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Lama imunda na Malásia

Figura conhecida na Ásia pelo trabalho paralelo que faz de comentarista na ESPN Star Sports – que atinge 25 países do continente – o treinador inglês Steve Darby (foto ao lado) falou exclusivamente a Trivela sobre fatos estranhos na Super Liga e na Copa da Malásia 2007. Ele suspeita que ‘corrupção nos bastidores’ podem ter tirado os dois títulos de sua equipe, o Perak FA. O técnico, de 52 anos, foi mais além, e abrangeu o tema para todo o sudeste asiático.

“Aqui os governantes e policiais são corruptos. Então, os jogadores não acham que estão fazendo algo errado ao aceitar propina”.

Não poderíamos deixar passar batida a oportunidade e alongamos o papo sobre os preparativos da nova Super Liga da Malásia – que está prestes a começar – e outros tópicos relevantes que estão em destaque no futebol da região. Confira como foi este contato com um dos profissionais mais populares da Ásia.

O que levou o Kedah FA a vencer a última Super Liga da Malásia? Faltou algo para o seu Perak FA ficar com o título?
Eu posso dizer sorte? Nós estávamos com a mesma quantidade de pontos e na penúltima rodada o Kedah venceu sua partida por 7 a 0 (contra o Negri Sembilan), sendo que só no primeiro tempo já estava 6 a 0! O que eu posso dizer? Você pode estar suspeitando de algo, mas não podemos provar nada.

Então, este ano na Malásia a roubalheira aconteceu a favor do Kedah?
Na final da Copa da Malásia nós perdemos para o Kedah após nossos atacantes saírem de campo machucados nos primeiros 20 minutos de jogo, e depois meu capitão foi expulso aos 30…Mas para ser razoável, o Kedah tinha um bom time.

No Vietnã e na Tailândia existe uma corrupção que deixou de ser latente, na Indonésia os jogadores brasileiros nos contaram horrores sobre o que rola nos bastidores, na Malásia o senhor acabou de explicitar um caso extremamente suspeito… Dimensione para nós este problema da corrupção no futebol, que é tão rotineiro na região.
O problema com corrupção sempre prevalece na Ásia. Mas porque as pessoas deveriam estar surpresas se, frequentemente, a policia e os governantes são corruptos? Então, os jogadores não pensam que estão fazendo uma prática anti-ética (ao aceitarem propina). Pessoalmente eu acho isso terrível e eu acredito firmemente que alguns jogadores que aceitam dinheiro para ‘entregar’ um jogo deveriam ser banidos para sempre. Temos que lembrar também que gangues frequentemente envolvidas nos jogos ameaçam os jogadores e suas famílias, o que leva muitos a tomarem decisões erradas..

Para essa nova temporada que começa no próximo mês o Perak FA já garantiu as contratações de alguns jogadores que disputaram a President´s Cup, um torneio jogado por equipes dos países mais inexpressivos da Ásia. Porque você escolheu trabalhar com jogadores tão inexperientes e de qualidade duvidosa?
A realidade do futebol é que você tem que desenvolver jovens jogadores por duas razões. A primeira é fazer esses jovens se motivarem e quererem melhorar. A segunda é por razões econômicas; esse tipo de material humano é barato. Eu larguei um número de jogadores que estava sempre no banco e os troquei por futebolistas mais jovens e baratos. Isso me permite ter mais dinheiro para gastar com jogadores mais experientes que serão titulares. O futebol é um negócio e parte do meu trabalho de ‘manager’ é garantir que tenhamos dinheiro suficiente para pagar todo o nosso plantel.

