Iraque: Renascimento pós-guerra

Quando falamos hoje o nome Iraque, a primeira idéia na cabeça das pessoas certamente é guerra. Apesar de praticamente todas as notícias que chegam ao Brasil e ao resto do mundo tratarem dos infinitos conflitos entre Estados Unidos e forças de resistência no país do Oriente Médio, em 2009 o Iraque vai, mesmo que somente por um mês, ser alvo do noticiário esportivo. Em junho, a seleção participará pela primeira vez da Copa das Confederações, alcançando um momento de extremo desenvolvimento futebolístico justamente durante um dos períodos mais conturbados e difíceis de toda a sua milenar história.
O país
O território onde está hoje o Iraque era a chamada Mesopotâmia (terra entre rios), uma região muito fértil e que propiciava boas condições para o desenvolvimento da agricultura. Por causa dessas características, as terras serviram de berço para a civilização suméria, por volta do ano 4000 A.C, e, posteriormente, para o surgimento dos caldeus, assírios, babilônios e persas.
Depois de passar mais de um milênio sendo alvo de intensas disputas entre persas, árabes e mongóis, a região da Mesopotâmia passou para o controle do Império Otomano no ano de 1410, situação que só foi ser alterada no século XX.
O que conhecemos hoje como Iraque surgiu em 1920, quando o Império Otomano foi desmembrado por conta da derrota na Primeira Guerra Mundial. O novo país ficou 12 anos sob o controle da Inglaterra, até que em 1932 conseguiu a sua independência. Os confrontos que marcaram toda a historia do território, no entanto, continuaram nos anos seguintes, tanto internamente, na infinita tensão entre xiitas, sunitas e curdos, quanto externamente na Guerra Irã-Iraque (1980), Guerra do Golfo (1990) e invasão dos Estados Unidos (2003).
Futebol no Iraque
Assim como em diversos países do mundo, o futebol é o esporte mais popular do Iraque, sendo considerado inclusive um fator de união dentro do contexto de guerra e conflitos no qual o país está inserido.
A Federação de futebol do Iraque foi fundada em 1948 e filiada à Fifa a partir de 1950. A primeira liga de clubes nacionais, no entanto, só foi surgir em 1962, quando os times de Bagdá resolveram promover um campeonato envolvendo apenas equipes da cidade, a Bagdah Super League. O torneio durou 11 anos e teve como maior vencedor o Al Shorta, com 6 títulos.
Em 1974, a Bagdah Super League deu lugar à Iraq Super League, um campeonato que enfim incluía times do país inteiro. Neste novo formato, o Shorta perdeu a sua hegemonia e foi superado pelo Al Zawraa que atualmente é o maior campeão do país, com 11 títulos conquistados.
Apesar de ficar de 1950 até 1962 sem contar com qualquer campeonato profissional, a seleção iraquiana iniciou sua história de competições internacionais participando da Copa dos Países da Arábia em 1964. Logo em sua primeira aparição, os Leões da Mesopotâmia se sagraram campeões, faturando na edição seguinte, em 1966, o bicampeonato.
Simultaneamente às glórias entre os países da Arábia, o Iraque disputou as eliminatórias para as Olimpíadas a partir de 1960, não conseguindo, no entanto, a classificação. A primeira tentativa de disputar uma Copa do Mundo, por sua vez, foi ocorrer 14 anos depois, em 1974. Somente a partir de então os Leões foram capazes de iniciar a sua consolidação no cenário do futebol asiático, durante aquela que ficou conhecida como a era de ouro da seleção iraquiana.
A era de ouro
Depois de conquistar o título da Copa do Golfo em 1979, o Iraque conseguiu se classificar para as Olimpíadas de Moscou em 1980. Na sua estréia em competições fora do continente asiático, os iraquianos fizeram bonito e conquistaram uma vaga no mata-mata do torneio, depois de uma vitória sobre a Costa Rica e empates com Finlândia e Iugoslávia na fase de grupos. Contudo, a equipe não foi párea para a superioridade da Alemanha Ocidental, sendo eliminada nas quartas-de-final pelo placar de 4 a 0.
