Lens: Paixão cor de sangue e ouro

Lens, uma tranqüila e pacata cidade de 35 mil habitantes situada na região norte da França, acostumou-se à paixão das cores vermelha e amarela inflamada pela grande parcela de jovens da região (cerca de 41% da população possui menos de 25 anos). Está certo, a alegria da mais fanática torcida francesa parece ser passageira neste início de temporada, mas não há como negar que o time da cidade chama a atenção do resto do país ao largar na frente da liga nacional e peitar os favoritos Lyon, Monaco, Paris Saint-Germain e Olympique.

Após as quatro primeiras rodadas, os Sang et Or ostentam o título de melhor defesa do campeonato, com apenas um gol sofrido. Invicto, o time busca repetir a façanha de 1997/8, quando conquistou seu único título francês na história. Para isso, contratou o meia Alou Diarra, lembrado nas convocações de Raymond Domenech, novo técnico dos Bleus, e o atacante Eric Carrière.

A história do Racing Club de Lens começa no ano de 1906, com sua fundação por estudantes. Os primeiros estatutos do clube datam de 18 de outubro de 1907. Em pouco tempo, a liga de Artois aceitou o ingresso da nova equipe. Nessa época, o Lens utilizava um uniforme listrado em preto e verde.

Por culpa da Primeira Guerra Mundial, o RCL foi obrigado a interromper suas atividades, retomadas no ano de 1922. Ainda atuando pela liga regional de Artois, então com camisas azuis, o clube decidiu adotar suas cores atuais no final de 1923. A escolha do “Sang et Or” (sangue e ouro, em francês) trata-se, na verdade, de uma homenagem à Espanha.

Inspiração espanhola

Após uma reunião, dirigentes e jogadores caminhavam pelas ruas da cidade e passaram em frente às ruínas da igreja de Saint Leger. Um dos homens ressaltou que ali estavam os vestígios da ocupação espanhola na região. Era o suficiente para fazer a imaginação trabalhar. No ano seguinte, o Lens passou a utilizar as novas cores em uma ocasião especial: a inauguração do estádio municipal.

O primeiro título veio em 1926, com a conquista da liga regional de Artois. Em 1934, a equipe adotou o profissionalismo, completando o ciclo iniciado com o presente recebido dois anos antes: o estádio Félix Bollaert. Era o auge para quem, em 1906, havia se acostumado a ser expulso pela vizinhança por conta do barulho excessivo dos jogos disputados em terrenos baldios.

Depois de migrar por várias áreas, o Lens estabeleceu-se em um terreno no qual a Sociedade das Minas da cidade construiu um estádio. Na construção, trabalharam 180 mineiros. Passados quatro anos, o campo recebeu o nome do presidente do Conselho de Administração das Minas, que havia acabado de falecer. Os mineiros, em geral trabalhadores de origem polonesa, identificaram-se de cara com o Lens.

Em 1954, o Félix Bollaert recebeu seu primeiro sistema de iluminação. Nos anos 70, o estádio iniciou o processo de modernização e ampliação. O primeiro passo foi a construção da tribuna Trannin, com capacidade para 12 mil espectadores. Em 1977, com a classificação do Lens para a Copa UEFA, o Félix Bollaert recebeu nova iluminação e mais duas tribunas: Tony Marek (10 mil) e Xercès Louis (5 mil). Com a realização da Eurocopa na França, em 1984, ergueu-se a tribuna Delacourt (20 mil lugares).

Modernização e segurança

Para abrigar a Copa do Mundo, em meados dos anos 90 as tribunas Trannin e Delacourt foram demolidas, mas em seguida ressurgiram mais modernas e confortáveis. As vantagens na acomodação causaram uma diminuição na capacidade total: de cerca de 50 mil passou para 41 mil, o que tornou a partida entre Lens e Olympique de Marselha, em 1992, a recordista permanente em público (48.912). Foram também instalados equipamentos de segurança, com a melhoria dos vestiários e salas de recepção. Tudo para receber os Bleus. Por fim, no ano 2000, a última grande reforma: o gramado recebeu um novo sistema de irrigação e aquecimento.

Em sua estréia na segunda divisão, o Lens conseguiu o quinto lugar. Em 1936/7, levou o título para casa e a oportunidade de atuar na elite. Após o término da Segunda Guerra, o Lens caiu para a Segundona. Outra taça escapou das mãos da equipe em 1948, quando perdeu a final da Copa da França em uma emocionante partida com o Lille (3 a 2).

A estabilidade deu lugar para o medo no final dos anos 60. Com a grave crise do setor de mineração, o Lens perdeu o apoio de sua principal fonte de receita. Com a falta de recursos e o crescimento da dívida, o clube decidiu abandonar o profissionalismo. Na temporada 1969/70, o Lens participou do campeonato francês amador (equivalente hoje à quarta divisão). A situação viria a melhorar com o auxílio do prefeito André Delelis, que não mediu esforços para recuperar o prestígio da equipe.

Tempos de glória

A retomada foi coroada com a conquista de uma vaga na elite do futebol francês em 1972/3. Logo as fronteiras da França ficariam para trás, com a classificação para a Recopa em 1975. Mesmo com um rebaixamento que durou uma temporada, o clube reencontrou os torneios interclubes europeus com freqüência. O Lens voltou a viver um período ruim com a chegada do presidente Gervais Martel, quando retornou à segunda divisão e por lá ficou por dois anos.

De volta à elite, a equipe se preparou para sua maior conquista. Após seguidas campanhas regulares, o Lens finalmente pôde se orgulhar de terminar em primeiro lugar, em 1997/8. A glória misturou-se à emoção em ano de Copa do Mundo na França, graças a um gol de Lachor sobre o Auxerre, fora de casa. A festa por um título voltou a tomar conta da cidade no ano seguinte, com a vitória sobre o Metz na final da Copa da Liga. Em 2001/2, o Lyon estragou a esperança do bi nacional. Em busca dessa festa, o clube tenta surpreender para fazer o vermelho e o amarelo brilharem ainda mais vezes.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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