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O craque alemão que teve coragem de renegar Hitler nas Olimpíadas de 1936

Alemanha 0x2 Noruega, pelas quartas de final do torneio de futebol das Olimpíadas de 1936, poderia ser um jogo qualquer na história. Tudo bem, com a importância de que os noruegueses eliminaram os germânicos em pleno auge do Terceiro Reich, em Berlim. Porém, as circunstâncias daquela partida são atípicas. Segundo os registros, foi a única oportunidade em que Adolf Hitler esteve nas tribunas para ver futebol. E, não bastasse a frustração pelo resultado, ainda foi provocado por um dos craques do time. Relembre a história de Wilhelm Simetsreiter, jogador histórico do Bayern de Munique e “fã de Jesse Owens” (como ele mesmo gostava de ressaltar), ocorrida há exatos 80 anos. Abaixo, o texto que publicamos sobre ela em maio de 2015.

Os Aliados já haviam conquistado a guerra na Itália e Benito Mussolini acabara de ser assassinado. Pode até soar estranho que, em meio a essa convulsão de acontecimentos, Adolf Hitler tenha se casado com Eva Braun em 29 de abril de 1945. Na verdade, estava apenas se preparando para a morte. No dia seguinte, o ditador alemão se suicidou ao lado da esposa. Há 70 anos, o povo alemão se via livre de um dos maiores psicopatas da história, enquanto o resto do mundo tinha o caminho aberto para encerrar a Segunda Guerra Mundial e retomar a paz. Em 8 de maio, com Berlim tomada, é declarado o Dia da Vitória.

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Os devaneios de Hitler botaram em risco diversos povos e transformaram a história da Alemanha. Um capítulo do país do qual a maioria absoluta quer passar por cima. E o futebol, inserido dentro de uma sociedade extremamente militarizada e nacionalista, obviamente sofreu as suas consequências. O esporte como um todo era utilizado no conceito de superioridade ariana proclamado pela ditadura. Algo que também respingou sobre os clubes, os jogadores e a própria seleção alemã.

Segundo os registros históricos, Hitler apareceu apenas uma vez em um estádio para ver futebol. As cenas de reverência ao nazismo até se repetiram em algumas oportunidades, como no Inglaterra 6×3 Alemanha de maio de 1938 (quando Stan Cullis se tornou o único a não realizar a saudação) ou no Suíça 4×2 Alemanha da Copa de 1938. Entretanto, em nenhuma delas o Führer estava presente. Sua única partida aconteceu em um “projeto maior”, as Olimpíadas de 1936. O duelo contra a Noruega, no Poststadion de Berlim, ao lado de outros 55 mil espectadores.

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Favorita ao título, a Alemanha já havia massacrado Luxemburgo por 9 a 0 nas oitavas de final. Confiante no resultado, o regime levou não apenas Hitler às arquibancadas, mas também Joseph Goebbels, Hermann Göring e outros líderes do nazismo. “O Führer está bastante empolgado, eu mal posso me conter. Estamos realmente nervosos”, escreveu Goebbels, antes do jogo. Acabaram assistindo à vitória inapelável dos noruegueses por 2 a 0. Hitler, que antes planejava assistir a uma disputa no remo, saiu do estádio antes mesmo do apito final. Furioso talvez também pela desfeita que sofreu de um de seus craques.

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Wilhelm Simetsreiter nasceu em Munique e começou a frequentar o Bayern quando tinha apenas oito anos. Cresceu no ambiente de reconstrução após a Primeira Guerra Mundial e aprendeu a conviver com o ambiente plural do clube, bem diferente à perseguição fomentada pela ascensão do nazismo. Aos 17 anos, o promissor ponta esquerda viu das arquibancadas os bávaros conquistarem seu primeiro título alemão, em 1932. Um time presidido e treinado por judeus. Que sofreria as consequências após o surgimento do Terceiro Reich, no ano seguinte.