Dois anos depois, a equipe manteve a base das Olimpíadas e faturou a medalha de ouro nos Asian Games. Já em 1984, os Leões ganharam pela segunda vez o título Copa do Golfo, com uma participação que consagrou o atacante Hussein Saeed, maior jogador iraquiano da história (mais aparições e mais gols até hoje) e que despontou como o artilheiro e craque daquele torneio. No mesmo ano, os iraquianos participaram da Olimpíada de Los Angeles, mas foram eliminados logo na primeira fase. Em 1985 os Leões ganharam novamente a Copa dos Países da Arábia, que voltara a ser disputada naquele ano, e os Pan Arab Games.
Apesar das inúmeras glórias regionais, a grande coroação daquele time aconteceu em 1986, quando a geração de Hussein Saeed chegou à Copa do Mundo do México sob o comando do treinador brasileiro Evaristo de Macedo. Os Leões, porém, caíram em um grupo complicado e acabaram sendo eliminados na primeira fase depois de derrotas para México, Paraguai e Bélgica. Mesmo assim, somente o fato de participar do maior torneio de futebol do mundo já era uma consagração para aquele país de tão pouca tradição no esporte.
O terror de Uday Hussein e o declínio do futebol iraquiano
Em 1987 o destino do futebol iraquiano, bem como o de todo o esporte do país, seria mudado completamente com a nomeação de Uday Hussein, filho do então presidente Saddam Hussein, ao cargo de chefe do comitê olímpico nacional. Utilizando seu poder dentro do governo, que na verdade ia muito além dos esportes, Uday deu início a uma administração de terror e ameaças na busca por melhores resultados. As “estratégias motivacionais” incluíam a prisão de jogadores em caso de ausência dos treinamentos e tortura com choques ou banhos de esgoto. As punições, no entanto, não eram praticadas apenas contra atos de indisciplina, mas também de acordo com as performances dos jogadores dentro de campo. Caso um atleta perdesse um pênalti, errasse um gol feito ou marcasse um tento contra, a penitência era ter os pés machucados e cortados por espinhos. Outros relatos dão conta de que os atletas eram espancados durante três dias quando tinham desempenho aquém do imaginado pelo filho de Saddam, sendo inclusive obrigados a chutar por diversas vezes uma bola de concreto na prisão.
Em 1988, o Iraque se classificou para as Olimpíadas de Los Angeles (sendo eliminado na primeira fase) e conseguiu os títulos da Copa do Golfo e da Copa dos Países da Arábia. Foram os melhores resultados da administração de Uday.
Depois da Guerra do Golfo (1990-1991), a seleção de futebol iraquiana foi banida das principais competições asiáticas e não conseguiu qualquer resultado digno de nota até 2003, quando a invasão norte-americana tirou do poder Saddam Hussein e matou seu filho Uday.
De volta às glórias
Apesar de a guerra ter abalado o país inteiro, os Leões da Mesopotâmia voltaram a ter bons desempenhos em 2004, quando a seleção chegou às Olimpíadas de Atenas. O Iraque surpreendeu a todos conseguindo um impressionante quarto lugar depois de uma campanha que incluiu vitórias contra a Costa Rica, Austrália e um 4 a 2 em cima da seleção portuguesa de Cristiano Ronaldo, Bosingwa, Hugo Almeida e outros.
A base daquela equipe foi mantida nos anos seguintes e alcançou a maior glória da história do futebol iraquiano em 2007, quando, comandados pelo técnico brasileiro Jorvan Vieira e capitaneados pelo atacante Younis Mahmoud, os Leões conseguiram alcançar o título da Copa da Ásia.
A conquista colocou o Iraque definitivamente no mapa do futebol mundial, possibilitando condições para um desenvolvimento ainda maior do esporte nos próximos anos. Após uma saída conturbada, Jorvan Vieira voltou ao comando da equipe e tem à sua disposição jogadores jovens que ainda podem render muito ao futebol local. Além disso, cada vez mais iraquianos estão atuando no exterior, principalmente no campeonato do Catar e na liga sueca, o que deve dar mais experiência e qualidade à equipe nacional.
Apesar de ter poucas chances na Copa das Confederações, o Iraque promete complicar a vida de Espanha e África do Sul, favoritos de sua chave no torneio. O objetivo a ser mirado, no entanto, é um só; se classificar novamente para uma Copa do Mundo. Em 2010 já não dá mais, mas se a organização atual for mantida e o potencial demonstrado até aqui seja concretizado, os Leões têm tudo para fazer a sua volta triunfal ao torneio em terras brasileiras na Copa de 2014.



