O seqüestro da bola

– É o seguinte, cara. A sua mãe está comigo. Você entende o que eu digo, não?

– Vocês a seqüestraram? O que vocês querem? Quanto vocês querem?

– Fica tranqüilo, é só fazer exatamente o que a gente mandar. Talvez não custe nenhum centavo do seu bolso.

– E o que vocês querem em troca?

– A sua colaboração.

– O quê?

– Amanhã.

– Que tipo de colaboração?

– Amanhã você saberá. Entraremos em contato. E sem polícia na jogada. Senão, nem amanhã, nem nunca.

O clique seco do outro lado da linha encerrou o diálogo.

Fabiano, agora totalmente desperto, ainda rememorava os últimos minutos, o acordar sobressaltado com o soar insistente do telefone no meio da madrugada e a ligação bombástica. Não acreditando, tentou o celular da genitora. Sem sinal. Pensou em percorrer as casas dos parentes por telefone. Quem sabe não seria um blefe, uma dessas ligações que a televisão cansou de exibir, eesses seqüestros fictícios, só para extorquir dinheiro. Talvez a mãe estivesse na casa de algum conhecido…

Mas, por qual motivo não revelaram nada na mesma hora? Seqüestro de mentira é imediato, a negociação é no agora e já.

Desistiu da idéia dos telefonemas. Preocuparia a todos caso incomodasse os parentes no meio da madrugada, e alguém poderia dar com a língua nos dentes. Principalmente porque nada na sua mente indicava-lhe a hipótese de um trote. Tudo – ou nada – encaixava-se para ser real.

Desafiou-se somente em uma tentativa telefônica: o número da própria casa da sua mãe, que vivia com o companheiro, padrasto dele. Seis toques e secretária eletrônica. Nenhum sinal de vida do outro lado da linha. E o velho, onde andaria a uma hora dessas?

Decidiu dormir. Tinha uma vaga sensação, que se tornava cada vez mais convidativa. Imaginar que, acordado, estaria num profundo e quase real pesadelo, e que numa piscadela, num beliscão, ou no simples toque do despertador do celular, estaria desperto para mais um dia normal e comum de trabalho.

Apostou no sono: ele não veio. Deitou-se, rolou na cama, posicionou o travesseiro em todos os pontos possíveis da cama. Horas passaram-se.

Só acordou novamente ao vibrar inconsolável do celular, gritando por alguém a atendê-lo. Dera-se conta que não verificara sequer o número da ligação anterior. Conferiu a informação no visor: sem identificação. Não seriam tão amadores assim. A pouca esperança daquilo ser mentira esvaiu-se no primeiro segundo desperto. Aquilo estava acontecendo.

Atendeu esperando pelo pior, antevendo o que se tratava.

– Hoje.

– O quê?

– Você vai jogar como nunca jogou na vida.

– Não estou entendendo.

– Vai amarelar, seu palerma imbecil! – a voz, a mesma de horas antes, elevou o seu tom. – Você vai simplesmente arriar em campo.

– Você quer que eu jogue contra o meu time?

– Não é tão burro quanto à sua profissão exige. Você não vai se esforçar. Não vai marcar, não vai correr, não vai fazer gols. Não vai fazer nada!

– Você só pode ser louco! Eu tenho família para sustentar, uma carreira, um contrato para respeitar! Não posso fazer isso!

– Ou o seu contrato, ou a sua mãe! – berrou, em tom de ordem, a voz do seqüestrador do outro lado da linha. – Hoje, você vai fazer a pior partida da sua vida. O pior jogo que um jogador de futebol possa fazer.

– Você só pode ser um fanático mesmo…

– Você pode entender deste jeito. Um fanático, mas que está com a sua mãe. E só depende de você voltar a vê-la.

– Eu mato você se alguma coisa acontecer a ela!

– Não está em posição de amedrontar a minha pessoa. E agradeça, pois poderia pedir algo muito mais difícil em troca. Estou fazendo um favor a você! Aceite a oferta, não é toda hora que uma oportunidade dessas aparece! E, já sabe, não quero ver polícia nem ninguém estranho interferindo.

– Eu quero uma prova de que a minha mãe está aí – um breve silêncio de segundos.