Você nos contou que está tentando trazer o meia brasileiro Peres, do Tampines Rovers, de Cingapura, para jogar no Perak FA na próxima temporada. Ele já trabalhou com o Senhor. Se conseguir, o que os torcedores podem esperar de um jogador de 33 anos que vive seus últimos suspiros no futebol?
Eu espero que eles vejam um jogador talentoso que é super bem preparado fisicamente e que ainda pode entreter os torcedores com suas jogadas. Sua habilidade é inquestionável e eu espero que suas pernas ainda estejam fortes o suficiente. Nós jogamos num sistema onde eu espero poder extrair o máximo dele. Se ele jogar como em Cingapura, os torcedores vão enlouquecer com ele. Nós temos grandes públicos de 30 mil pessoas nos jogos e na final da Copa da Malásia foram 95 mil pessoas! O povo malaio ama jogadores excitantes!

Se conseguir fechar o negócio com Peres, um dos principais jogadores da região, quais serão as principais dificuldades dele no futebol malaio?
O grande problema será fazê-lo chegar mais duro e aceitar entradas mais ásperas. Os árbitros aqui são bons, mas eles deixam muitas jogadas ríspidas acontecerem sem marcar nada. O caminho para Peres será as faltas que ele poderá cavar próximo da área (o meia é exímio cobrador de livres). Eu lembro de um jogo entre Argentina e Austrália onde Maradona estava sofrendo muitas faltas, então ele passou a jogar próximo da área adversária..mas ele era de outro planeta. Foi o maior jogador que eu vi em ação.

O atacante guineense Keita Mandjou arrebentou este ano sendo o goleador da Super Liga malaia. Ele teria condições de jogar na Europa?
Nós não concordamos com Keita na renovação de seu contrato. Eu acho que ele estava recebendo muitos conselhos ruins. Ele fez um grande trabalho aqui no Perak FA e eu o agradeço por isso. Ele voltou para o Guiné e ninguém sabe qual será o seu destino, mas eu desejo tudo de bom para ele (há rumores de que o Lorient da França esteja interessado).

O que aconteceu com a Malásia na última Copa da Ásia foi um desastre. Hoje a seleção malaia ocupa a 166º no ranking da FIFA, a pior posição de sua história. Qual sua visão sobre este fato?
Você está certo! Foi um desastre. O time foi mau preparado, eles fizeram uma turnê na Austrália e jogaram contra equipes medíocres em péssimas condições e o processo de seleção deixou uma grande lacuna. Na primeira partida do torneio não havia jogadores do Perak FA e do Kedah FA (principais times do país) e tinha apenas um malaio de origem indiana e nenhum de origem chinesa. O treinador era local (Sathianathan) e, sem dúvida, tinha pouco conhecimento de preparação internacional.

Mas quais os principais erros cometidos que você observou?
Por exemplo, eles nunca assistiram ‘tapes’ dos adversários ou trabalharam taticamente os pontos fortes e fracos dos adversários. No momento existe uma tendência de colocar somente treinadores locais na seleção. Existem só dois treinadores de clubes daqui que não são malaios.

O calendário do futebol malaio apresenta algumas datas fora do padrão mundial. A Super Liga, por exemplo, que é o principal torneio, começa sempre em dezembro. Porque não jogar o principal campeonato ao longo do ano?
Eu não tenho resposta! Eu acho que a Malásia precisa de uma liga consistente. Preferencialmente de agosto a maio, para alinhar com a Europa. Mas todo ano alguém reclama de ter que jogar jejuando durante o mês do Ramadã (setembro). A liga pára durante este mês. É maluco ver como os jogadores ainda treinam! Outros países islâmicos também jogam durante o Ramadã.

Fale um pouco sobre o trabalho de base na Malásia…
Para ser honesto, as academias (escolinhas) não são um sucesso. Todos os clubes têm, mas disponibilizam pouca verba, então, eles pagam muito mal os treinadores. As condições de trabalho são horrorosas. Lá na Federação de futebol corre um plano de esportes nas escolas que é um sucesso. Mas em nível regional, não é muito bem organizado.

