Mauritânia: Instabilidade e pobreza

O clichê diz que a habilidade do futebol africano concentra-se na parte subsaariana do continente, vulgarmente chamada ‘África Negra’ (Camarões, Nigéria, etc.) e que a responsabilidade está na parte árabe (Egito, Argélia, etc.).

A Mauritânia, país de origem berbere (povo aborígene de todo norte africano, de leste a oeste) deveria, no futebol, reunir o que há de melhor nas duas ‘Áfricas’: a habilidade e a responsabilidade. No entanto, a história do futebol mauritano não mostra nada de muito importante, nem jogador algum que valha ser relembrado.

Como costuma acontecer no continente, muito disso se deve a conflitos políticos que dominam a Mauritânia desde que ela se tornou independente da França, em novembro de 1960: o presidente Moktar Ould Daddah, indicado pelos franceses, instaurou um regime de ditadura de partido único, de tendência islâmico-socialista, e logo invadiu o Saara Ocidental, território que estava anexado pelo Marrocos. Depois disso, inúmeros golpes de estado se sucederam nos 18 anos que Daddah comandou o país. Até hoje, mesmo com outro comando, a situação não encontra sossego, tanto que a primeira eleição livre da Mauritânia só ocorreu em março de 2007, quase 40 anos depois da independência. No começo de 2008, o famoso rali Dakar foi cancelado devido à falta de segurança no país.

Não há economia que resista a conflitos que misturam radicalismos políticos e religiosos. Não há futebol que resista.

Participações bissextas

Apesar de ter participado das últimas três eliminatórias para a Copa do Mundo e estar no grupo 8 do atual torneio qualificatório (junto com os fortes Marrocos e Ruanda, além da Etiópia, que volta a crescer), a Mauritânia nem sempre esteve presente nas competições internacionais. Participou das eliminatórias para a Copa de 1978 e, depois, sucumbiu à pobreza e ao caos político, ficando de fora até da Copa Africana de Nações por muitos anos.

Foi em 1983 que o país timidamente ressurgiu no cenário africano, quando hospedou a Copa Amílcar Cabral, tradicional torneio entre países da África Ocidental, cujo nome homenageia o artíficie da independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde. Com o quarto lugar, o país animou-se e garantiu a sede para 1990. Mas um golpe de estado tirou essa possibilidade, repetida apenas em 1995, quando Les Mourabitounes sagraram-se vice-campeões.

É dessa época que restam poucas das boas memórias da seleção auriverde. Os nomes dos artilheiros Ibrahim Ould Malha e Mohammed Tiemokho ainda trazem lembranças ao torcedor mauritano, que também se recorda com carinho de Mohamed Salem Ould Harouna, recordista de jogos pela seleção, que hoje atua como jornalista esportivo no país, sendo extremamente respeitado pelos técnicos que comandam a equipe. Harouna, depois que parou de jogar, foi técnico de um dos times que jogam o campeonato nacional, e é bem-sucedido: já foi três vezes campeão, uma delas com o Ksar. E o mais importante: era técnico daquela Mauritânia vice-campeã da Amilcar Cabral.

O futebol local

A ministra mauritana de esportes, Mehla Mint Ahmed, diz que a partir de 2008, com a presença dos Mourabitounes nas eliminatórias, o futebol do país há de crescer, ainda mais com a possível profissionalização da liga nacional, que tem 12 times e que é disputada desde 1976 de forma ininterrupta. Os grandes times do país, que são estatais, como o Armée (do Exército), o Police, o Garde Nationale e o SNIM (Sociedade Nacional de Indústrias de Mineração), não ganham o torneio nacional há muito tempo, sendo sobrepujados por times ‘particulares’ como o Mauritel Mobile, o NASR Sebhka e o FC Nouadhibou.

Atuando fora do país, há poucos destaques. O jogador de maior destaque é Abdelaziz Kamara, do francês Châteauroux, nascido em Paris e que chegou a disputar jogos pela seleção francesa em divisões de base. Nomes como os dos meias Moises Kande (que joga no Limassol, do Chipre), Ahmed Benaychou (que está no francês Nîmes) e do atacante Ahmed Dabo (também na França, mas no Fleury-Mérogis, que joga no que equivale à sexta divisão) são os poucos dignos de nota, mas já são veteranos.

Dos jovens, apenas Dominique da Silva, do tunisiano Sfaxien, é considerado um nome a se depositar esperanças. De resto, é tentar recrutar os mais de 70 mil mauritanos espalhados pelo mundo e buscar, nos times locais, alguma possibilidade de futuro.

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Equipe Trivela

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