– Filho, esse homem é um lunático, ele é… – não conseguiu terminar o raciocínio.

– É o suficiente pra você? – o craque reconheceu a voz, realmente não era uma piada de mal gosto.

– Como vou saber que vai cumprir o acordo?

– Você será avisado – sem aviso prévio, desligou o fone na cara do jogador, em desespero profundo e aparente.

Saiu do quarto do clube, pois estavam concentrados havia dois dias. Dera uma sorte tremenda por não ter compartilhado o cômodo com nenhum companheiro. Entretanto, atravessaria um dia inteiro imerso em preocupação, e sem poder revelar nada. Fingir naturalidade numa situação dessas, como seria possível?

Respirou fundo no corredor comprido e deserto e desejou-se sorte em voz baixa. E, já atrasado, seguiu para o café da manhã.

– E aí Edson, trocou a comida pelo sono? – observou um companheiro, o outro atacante da equipe, o que faria com ele a dupla titular no jogão de mais tarde.

– Acordei meio indisposto hoje?

– Nem brinca, rapaz! Você tem que estar inteiro, alegre, firme! É o craque do time, não está vendo as notícias dos últimos dias?

– Nossa, Edson, que cara horrível! O que aconteceu, teve pesadelos? – questionou Luiz, volante do time.

– Não estou legal hoje…

– Quer que avisemos o professor? – Edson, de repente, despertou. Evitar jogar poderia ser uma saída. Mas, como saber? Preferiu não arriscar.

– Não, está tudo bem – ele se sentou, engolindo devagar, a pulso, o leite e o pão francês servidos no café da manhã. Esforçou-se para concentrar-se, entender e rir das piadas dos colegas, que na verdade, entravam num ouvido e saíam pelo outro. Antes de todos, levantou-se e voltou para o quarto. Teria ainda muito tempo para refletir – e martelar – o problema. Não teria que dar as caras pelo clube, sem treinamentos, sem compromissos agendados para o dia do jogo. Poderia passar o dia inteiro no quarto, se quisesse. Mas, sabia que não seria fácil evitar os colegas durante toda a jornada, mesmo porque, o isolamento certamente despertaria questionamentos alheios.

Dormir, não conseguiria. Não com aquilo na cabeça. E a idéia de inventar uma contusão ou mal estar qualquer para não ser escalado para a partida foi ganhando cada vez mais vida na sua mente. Não se responsabilizaria pelo fracasso do seu time, caso ele não obtivesse o resultado para ascender à final, e teria a sua mãe de volta sã e salva. E, depois, poderia revelar toda a história, registraria queixa na polícia, o problema seria investigado.

O salão de jogos. Ele se deu uma trégua: precisava de entretenimento. Torcendo para haver poucos companheiros no local, assumiu uma falsa serenidade. Lá chegando, deu-se conta que apenas três ou quatro freqüentavam o local, reunidos numa acirrada disputa na sinuca. Ao fundo, a televisão. Ligou-a, compreendendo que não teria cabeça para qualquer jogo que fosse. As notícias não poderiam ser piores, e mais realistas.

– O caso da agressão do treinador de futebol já virou caso de polícia – implacável, a voz fria da jornalista relatava do outro lado da tela. – Ele mesmo procurou a delegacia um dia depois do ocorrido, e registrou boletim de ocorrência. A polícia abriu inquérito para investigação.

– Sou um profissional, não um gladiador – reclamava o treinador agredido, em alto e bom som. – É inadmissível recebermos este tipo de tratamento durante a nossa rotina de trabalho. Mesmo porque, se isso acontece durante os jogos, quem me garante que não possa ocorrer quando eu estiver de férias, com a minha família? – reclamava ele, braço imobilizado, revolta indisfarçável.

– Ao mesmo tempo em que o técnico saía da delegacia, a diretoria do clube era atacada por torcedores irados, que picharam o muro externo da sede do clube e atiraram bombas caseiras por cima do portão de acesso – a jornalista voltou à cena.

– Não são torcedores, são vândalos – seca e laconicamente, o presidente do time atacado reportou-se à imprensa.