Qual sua visão sobre o jogador brasileiro no futebol do sudeste asiático? O que os brasileiros agregam ao futebol da região?
Eu passei três anos trabalhando no Home United, de Cingapura, com Peres e Egmar. Eles eram profissionais exemplares tanto dentro quanto fora de campo. Eu estou convencido de que Egmar poderia ter jogado na Inglaterra e Peres na Liga européia mais técnica que fosse. Eu acho que os brasileiros tem um ‘sentimento’ com a bola e enxergam coisas que poucos jogadores conseguem ver. Eles amam jogar futebol!

Egmar conversou conosco há alguns meses. É impressionante a paixão que ele demonstra contando sobre seus 11 anos no futebol do sudeste da Ásia.
Jogando, ele era mais inglês do que brasileiro. Eu não tenho dúvidas que ele jogaria na Inglaterra se tivessem lhe dado um visto…

Muitos dizem que a Liga de Cingapura é menos competitiva que os campeonatos de Tailândia, Indonésia, Malásia e Vietnã. Mesmo assim, os cingapurianos venceram as últimas duas edições do ASEAN Games (Tiger Cup) – o torneio mais importante de seleções do sudeste asiático. Como explicar isso?
Eu concordo que a Sleague (Liga de Cingapura) seja a mais fraca da região, pois somente três times são bons: o Home United, o Singapore Armed Forces e o Tampines Rovers. Porém, é a mais bem organizada e Cingapura é um país renomado nesse tipo de administração. É bem financiada e legalizada pelos melhores programas. Grande parte do sucesso da seleção deles eu atribuo a naturalização de ‘estrangeiros’ como Egmar, por exemplo. Frequentemente eles tem 5 ou 6 jogadores locais no time. Entretanto, eles tem muita sorte de ter jogadores notáveis como os defensores ‘Mani’ e Iskandar, o artilheiro Indra Sahdan e o goleiro Lionel Lewis, que foi quem venceu para eles as últimas duas Tiger Cups (Lionel brilhou nas decisões por pênaltis). Ele também foi eleito o melhor do torneio nas duas ocasiões (2004 e 2007). Cingapura mostrou o valor de manter uma base e ter um treinador (‘Raddy’) trabalhando com continuidade.

Recentemente entrevistamos grandes figuras do futebol de Cingapura como Lionel Lewis, ‘Mani’ e Iskandar. Eles culpam a imprensa local pelo número reduzido de torcedores nos estádios do país. Citaram até um jornal que dedica sete páginas para liga inglesa e apenas um para o campeonato local.
O mesmo está começando a acontecer na Malásia. É muito fácil para os jornais apenas copiarem notícias da internet e agora eles estão parando de empregar muitos jornalistas locais. Então, frequentemente a única cobertura do futebol malaio é sobre escândalo ou problema! Nós aqui também recebemos na TV, grandes apresentações de ligas européias, mas a TV local é muito ruim e assistir os jogos da liga malaia com essa cobertura é péssimo se comparado aos jogos da liga inglesa na ESPN. Eu trabalho para a ESPN como comentarista e eles tem um estúdio de alto nível, diferente da TV local da Malásia que não tem os mesmos cuidados. A cobertura de qualidade necessita de melhores ‘camera-men’ com produtores e jornalistas que realmente entendam do que estão fazendo.

Quais os profissionais mais marcantes que você já treinou?
Os melhores jogadores eu trabalhei quando eu estava na Austrália; entre eles Ned Zelic (ex-Borussia Dortmund), Mark Viduka (Newcastle), Lucas Neill (West Ham) e Brett Emerton (Blackburn Rovers), que eu lhe dei seu primeiro contrato profissional. Agora ele ganha em 4 dias o que eu paguei a ele em um ano! (risos). Mas são todos grandes jogadores e com ótimo caráter. Outro jogador que eu trabalhei na Austrália foi Jo Simunic, que jogou duas Copas pela Croácia.

E no sudeste da Ásia, onde você está há cinco anos?
Acho que Sutee Suksomkit (Tampines Rovers) e J. Surachai (retirado). Ambos tailandeses. É uma pena esses jogadores não terem conseguido permissão de trabalho na Europa como eles queriam.

