Na marca da cal
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Eu tenho que colocar minha cabeça a prêmio. Podia ter parado, mas não, tomei a sábia decisão de jogar mais um ano. Também, o que eu poderia fazer? Ainda agüento correr muito bem e por aqui, atualmente só tem cabeça de bagre, jogador em início de carreira e as eternas promessas que jamais darão certo.
Se eu soubesse chutar uma bola com decência, já estaria muito bem conceituado e seria desejado por todos os clubes grandes. E modéstia a parte, este não é o meu caso. Eu sei fazer muito, muito mais do que isso. Foram tantos anos na seleção, 4 Copas do Mundo e um Mundial conquistado. Colecionei títulos continentais, nacionais, estaduais… Passei várias temporadas na Europa, sou extremamente reconhecido pela minha história.
Dizem que eu sou o último representante do genuíno futebol arte, um destemido clássico em uma era moderna e sintética. Certa vez, um jornalista escreveu que o meu crepúsculo significaria a entrada do futebol na Era das Trevas tecnológica.
Sempre acreditei que encerraria a carreira com 36 anos. Desde o meu início, quando eu sequer imaginava que iria tão longe, já tinha esse número em mente. Não é nada cabalístico ou esotérico (até porque acho tudo isso uma bobagem), mas a idade, o número, sempre me agradou, não sei o motivo.
No entanto, eis que eu estou aqui, aos 37, em uma das situações mais inusitadas e difíceis que já enfrentei. Poderia estar do outro lado, na poltrona assistindo tudo. Talvez estivesse até desinteressado. Quem sabe essa hora eu estaria na cozinha, pegando uma latinha de cerveja na geladeira? Mas não, eu tinha que jogar mais um ano.
Esse pênalti, aos 43 minutos do segundo tempo, foi incontestável. Mas será que o contexto é justo? Nós, que precisávamos da vitória, ficamos atrás o jogo inteiro e o adversário, que necessitava apenas do empate para chegar à final, nos massacrou. Três bolas na trave, pressão incessante… Mas no contra-ataque que armamos, eis que a penalidade máxima aconteceu.
Olha só o goleiro deles. Garoto decente, origem humilde e hoje ajuda a família inteira. O moleque tem 20 anos, fechou o gol o campeonato inteiro, revelação indiscutível, é um dos caras que mais merecem chegar disputar esse troféu. E está a 3, 5 minutos dessa realidade. Quer dizer, depende do que vai acontecer agora. Estou aqui na frente dele e acho que ele nem imagina o que eu estou pensando. Mas é normal. Eu, quando tinha a idade dele, também só pensava em mastigar pedra numa hora dessas.
E o técnico da minha equipe então? Profissional reconhecido, detentor de inúmeros títulos. No entanto, o cara é um sacana, traíra, participa da venda e compra de jogadores, está envolvido em sonegação fiscal… Tem a famosa panelinha dele, que leva para todos os clubes que dirige. Grupelho competente, diga-se de passagem, mas que passa por cima de qualquer um, mesmo que o profissional em questão seja excepcional e esteja acima de qualquer suspeita. Sem contar que ele é um retranqueiro, adepto da botinada. Tudo aquilo que o meu nome e futebol que exibi em toda a minha carreira sempre abominaram Só fiquei no time porque sou ídolo incontestável da torcida, tenho história no clube e me tirar da equipe seria um suicídio. O cara é pilantra, mas não é jumento.
Agora, o outro treinador… Pô, o cara é meu amigo, jogamos juntos aqui e na Europa por muitos anos e ganhamos vários títulos. É muito íntegro e honesto, iniciou esta carreira faz pouco tempo e chegar à final seria estupendo. Montou o time dele sem interferência de politicagem do clube ou a podridão que envolve empresários. O time é unido e a maioria dos jogadores são jovens e bons, tanto na bola quanto na índole.
Já a minha equipe… Além dos protegidos do treinador sacana, os outros boleiros são desunidos e não ligam pra nada. Chegamos até aqui porque temos qualidade, mas não dá prazer nenhum dividir uma concentração com a maior parte deles. Comemorar um título então…
Só que não é tão simples assim. A nossa torcida não tem culpa disso e eu amo esse clube. Iniciei a carreira aqui, terminarei a dita cuja com esta camisa e, além disso, torço por estas cores do fundo do meu coração. Até nisso aquele técnico picareta é raposa velha. A competição inteira não cobrei nenhum pênalti. Agora que aparece esse, no fim do jogo, no momento mais importante do time na temporada, o que ele faz? Coloca o cidadão aqui na marca da cal para bater. Ele sabe que eu jamais negaria essa responsabilidade, por todos os motivos que eu já contei. Além do mais, ele garante a pele dos protegidos dele. Sabe como é, se não colocar a bola no barbante o passe do cara pode desvalorizar…
Mas a hora está chegando e eu tenho chutar. O que eu faço? Erro a cobrança e corro para o abraço ou acerto o gol e levo as mãos à cabeça, malogrando o infortúnio da desgraça? Mudo o placar do jogo ou da minha consciência? Não posso esperar mais. Já parti para a cobrança.