– Como é difícil viver da bola hoje, não? – uma voz entrou, de repente, entre a transmissão e a apreensão dispersa de Edson. Ele se virou e viu o rosto redondo de Vinícius, o seu companheiro de ataque.

– Nem me fala, cara – suspirou Edson, mal disfarçando a sua preocupação.

– Cara, você está tenso, precisa relaxar! – Vinícius reparara o estado do amigo. – Vamos, que tal uma surra daquelas no videogame? Isso sempre levanta o astral, ainda mais o seu – sem motivos para recusar, Edson aceitou. Quem sabe uma goleada virtual na telinha em cima do seu maior freguês não lhe daria mais ânimo – e talvez uma boa idéia – para enfrentar o resto do dia?

Mas, o quadro inverteu-se. E Vinícius, após a “disputa”, não pôde deixar de reparar.

– Edson, o que é que há? Nem parecia você manejando o joystick! Nunca consegui fazer mais do que dois gols em você, e de repente hoje, eu faço sete e você nenhum?

– Ai cara, não tô com cabeça pra isso hoje… – Edson afastou-se do colega, evitando mais inquisição. Decididamente, contatos não eram indicados para ele naquele dia. Voltou ao quarto e permaneceu imóvel na cama por um tempo que ele não soube contar. Mas, a ausência atraiu mais pessoas: o técnico aparecera de supetão.

– O Vinícius falou que você está estranho – ele foi entrando sem cerimônias no quarto. Edson pensou a tarde toda no único plano que lhe veio à mente. Olhou a hora no visor do celular: duas horas para a partida. Decidiu arriscar.

– Acordei indisposto, professor. Não sei se dá pra jogar…

– Não se sinta culpado se não puder entrar em campo. Mas, saiba que precisamos de você, e se você tiver condições, você vai estar no gramado hoje. Vamos fazer um teste antes da partida, no vestiário. É o médico quem vai escalar você ou não – ele disse, dando um tapinha no ombro do atacante e deixando o quarto.

Edson teve um súbito alívio. Até mais animado, reuniu seus pertences e desceu. Os outros jogadores já deveriam estar reunidos para a ida ao estádio.

Subiu sem falar com ninguém no ônibus. Notou que o treinador ainda não revelara nada aos demais. Ou seja, confiava que ele fosse jogar. Isso seria um problema. Edson pensou: teria que tratar uma mentira com outra. Se não fingisse estar mal, entraria em campo, e aí, teria que mentir in loco. O celular tocando rompeu a sua linha de raciocínio. Atendeu-o sem olhar o identificador:

– Já está a caminho, não? – aquela voz ameaçadora de novo. Como escapar dela?

– Vou fazer o que você falou – aceitou Edson. – Não vou jogar. O seu time tem mais chances de vencer o meu sem mim. Não é assim que você pensa? Vou fingir uma contusão, um mal estar qualquer, e nem no banco fico – ele sussurrava no telefone, evidentemente para não ser ouvido por mais ninguém.

– Nem pensar! – gritou o seqüestrador. – Você vai jogar sim! E muito mal! Quero você em campo, ajudando o meu time! Ou é isso, ou diga adeus para a mamãezinha. O que prefere? – Edson segurou o choro. Aquele ser desprezível queria mais do que uma vitória do time que ele torcia. Desejava o fim da sua carreira, a exposição dele, jogador, ao ridículo, a ira da torcida contra ele. Não tinha outra opção.

– Eu quero ver a minha mãe assim que terminar o jogo! – exigiu Edson, subentendendo um aceite na requisição.

– Sua mãe lhe será devolvida intacta – assegurou o bandido. – Haverá um ponto eletrônico no seu vestiário. Você o localizará, e só você o encontrará. Use-o durante o jogo. É por ele que eu lhe enviarei as ordens. E nada de tentar ludibriá-las, ou atrasar a execução delas. A sua mãe assistirá a partida do meu ladinho. Qualquer recusa sua, ela sofrerá um pouco, e você ouvirá tudinho. Compreendeu? – em voz de veludo, o marginal disfarçava as suas ameaças chantagistas.

– Só quero a minha mãe de volta.

