Meia Encarnada, Dura de Sangue

Antes de mais nada, que fique o aviso: este não é um livro fácil de ler, especialmente para o internauta que não é originário ou morador do Rio Grande. Isso porque ´´Meia Encarnada, Dura de Sangue´´ é quase que uma transcrição do português gaúcho, aquele cheio de interjeições e expressões tão saborosas quanto um bom churrasco, ou um pãozinho ´pochado´ no molho.

Se mesmo assim você decidir encarar as 100 páginas da seleção de contos feitas pelo excepcional Ruy Carlos Ostermann em 2001, saboreie. ´´Meia´´ é um instantâneo da crônica do futebol do Sul nas letras. Os 14 autores selecionados talvez não sejam os melhores em absoluto, mas são de uma legitimidade ímpar, que afasta qualquer possibilidade de oportunismo.

Nem todos os nomes são conhecidíssimos pelo país afora. Uns, como Luís Fernando Veríssimo, dispensam apresentações. Veríssimo é fundamental na obra porque oferece ao leitor que não é um gaúcho ´profissional´ um respiro em meio a textos tão significativos e, às vezes, impenetráveis, como ´´A Nica-joga´´, de Luís Sérgio Metz (este nem por isso menos valioso).

O brasileiro tem uma imagem do futebol gaúcho praticamente arquetípica. Todo mundo conhece, mas ninguém sabe explicar exatamente por que razão. Se fala sempre em ´garra´, ´força´ e ´aplicação´, mesmo tendo vindo de lá alguns artistas como Falcão, Renato ou até mesmo o ´naturalizado´ Figueroa.

´´Meia´´ não reforça estereótipos, mas joga luz num caminho que nem sempre a gente se dá conta. O cheiro do futebol do Rio Grande se espalha pelo livro. E que isso fique bem claro: não se trata de nenhuma crítica, mas um elogio. A força do livro é a veracidade, o genuíno, o não-tentar parecer melhor nem pior.

Alguns contos como ´´O Massacre dos Inocentes´´, assinado por ninguém menos que Érico Veríssimo, já remetem ao cheiro de barro e sangue sugerido pelo título do livro. E o próprio ´´Meia Encarnada, Dura de Sangue´´, de Lourenço Cazarré, é um primor. A leitura provoca até mesmo uma dor física, tal é a angústia do protagonista.

Ruy Carlos Ostermann provavelmente não selecionou os textos com a preocupação torpe de simplesmente vender. Pelo menos é essa a impressão que fica. O texto é duro, reativo, não faz concessões, é ácido, mas cativante. E não é que é a descrição é parecida com a de um treinador de Caxias que ficou famoso?

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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