Onde deu errado?

Por Daniel Brito

Era uma noite de sorte para George Best. Aposentado há alguns anos, aproveitava uma ótima maré em um cassino em Birmingham, ao lado da bela Mary Stavin, que recentemente havia conquistado o título de miss universo. Aliás, belas mulheres era algo a que Best estava acostumado desde os tempos de jogador, ao lado de outras paixões, como carros, roupas e a inseparável bebida. A sorte, que parecia tê-lo abandonado há algum tempo, é que resolveu dar as caras.

Seu desempenho era dos melhores. Digno até de ser comparado a uma outra noite memorável sua, em que chamou a atenção da imprensa portuguesa e ganhou o apelido que ficaria marcado para sempre em sua vida: “o beatle”. Naquela ocasião, em 1966, Best simplesmente marcou dois gols no Benfica do lendário Eusébio, sendo determinante para o avanço do Manchester United à semifinal da Copa dos Campeões da Uefa.

Apesar da partida memorável de sua jovem estrela norte irlandesa, o Manchester de Matt Busby foi eliminado na sequência pelo Partizan. A decepção levou dois anos para ser plenamente superada, e em grande estilo: Best, ao lado de outras lendas como Dennis Law e Bobby Charlton levaram o United a conquistar a Europa em 1968, novamente, derrotando o Benfica de Eusébio.

Best, o beatle, poderia ser visto como alguém de sorte, embora esta nunca tenha sido uma companheira frequente nos tempos de futebol. O que fez de George Best um dos raros jogadores conseguiram mudar o jogo foi sua competência, aliada à sua autenticidade. O apelido veio por causa de seu estilo extravagante fora dos campos. Best se comportava de forma impensável para um jogador de futebol de sua época.

A naturalidade com que conciliava seus brilhantismos dentro de campo com os carros, as roupas caras, as belas mulheres e os exageros com o álcool fora dele, fizeram de Best o primeiro jogador com status de celebridade. Este, inclusive, é um de seus legados mais importantes, que vem se perpetuando cada vez mais no futebol moderno. Infelizmente, o outro legado seu parece ter sido esquecido há tempos: a autenticidade com que adotava este comportamento.

Por essas e outras, George Best era reconhecido onde quer que estivesse, seja durante ou depois de sua carreira, como era o caso daquela noite em Birmingham. A maré de sorte era tão grande que, ao trocar suas fichas por dinheiro no fim da noite, estimou ter ganho 20 mil libras. Após o árduo trabalho de espalhar as notas em seu sobretudo, sob o olhar cansado de Mary, Best foi andando com sua companheira rumo à sua suíte no Holiday Inn.

Assim que chegou ao quarto, foi direto ao telefone para pedir uma garrafa de Dom Pérrignon, enquanto Mary realizava outro árduo trabalho, o de tirar a maquiagem. Best tirou o dinheiro de seu sobretudo e o espalhou pela cama, para poder contar melhor o saldo da noite.

A contagem é interrompida pela campainha. George se levanta, abre a porta e, gentilmente, convida o garçom para entrar. O rapaz agradece. Seu sotaque é familiar, certamente, também de Belfast. Enquanto o olha colocar a champanhe e os copos sobre a mesa, Best pensa “Somente um irlandês poderia trazer três copos”.

George se oferece para abrir a champanhe e, enquanto o faz, presta atenção no jovem garçom, que dividia seu espanto entre as notas de libras, que ocupavam toda a cama, e a bela Mary, que penteava seu cabelo enrolada em uma toalha. Assim que enche os copos, o beatle pega uma das notas de 50 libras e dá ao rapaz como gorjeta, certamente muito mais do que costumava ganhar ao longo da semana.

Embora hesitante, o jovem aceita a generosa gorjeta e se dirige à porta. Antes de sair, diz: “Senhor Best, posso perguntar uma coisa?”. “Claro”, responde. Ainda hesitante, pergunta “Me diga, Senhor Best, onde tudo deu errado?”. A expressão estática do ex-jogador foi a deixa para que o garçom deixasse o quarto e, de certa forma, foi também a resposta à sua pergunta.

Lá estava George Best, em uma luxuosa suíte de um dos melhores hotéis da Inglaterra, comemorando uma ótima noite ao da mulher mais bonita do mundo e tudo isso estava acontecendo porque, em algum lugar do passado, algo deu errado. O mais perturbador para George não foi questionar o olhar de pena do rapaz, ao vê-lo numa situação que muitos homens dariam tudo para viver. O problema era que, no fundo, o jovem tinha razão, e ele de fato não sabia onde deu errado.

Naquela noite, e durante toda sua carreira, nunca faltou nada a Best. Por sua genialidade com a bola nos pés, conquistou fama, dinheiro e prestígio, mas sempre conviveu com a frustração de saber que podia muito mais. De fato, talvez não tenha sido uma noite de tanta sorte. Para alguém que teve tudo o que quis, sobrou também o azar de nunca ter percebido o quanto poderia ser melhor.

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Equipe Trivela

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