– Assim está melhor. Até daqui a pouco – finalizou a ligação.
Edson fingiu estar ouvindo música, com os fones de ouvido. Mas, não havia som nenhum, a não ser o zumbido da sua mente, rangendo, buscando alguma outra solução. A iniciativa da contusão forjada foi pelo espaço.

No estádio, saiu sem conversar com ninguém. A imprensa já estava a postos, esperando declarações dos jogadores na saída do ônibus. Edson passou por todos como uma flecha, contrariando o seu estilo sempre solícito e paciente com os donos do microfone.

No vestiário, a preleção atravessou a sua mente sem que nada ficasse retido. Não precisaria ouvir um discurso de vitória, ou de como chegar a ela, se teria que fazer um trabalho de um espião em jogo duplo.

Ao fim da palestra do técnico, o médico procurou-o.

– E aí, sente-se melhor?

– Sim, posso ir para o jogo, nem precisa fazer o teste – Edson, resignado, rendeu-se definitivamente às ordens do seqüestrador. Não encontrara um contra-ataque, ou um estratagema para fugir da traição anunciada. Então, conformado, apenas rezou para que os noventa minutos passassem o mais rápido possível.

– É assim que eu gosto de ver – cumprimentou-lhe o médico, afastando-se.
Edson voltou para junto dos demais. Ainda não teve nenhum sinal do ponto eletrônico. Uma esperança nascia na sua cabeça: e se tivesse desistido? E se alguém o tivesse descoberto?

Localizou a sua muda de roupa separada, já era hora de vestir o uniforme. Ao puxar a camisa, viu que algo pequeno caiu no chão. Quando identificou o que era, ficou petrificado. Não havia mudança de planos algum: o ponto eletrônico estava ali.

Disfarçadamente, inseriu-o no ouvido, e tratou de aprontar-se. As equipes já haviam sido convocadas para entrar no gramado.

Subiu o túnel com as pernas bambeando. Nunca sentiu nervosismo antes de uma partida, ainda que decisiva, como esta. Mas, as circunstâncias eram outras. E a visão das arquibancadas tomadas, lotadas, derrubou-o. Passaria vergonha e transformar-se-ia em vilão na frente de milhares de pessoas. O maldito escolheu bem a ocasião. Há quanto tempo não estaria tramando aquilo?

Com vários brancos de memória, ocorridos durante todo aquele dia, ele já estava no centro do campo para dar o pontapé inicial. Ainda não havia recebido qualquer chamado pelo ponto, torcia a toda hora para que a chantagem, de alguma maneira, tivesse sido cancelada. Mas, ao tocar com o pé na bola e iniciar a partida, recebera a primeira instrução.

– Jogue sempre adiantado. Fique à frente da linha de zagueiros – uma voz pulsou na sua mente, ele imaginou que fosse o seu cérebro falando consigo mesmo. Recordou, depois, que o ponto estava ali, consigo, e infelizmente, ordenando-lhe, conforme o prometido.
Empenhado em não comprometer tanto assim o seu próprio time, ele não arrancava para o ataque, apenas tocava de lado e para trás.. Por enquanto, não havia sido advertido de nenhuma forma.

Aos dez minutos, um lançamento açucarado do meio-campo surpreendeu-o. Na sua mente, a chance de gol foi rapidamente processada, e em condições normais, ele não hesitaria em seguir o lance, e dificilmente jogaria o gol pela janela. Mas, o seu cérebro e o ponto eletrônico trabalharam juntos dessa vez:

– Não chegue nem perto dessa bola! – esbravejou o bandido no seu ouvido. Edson fez menção que corria, mas a uma velocidade que jamais chegaria à bola. E ela saiu, espalhando o seu açúcar, pela linha de fundo.

– Edson, que porra é essa? Por que não foi atrás dela? Tá pensando que vai chover chance pra você o jogo inteiro? – o técnico não o perdoou na lateral do campo. Edson não quis nem encará-lo. Não tinha coragem de olhar nos olhos daqueles que sempre investiram em sua carreira.

– Parabéns, otário, a sua mãe agradece – o bandido congratulou, enfurecendo o atacante, que respondeu com um incontrolável palavrão. Não obteve resposta. Evidentemente, o facínora não o ouvia, apenas o via e falava com ele.

