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“Jogadores falam da guerra civil”

Angola é um país marcado pela guerra civil. Entre 1975 e 2002, a nação foi arrasada por um conflito entre grupos separatistas que matou milhões de angolanos. Hoje, a nação tenta se reerguer em meio à desigualdade social gerada pela produção de petróleo e exploração de diamantes.

Mas lá, como na maioria dos povos africanos, o futebol também está muito presente. O Campeonato Angolano, conhecido como Girabola, costuma ter estádio cheios para as partidas entre os 14 times da liga. E em um deles, o Recreativo de Libolo, está André Cunha, ex-lateral direito de Palmeiras e Ponte Preta, que se tornou ídolo da torcida local.

Nesta entrevista exclusiva concedida à Trivela, o jogador fala sobre a experiência de disputar uma competição totalmente nova para ele e as impressões sobre o país.

Como você foi parar no futebol angolano?
Eu tinha acabado de jogar o Campeonato Paulista pelo Rio Claro e um amigo, que foi meu primeiro treinador, conhecia o técnico do Libolo, também brasileiro. Apresentaram alguns jogos meus gravados para a diretoria e comissão técnica e eles se interessaram. Eu já tinha conversas como outros clubes no Brasil, mas a proposta financeira era interessante e eu vim para Angola com estes desafios de desenvolver meu futebol em um país africano e ajudar o Libolo.

Você está há cerca de um ano no país. Qual a principal diferença do futebol em relação ao brasileiro?
A principal diferença é a qualidade técnica. O futebol africano é de muita forca e menos técnica. Eles trabalham com a velocidade e menos o toque de bola. O Libolo conta com mais brasileiros, então é uma equipe que um tem toque de bola mais desenvolvido do que os outros, mas mesmo assim eu sinto bastante essa diferença.

E o jogador angolano, como você o classifica?
O angolano é um jogador de força. Alguns têm uma habilidade enorme e fazem coisas que você até duvida, mas no geral eles têm muita força física e jogam duro também.

Os estádios costumam encher? Como é o relacionamento com os torcedores?
Na maioria dos jogos os estádios ficam cheios. Com relação ao relacionamento com a torcida, é muito positivo. Eles cobram bastante também, mas claro que não como no Brasil. Aqui eles vão ao estádio e fazem muito barulho, como deu para perceber um pouco na Copa das Confederações. Fazem muita festa e me admiram bastante, o que me deixa feliz. Muitas vezes eles também querem me tocar, pois como tenho pele clara, eles acham diferente, mas tudo com bastante respeito.

E a imprensa, dá muito destaque para o Campeonato Angolano (Girabola)?
Sim, mas minha cidade fica no interior e a cobertura maior é na capital, no entanto eles passam muitos jogos pela televisão, que são transmitidos também para Portugal, inclusive.

Seu clube, o Libolo, é muito antigo, mas não costuma lutar pelos títulos. Quais são as equipes mais fortes do país? É muito complicado enfrentá-las?
O Libolo estreou na primeira divisão no ano passado e eu cheguei para o segundo turno do campeonato. Ficamos na terceira colocação no Girabola 2008 e disputamos a Taça de Angola, que é como a Copa do Brasil, em sistema mata-mata. Perdemos a final da Taça na prorrogação, o que foi uma pena. Neste ano, estamos na segunda colocação no Girabola, mas temos que enfrentar boas equipes. Os times mais fortes de Angola são o Petro de Luanda e o Primeiro de Agosto, também de Luanda, e é sempre complicado enfrentá-las.

O entrosamento com os angolanos é tranqüilo?
Eu fui muito bem recebido por todos aqui, assim como os outros brasileiros, principalmente porque eles gostam muito do futebol do Brasil. É um povo sofrido por causa da guerra, mas são muito educados e gentis.

A comissão técnica é bem preparada? Como é o dia a dia nos treinamentos?
Estamos com um novo treinador, que é português. Nossos treinamentos são bem desenvolvidos e de boa qualidade. Temos dois preparadores físicos, fisioterapia e etc. Nossa estrutura é muito boa em tudo.

Libolo é uma cidade pequena. A adaptação foi fácil?
Libolo é realmente bem pequena, por isso não foi fácil e não é até hoje. Aqui não temos nada para fazer e a rotina de todo dia é “casa e treino, treino e casa”. Nossa única diversão é a internet. Estamos em sete brasileiros e isso ajuda um pouco.

A cultura brasileira, devido à mesma língua, é bastante presente no país?
A comida é muito parecida com a nossa brasileira, até com alguns pratos típicos. Já o fato de a língua ser a mesma ajuda muito, a dança também é bastante forte e em muitas coisas eles copiam e gostam do que vem do Brasil, principalmente a música.

Angola é um país marcado pela guerra civil (1975-2002), protagonizada por grupos separatistas. Hoje em dia ainda encontram-se resquícios do conflito nas ruas? Os jogadores angolanos costumam falar sobre esse assunto?
Resquícios não, mas os jogadores comentam sobre a guerra civil. Hoje, está muito tranquilo e tem pessoas de todo o mundo trabalhando aqui. No ano passado teve eleição e ficamos um pouco com medo, pois antigamente havia muito tumulto nessas situações, mas foi tudo tranquilo.

O país também é marcado pela baixa expectativa de vida e alto índice de mortalidade infantil, em contraste com a enorme produção de petróleo e exploração de diamantes. Você nota essa desigualdade social em Angola?
A desigualdade é realmente muito forte e isso dá tristeza na gente. Aqui, quem tem dinheiro tem muito mesmo e quem não tem é muito pobre, sem condição nenhuma de vida, sem água e sem energia. A pobreza aqui em Angola é ainda muito grande.

Falando sobre seu início de carreira, você começou no Araçatuba, mas ganhou destaque na Ponte Preta. Foi seu melhor momento da carreira?
De fato eu comecei no Penapolense. Depois joguei no Araçatuba e aí me transferi para a Ponte Preta, onde fui muito feliz e ganhei projeção para o futebol nacional. Foi um ano ótimo tive uma regularidade muito grande. Sem dúvida foi um ano maravilhoso.

Depois veio a transferência para o Palmeiras. Por que não conseguiu se firmar no Palestra Itália?
É um pouco difícil explicar como foi essa situação, mas o Palmeiras estava passando por reformulações e os resultados não apareceram como o esperado, as vitórias não estavam vindo. Eu terminei o ano jogando com o técnico Leão e ganhamos do Fluminense na ultima rodada, o que deu a classificação do time para a Libertadores de 2006. Após isso eu fui emprestado.

Quando pretende retornar ao futebol brasileiro?
Eu quero sim retornar ao futebol brasileiro, por motivação profissional e pessoal. Minha família está no Brasil, minha esposa, e eu quero defender bons times do Brasil também, talvez ainda em 2009. Isso vai depender das conversas que estão começando a acontecer. Meu objetivo é deixar uma situação financeira mais confortável aqui em Angola para abraçar uma proposta que me traga um projeto profissional interessante ai no Brasil, com estrutura. Talvez a janela de agosto para as transações internacionais seja um momento bom para isso,mas tudo vai depender.

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Equipe Trivela

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