João Saldanha

Passando os olhos sobre as colunas esportivas dos jornais de hoje, é inacreditável que já tenha existido alguém como João Saldanha ocupando o mesmo espaço. Escritor, jornalista, cronista, técnico e personagem, o ´´João Sem Medo´´ que montou a máquina brasileira da Copa de 1970 é uma das figuras mais importantes da história do esporte (e de seus meandros) no país.

Saldanha foi amigo íntimo do craque Heleno de Freitas, viu Garrincha surgir no time do Botafogo (time pelo qual era declaradamente apaixonado), entre vários outros craques; foi comunista quando isso era arriscado; comentava futebol fazendo uma mistura entre esporte, psicologia e folclore.

O livro de João Máximo tem somente um defeito: ter saído numa coleção, ´´Perfis do Rio´´, em que as obras são muito curtas. A biografia de Saldanha daria, tranqüilamente, um livro com pelo menos três vezes mais do que as 137 páginas da obra de Máximo. Mas nem por isso deixa de ser uma boa leitura.

João Máximo conhece o assunto – no caso, o próprio João – e discorre rapidamente sobre trechos de toda sua atribulada vida. Gaúcho, nasceu num Rio Grande de chimangos e maragatos. Tornou-se militante político na adolescência, mas sem o ar caricato dos comunistas. Jornalista de primeira, entrou no futebol por paixão. Sabia o que acontecia no futebol, porque viveu atolado nele até o pescoço. Conhecia todas as personalidades, jogadores, dirigentes, árbitros, familiares.

Nunca deixou de ser radical, mas derretia adversários com ironia, não com violência. Já técnico da Seleção, numa coletiva no exterior, questionado sobre o assassinato de índios no Brasil, metralhou: ´´Matamos menos em 450 anos de história do que os senhores em dez minutos de sua civilização´´.

O texto é bastante fácil de ler e não chega a ser superficial. Num livro pequeno, fatalmente João Máximo não poderia esmiuçar todo o Saldanha que enfrentava o Rio de peito aberto, que desagradava à ditadura militar, que não tinha receio de bater de frente com ninguém (nem com o maior jogador do mundo, Pelé).

Saber quem foi João Saldanha e, principalmente, como foi João Saldanha serve até como ponto de reflexão para tentarmos entender como a mídia brasileira, que já teve vozes tão instigantes e desafiadoras, hoje conseguiu virar um caldão de refugos sobre a unha encravada deste jogador ou sobre a noitada daquele. Saldanha mereceu o apelido de ´João Sem Medo´. Hoje, o medo está vencendo e, como se diz nas corridas de cavalos, por vários corpos de vantagem.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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