E se a tortura psicológica o deixava em frangalhos, o lance seguinte deixou-o ainda mais atordoado. Em clara omissão sua no primeiro combate ao médio-volante adversário, ele o viu passar em profundidade para o atacante rival, que entrou livre na área e fuzilou: 1 a 0 contra, em seu próprio estádio.

– O que está acontecendo com você? Amarelou mesmo? – os berros do técnico, quase dentro de campo, eram ensurdecedores. E encheu-o de raiva: ele pegou a bola e decidiu fazer fila, passou por três marcadores.

– O que acha que está fazendo? Recue, a sua mãe vai pagar caro! – ele ouviu o choro da mãe ao fundo, e um grito estridente. Edson simplesmente se paralisou. Já estava na área, e inexplicavelmente, parou a jogada. Armou o chute e a bola saiu torta, longe do gol, bem acima da meta. – Menos mal. Outra desobediência sua e é fim de jogo pra você!

– Cara, em que mundo você se enfiou? – até Vinícius reclamou da sua fraca atuação. E na seqüência, a catástrofe: bola levantada na área, Edson, sob gritos insistentes do seqüestrador, cabeceou para trás, e o atacante adversário fez o seu segundo gol no jogo, rumo à consagração.

– Chega, eu vou tirar você de campo – o técnico enfurecera-se com a jogada. A torcida já o vaiava a cada toque na bola. Edson não sabia com que cara olhava para os companheiros, e para onde virasse, havia gente fitando-o de forma fixa, esbravejada.

– Vá para a área, faça uma boa jogada para ele desistir – requereu o bandido pelo ponto. O técnico de Edson era um homem sem face, anônimo, desconhecido. E ele, como um lacaio obediente, dirigiu-se à pequena área. Era a primeira vez que entrava nela durante todo aquele primeiro tempo, que se aproximava do final. – Não faça gol, apenas dê esperança à sua torcida! – estava claro que, além de ver o seu time perder, o bandido desejava contemplar também a derrocada de Edson no futebol. E ele se esqueceu das ressalvas, pelo menos momentaneamente: decidiu empenhar-se ao máximo naquele lance, e se o gol saísse, tentaria mostrar que foi obra do acaso.

O escanteio era na ponta esquerda do ataque. Edson postou-se ao lado do goleiro. E o arqueiro, na ânsia de desmarcar-se do adversário, desmascarou a farsa:

– O que é isso no seu ouvido? – ele questionou, retoricamente. – Trapaceiro, ele está com ponto! O juiz, cadê o juiz?

– Cara, cala a boca, a vida da minha mãe depende disso! – Edson entrou em desespero, o goleiro abandonou a pequena área, rumo ao homem de preto.

– Conta outra, vigarista. É assim que você se tornou o craque do time, não? – ele estava irremediavelmente decidido a soprar a informação ao árbitro. Edson estava à beira de uma crise de choro. E a luz veio na sua cabeça: o seqüestrador não o ouvia, e nunca desconfiaria de uma aliança com um jogador do time contrário, ainda mais com o placar adverso.

– A minha mãe está na mão de um seqüestrador, e se eu não entregar o jogo, ela morre! – Edson soltou no ouvido do goleiro, de uma vez. O goleiro parou. – Se duvida, vá ao meu vestiário no intervalo.

– O que aconteceu? Volta pro gol, eu vou autorizar o escanteio! – o árbitro não entendia o impasse.

– É bom que esteja certo – o goleiro, por ora, acatara o relato. A bola veio alçada na seqüência, Edson subiu e carimbou a trave adversária.

– Grande garoto! Você é bom mesmo! Mas, da próxima vez, não me assusta tanto, joga ela pra fora! – o seqüestrador tripudiava da vítima. Mas, Edson sentia que havia retirado uma bigorna das costas. E mal enxergou os minutos finais da partida, o árbitro soou o apito do fim do primeiro tempo, único som que ele desejava ouvir naquele momento. Desceu rapidamente ao vestiário, sem parar para entrevistas, sem pressionar o trio de arbitragem, sem interagir com os companheiros. Foi o primeiro a chegar. Olhou para trás, e o goleiro adversário vinha correndo, logo na seqüência. A saída única dos túneis ajudava a tramóia.