O presidente Kurt Landauer renunciou ao cargo em março de 1933, obrigado pelos nazistas. Da mesma maneira como o técnico Richard Dombi retornou ao Barcelona, antes de trabalhar também no Basel e no Feyenoord. O Bayern sofria um desmanche. Ao mesmo tempo em que Simetsreiter chegava ao primeiro time, em 1934. “Eles eram pessoas boas e decentes, não mereciam essa perseguição”, declarou em uma entrevista, anos depois. A partir daquele momento, judeus só eram permitidos nos próprios clubes para judeus, excluídos de toda a estrutura do futebol alemão.

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O principal torneio no currículo do ponta esquerda é justamente o torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de 1936. Simetsreiter era um dos únicos dois jogadores do Bayern que reforçavam a base formada em 1934, semifinalista na Copa do Mundo daquele ano. O jovem talento se permitiu defender o seu país, mas não o nazismo ou o conceito de raça superior proposto por Hitler. Nem mesmo a presença do técnico Otto Nerz, membro do partido nazista e futuro prisioneiro de guerra, fizeram o jovem de 21 anos se curvar.

Hitler visitou o vestiário antes da partida contra a Noruega. Era bajulado pela maioria absoluta dos jogadores. Mas Simetsreiter não se interessou. Justo ele, que havia sido o principal destaque contra Luxemburgo, balançando as redes três vezes. Enquanto os companheiros aclamavam o Führer, ele se distraía amarrando as chuteiras. Só abandonou seu afazer “mais importante” quando chamaram o seu nome para apertar as mãos do ditador. “Foi claramente um ato de provocação”, comentou depois Hans Schiefele. Nervosos os outros jogadores erraram lances bobos pela mera presença de Hitler nas arquibancadas. Acabaram derrotados.

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A eliminação não fez Simetsreiter deixar de aproveitar as Olimpíadas. Inclusive, se tornou fã do maior símbolo contra o arianismo naqueles jogos: Jesse Owens. O jogador de futebol, famoso por sua grande velocidade, se encontrou com o atleta americano, dono de quatro medalhas de ouro no atletismo. Mais do que isso, tirou uma foto e recebeu um autógrafo com a lenda. Reproduziu centenas de cópias daquela relíquia, que costumava distribuir aos fãs e amigos durante e depois da guerra. “Owens foi um tremendo atleta e um homem muito gentil. Além disso, ele foi muito mais rápido do que eu”, se recordaria no livro ‘Die Bayern. Die Geschichte des Rekordmeisters’.

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Com o fim das Olimpíadas, Hitler intensificou ainda mais sua perseguição aos judeus, extinguindo os clubes antes marginalizados. Simetsreiter manteve firme o seu compromisso com o Bayern, mas, por senso se sobrevivência, optou por servir a força aérea alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Não quis ser um novo Matthias Sindelar, o gênio austríaco que, segundo alguns, teria sido morto pelos nazistas após se recusar a defender a seleção anexada e ajudar amigos judeus em Viena – chegando a ser vigiado pela Gestapo por isso.

Mesmo nas forças armadas, Simetsreiter tentou ser fiel as suas convicções. “Ele escolheu o serviço mais inócuo que poderia fazer. Era compulsório que muitos jogadores tivessem que se alistar, pelas condições atléticas”, explica Herbert Moll, outro ex-companheiro do ponta esquerda. Ainda no Bayern, o craque esteve presente no amistoso contra a seleção suíça em 1940, quando os jogadores festejaram o ex-presidente Kurt Landauer, exilado em Genebra.

Ao final da Segunda Guerra Mundial, Simetsreiter sobreviveu. Para defender o Bayern por mais dois anos, antes de pendurar as chuteiras. O atacante não conquistou um título em 13 anos de carreira, embora tenha sido um dos principais artilheiros dos bávaros. E se manteve nos bastidores do futebol, se tornando técnico e também membro do conselho dos bávaros. Dono de uma história riquíssima, uma foto ao lado de Jesse Owens e o orgulho de contar a maneira como peitou Adolf Hitler. O veterano faleceu em 2001, aos 76 anos.

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