Como fazer o futebol da região engrenar?
Para melhorar eu acredito que existe uma necessidade urgente de criar uma liga somente com grandes times do sudeste da Ásia. As melhores equipes de Malásia, Cingapura, Vietnã, Indonésia, Tailândia com as seleções de Laos, Myanmar, Cambodja e Brunei. Com vôos baratos através da Companhia Air Ásia, que ofereceu essa excelente possibilidade. O melhor tem que jogar contra o melhor para melhorar.

O senhor foi instrutor oficial da FIFA na Oceania em 1981 e foi Gerente de Desenvolvimento da Federação australiana entre 1990 e 95. Qual o crédito que você e seu ‘staff’ tem no bom momento vivido pelo futebol australiano?
Existiu uma grande quantidade de bons trabalhos no futebol australiano nos anos 90 que as pessoas não viram. O principal desenvolvimento foi implantar academias (escolinhas) estaduais que se tornaram federadas pelo Instituto de Esportes da Austrália, que produziu muitos grandes jogadores e treinadores. Eles tiveram grande suporte de material ligado a ciência esportiva e não foram educados de qualquer maneira. Foi ótimo ser responsável por desenvolver este programa.

Porque o senhor não aceitou o desafio de guiar a seleção da Índia quando a Federação indiana te procurou?
Eles me abordaram, eu respondi sim, mas nunca fiquei sabendo deles de novo! Bem-vindo a Ásia (risos) a administração séria é uma prática muito incomum por aqui. Eles apostaram em um treinador local, que foi indicado por políticos,
e foi um desastre. Agora eles tem um excelente treinador, Bobby Houghton.

O senhor teve uma passagem pelo Bahrein. Está feliz pela notável evolução do país, que por pouco não disputou a última Copa do Mundo?
Eu passei dois anos no Bahrein na década de 70. Eles estavam lutando muito ainda. É uma pequenina nação se comparada aos seus vizinhos árabes. Nos anos 90 eles contrataram um técnico alemão que revolucionou a seleção. Daí eles produziram resultados muito acima do potencial deles. Mostraram que se você emprega boas pessoas e lhes dá tempo para trabalhar, você atinge o sucesso. Mudando de treinador constantemente raramente se desenvolve algo positivo. Se o treinador foi um desastre, quem o nomeou? São exatamente essas pessoas que deveriam ir embora com o treinador.

Conte-nos um pouco sobre seus livros…
Quando eu estava trabalhando na Federação australiana entre 90 e 95 eu senti que as pessoas por lá necessitavam de livros específicos para conhecerem um pouco sobre futebol. A Austrália não é como o Brasil onde todo mundo respira futebol. Muitos treinadores na minha época tinham treinado somente equipes de rugby ou cricket. Então eu escrevi uma série de livros para técnicos iniciantes e também um para as crianças lerem. Eu escrevi utilizando a linguagem deles! (risos). Assim, ambos poderiam apreciar o futebol e melhorar seus estudos.
O último livro foi um manual de goleiros de alto nível. Existiam poucos livros escritos sobre goleiros. Além disso, eu escrevi um programa para preparadores de goleiros aprovado pela FIFA.

Nome: Stephen David Darby “Steve Darby”
Data de Nascimento: 05/01/1955, em Liverpool, Inglaterra.
Clubes:
1995: Sydney-AUS
1996: Sydney-AUS
1997: Sydney-AUS
1998: Sydney-AUS
1998: Johor-MAL
1999: Johor-MAL
2000: Johor-MAL
2001: Seleção feminina do Vietnã
2001/2: Sheffield Wednesday-ING (juniores)
2002: Home United-CIN
2003: Home United-CIN
2004: Home United-CIN
2005: Home United-CIN
2006: Perak-MAL
2007: Perak-MAL

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Equipe Trivela

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