– Mostre – Edson tirou o ponto e depositou-o sobre o banco. Os companheiros de Edson chegaram, junto com o técnico.

– O que ele faz aqui? É por isso que você está tão mal hoje? Quanto recebeu por isso? – inconformado, Vinícius apontou para Edson.

– Ouçam – solicitou Edson, antevendo novas ordens do seu algoz.

– Muito bom, Edson – elogiou o seqüestrador. – No segundo tempo, eu quero mais. Se o seu time não sair goleado, a sua mãe não vai sair daqui. Pegue o seu celular, quero conversar com você.

– O que é isso? – o treinador quis saber.

– Estou sendo chantageado. Esse cretino está com a minha mãe, e quer que eu entregue o jogo.

– Como isso começou? – o goleiro rival indagou. Edson contou a todos a história, desde o princípio.

– Devia ter nos contado antes, poderíamos ter ajudado. Olha o ponto em que essa história chegou! – admoestou o técnico. – Espera aí: como o ponto veio parar na sua roupa? Significa que esse bandido está trabalhando com mais gente, que deve estar aqui no estádio.

– Vamos mandar fazer uma busca – sugeriu Vinícius, arrependido de ter acusado o amigo. – Se alguém estranho entrou aqui antes de nós, alguém deve ter visto – o treinador levantou o alarme junto à diretoria do clube. O goleiro visitante já voltara ao seu vestiário, para não levantar suspeitas. Mais do que rapidez, a operação demandava sigilo, pois se a história caísse nas garras da imprensa, muita gente pagaria.

Em minutos, um dos seguranças do clube invadia o vestiário, e arremessava dentro dele um homem esquálido, com cara de assustado.

– O roupeiro o viu entrar e sair. Como não notou nada de anormal, não falou nada.

– Foi você quem colocou isso aqui dentro? – o técnico exibiu o ponto eletrônico, quase o enfiando dentro dos olhos do suspeito.

– Foi sim, era a ordem que me deram…

– Quem deram essa ordem? Onde estão agora?

– Se eu contar, ele me mata, doutor – o sujeito tremia nas bases.

– Isso não vai sair desse vestiário. Fala, ou a polícia vai ficar sabendo agora mesmo! – sem solução, o subalterno delatou o peixe grande.

– Negócio é o seguinte: ninguém solta bola para o Edson, até terem a certeza de que a mãe dele esteja em segurança. Você, continua com o ponto, e age como se o seqüestrador ainda estivesse com o controle total.

Tensos, os jogadores voltaram ao campo, e dessa vez, todo mundo evitou o contato com a mídia. Desconfiada, a torcida xingava o time – em especial, Edson, em tarde bastante infeliz. O jogo reiniciou-se, com o adversário trancado na defesa, e os anfitriões pressionando, com um Edson alheio, esquecido em campo. O atacante, por sua vez, sentia-se um lixo, um inútil, mas pelo menos, não mais um traidor.

Aos vinte minutos, o treinador chamou-o na lateral:

– Vai lá, meu filho. Arrebenta com o jogo. A sua mãe já está aqui no estádio, o bandidão foi pego no pulo! Empata pra gente, vamos levar essa vaga!

Edson encheu-se de raiva. E em dois lances de genialidade, dois golaços – um por cobertura, outro depois de enfileirar meio time adversário – ele garantiu a festa do estádio e a vaga na finalíssima. Saiu de campo ovacionado pela torcida, e jogado ao ar pelos companheiros.

No vestiário, a surpresa: a sua mãe, inteira, sorridente. O abraço, aplaudido por todos, e a constatação de que a história havia terminado bem.

Mas, a semana apenas começava. O seqüestro veio à tona na mídia, e o ponto eletrônico entrou em debate. O time adversário, derrotado em campo, avisou que contestaria o resultado no tribunal. E a vaga, até então assegurada, poderia ser decidida em um novo jogo.

– Tudo bem, toda vez que eu jogar contra eles, vou sempre ter uma motivação extra. Pior pra eles! – alertou Edson, destaque em todos os programas de TV, doido para jogar novamente, dessa vez os dois tempos, e destruir o clube de maior rivalidade.
 

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