cartão vermelho para o tal árbitro e autorizar o retorno do rei, que retribui anotando mais 3 gols na goleada de 5 a 1 do Peixe.

Cinco anos depois o Santos decidiu excursionar no antigo Congo Belga. Fora de campo, os exércitos de Kinshasa e Brazzaville mediam forças e o ambiente era tenso. Preocupado com sua oitava tarefa, Pelé viu a delegação do Santos ser escoltada por soldados locais, que transferiram a guarda para as forças inimigas no meio do rio que separa as duas regiões. No dia seguinte ao jogo, o time volta a Kinshasa e é avisado de que só poderá partir se também jogar naquela cidade. O Santos joga, Pelé recebe muitas homenagens, a equipe segue viagem em paz e, só então, a guerra recomeça.

Em Bauru, mascando mato, o Preto Velho se desespera. Que tipo de jogador provoca um armistício, aspiração do Barão Pierre de Coubertin e prática tradicional na Grécia Antiga? Mas o Velho refletiu, olhou as quatro tarefas restantes e manteve a calma.
Estádio Mário Filho, 19 de novembro de 1969. Aos 34 minutos de jogo o Rei é derrubado na área. Em meio à euforia que tomou conta de todos, Pelé silenciou.

Lembrou-se de um sonho estranho que tivera na véspera. Um fulano chamado Hércules, que ele nunca tinha visto, contou-lhe uma história estranha sobre um tal de Diómedes, filho de Ares, possuidor de cavalos que vomitavam fumo e fogo, aos quais ele aliemntava com os estrangeiros que naufragavam durante as tempestades na região. No final do sonho o pergaminho trazia em letras garrafais: “fazer o milésimo gol no maior estádio do mundo”. Como confessaria depois, Pelé tremeu neste momento. Vieram-lhe à mente as críticas recentes e seu sonho de jogar a Copa do México. Tudo isso, agora, se resumia àquela bola na cal e ao arqueiro Andrada, cujos traços subitamente envelhecidos lhe remetiam a alguém familiar naquele momento. O semi-deus do futebol respirou fundo, partiu para a bola e gravou seu nome na história do esporte.

O ano seguinte lhe reservava estranhas tarefas, mas Edson estava confiante. Graças a ele, o comércio da caótica capital mexicana fechou em pleno dia útil. Disfarçado de mariachi e mais uma vez emputecido, o Preto Velho se aproximou de um estabelecimento e leu a mensagem afixada na porta, que não deixava dúvidas sobre o sucesso na conclusão da décima tarefa de Edson: “hoje não abriremos, fomos assistir o Rei”.

O décimo primeiro desafio, entretanto, era dos mais traiçoeiros. O pergaminho era claro: “em apenas seis jogos, entrar para a história do futebol por três quase-gols”. Aquilo cheirava a jogo sujo, era um exercício triplo. Mas Pelé não tinha superado dez tarefas hercúleas em vão. Logo no primeiro jogo ele começou a se garantir, percebendo o Goleiro Viktor, da Tchecoslováquia, adiantado e tentando um chute de 70 metros, direto do meio do campo. Viktor voltou desesperado mas a bola raspou a trave. Dia 7 de junho o Brasil enfrentou a Inglaterra e Pelé protagonizou outro “quase-gol memorável”. Cruzamento na área e Pelé acerta uma cabeçada certeira.

A bola toca no chão e vai entrando quando o goleiro Banks, da Inglaterra, se estica todo e espalma A bola sobe, sai por cima do gol e decreta a maior defesa de todos os tempos. A esta altura Pelé lembrou-se do sofrimento infligido por Ghiggia 20 anos antes e decidiu que o terceiro lance seria contra a celeste olímpica. Após lançamento preciso de Tostão, o Rei antevê a saída do goleiro Mazurkiewicz, passa pela bola e proporciona o mais plástico lance do torneio ao dar a volta no goleiro e chutar. A bola trisca a trave e vai para fora.

Estádio Azteca, 21 de junho de 1970. Ciente de aquele era o dia mais importante de sua carreira, Pelé sentou sozinho no vestiário, antes da partida e chorou. O filme de sua vida, desde o fatídico encontro com o Preto Velho em Bauru, passou lentamente em sua cabeça. O Maracanazzo, a contusão em 62, as botinadas de 66, as acusações antes do mundial do México, as malditas 12 tarefas dos últimos 12 anos. Incrivelmente consciente de sua importância na história do futebol, Edson percebeu que ele jamais seria Pelé se esmorecesse diante da Itália naquele dia. Vestiu seu manto invisível, entrou em campo, teve uma atuação soberba na mais memorável partida de todos os tempos e tornou-se o único jogador três vezes campeão do mundo. Das tribunas do estádio, João Havelange lhe fitava usando um chapéu de palha.

Deixou o gramado para entrar no panteão do futebol. Estava livre das 12 tarefas. Podia descansar em paz.

Alguns anos depois, caminhando na orla de Santos despretensiosamente ao lado de seu pai, Pelé finalmente mencionou o encontro com o Preto Velho, as 12 tarefas e toda aquela loucura:
– Sabe qual foi minha sorte, pai?
– Qual? – perguntou Dondinho
– Aquele Preto Velho não incluiu na lista a tarefa de bater seu recorde de cinco gols de cabeça num mesmo jogo. Este eu jamais teria conseguido quebrar.

Os dois sorriram e decidiram tomar um sorvete.

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Equipe Trivela

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