O capitão da Inglaterra

Por algum motivo misterioso, na Inglaterra leva-se extremamente a sério a questão de quem é o capitão do time. Tanto é assim que os times têm, além do capitão, um “vice-capitão”. Os fatos provam que, futebolisticamente, isso é uma bobagem, e quem quiser a prova definitiva disso pode olhar o Brasil de 94: o capitão, o pau mandado do técnico, era Dunga, mas o time girava em torno do craque, Romário. Cabia a Dunga acertar passes fáceis (sim, eu mudei essa parte!) e gritar, para dar a impressão ao país viciado em ditaduras que havia alguém “dando porrada”.

Em qualquer lugar do mundo é assim: a liderança se impõe por habilidade ou carisma. Alguém lembra quem era o capitão da Romênia de hagi? Da Bulgária de Stoichkov? Da Irlanda do Norte de George Best? Claro que não, lembramos dos craques. O que talvez explique porque os ingleses se lembram dos capitães. Se nos lembramos dos capitães dos campeões do mundo sempre porque são eles os primeiros a levantar a taça, os ingleses lembram que Bobby Moore era o capitão do time antes mesmo de dizer se ele jogava bem ou mal, ou em que posição jogava – era um excepcional zagueiro. Para os ingleses, o capitão é a “alma” do time, a quem cabe manter o espírito da equipe em alta sempre, e inspirar seus colegas.

O que ajuda a explicar a quizumba que se tornou a Inglaterra de Capello. Não se discute o quanto John Terry pode inspirar sua equipe pela determinação. Suas falhas morais, porém, impedem que seja exemplo para quem quer que seja, e tiram sua moral –  e a do treinador, por extensão. A escolha óbvia para ser o líder da equipe sem dúvida deveria ter sido Rio Ferdinand – se ele tivesse condições físicas para jogar com frequência, o que não tem sido o caso. Dos medalhões do time, e ser medalhão, pela lógica inglesa, é pré-requisito para ser capitão, sobram Lampard e Gerrard. O primeiro tem seu lugar no time questionado há tempos. Enquanto o capitão do Liverpool declarou, nesta semana, que gostaria de receber a braçadeira. É evidente que Gerrard pode inspirar tanto pela qualidade como pelo exemplo, e quem discordar disso tem se recusado a assistir o Liverpool na última década, Há, porém, duas questões: 1- Gerrard está sempre quebrado; e 2- Gerrard é da mesma geração que os medalhões de cuja sombra a Inglaterra precisa se livrar. 

Não deveria ter a menor importância esta decisão, mas para os ingleses, tem. Ou seja: é importante dizer algo com a nomeação. Por exemplo, que a era das estrelas milionárias acabou, e que o time agora tem que se comportar como um time de operários se quiser chegar a algum lugar no futuro próximo. Se este time tem hoje um titular absoluto com este perfil, seu nome é Scott Parker: seguro, sério, ótimo jogador mas sem presença garantida nos tablóides. Pode não ser um líder vocal, não é o capitão de seu próprio time, mas representa tudo o que a Inglaterra deveria querer ser hoje em dia. O que é motivo suficiente para que provavelmente ninguém pense em indicá-lo para o posto.

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Equipe Trivela

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