Ilhas Virgens Britânicas: inocentes

Quantas seleções no mundo podem comemorar a própria desclassificação de uma eliminatória para a Copa do Mundo? Ainda mais se ela vier após dois empates fora de casa com Bahamas, 178º colocado do ranking da Fifa? Certamente, poucas. Mas há quem comemore – e muito. Mesmo eliminadas, as Ilhas Virgens Britânicas, que aparecem 15 postos abaixo dos Baha Boyz no ranking da Fifa, acabaram de conquistar na última semana seus dois primeiros pontos em competições oficiais.

Pouco importa o fato de que o adversário utilizou uma equipe composta basicamente por jogadores que disputaram a fase preliminar do Pré-Olímpico no ano passado. Importa menos ainda que a classificação, antes sonho distante, esteve a um gol de distância. Completos azarões, os Nature Boyz comemoraram como se fosse uma final de Copa do Mundo, ao som do fungi, o ritmo local.

Também, pudera. A seleção é composta inteiramente por amadores, já que não existe futebol profissional nas 54 ilhas que formam o arquipélago. Difícil imaginar investimentos no futebol de um país que nem é país – como diz o nome, é um território britânico.

Vigiai

É este o lema das Ilhas Virgens Britânicas, presente no brasão de armas do território. Esse brasão aparece na bandeira estilizada de todas as terras da Rainha: fundo azul e representação em escala do pavilhão do Reino Unido. A influência da metrópole, como não poderia deixar de ser, está em todo lugar, seja no idioma, na dependência política ou nos costumes.

Contudo, as ilhas possuem uma identidade cultural única, fruto da mistura entre europeus, descendentes dos escravos africanos e norte-americanos, hoje mais próximos em virtude da presença nas vizinhas Ilhas Virgens Americanas.

A parte oeste do arquipélago foi comprada pelos Estados Unidos junto à Dinamarca durante a Primeira Guerra Mundial. Foi então que as Ilhas Virgens tiveram sua nomenclatura alterada: surgiram as partes norte-americana e britânica.

O nome original, que perdurou por 400 anos, foi dado por Cristóvão Colombo em uma de suas navegações, em 1493, em homenagem à história de Santa Úrsula. Conta a lenda que Úrsula, filha de um rei inglês, teria sido assassinada por bárbaros durante uma viagem que fazia junto a suas damas de companhia. As virgens foram enterradas em uma igreja em Colônia, e Úrsula foi beatificada. Colombo teria dado o nome de “Santa Úrsula e Suas 11 Mil Virgens” pelo grande número de pequenas ilhas ao redor da principal. Com o tempo, o nome foi reduzido a Ilhas Virgens.

Considerado uma localização estratégica nas rotas comerciais do Novo Mundo, o arquipélago foi disputado por espanhóis, holandeses, franceses e dinamarqueses até ser finalmente controlado pelo Império Britânico no século XVII. A ilha principal, Tortola, era refúgio de piratas e serviu até de inspiração para recente produção cinematográfica sobre o período.

Por isso, ao passo que eram colonizadas e recebiam escravos africanos para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, as Ilhas Virgens foram transformadas em ponto permanente de segurança e observação das atividades e negociações da Companhia Britânica das Índias Ocidentais. Daí, o ‘Vigiai’.

Futebol para todos

O brasão é, aliás, repetido no distintivo da federação de futebol. Entretanto, a frase muda: ‘futebol para todos’ é um convite aos pouco mais de 20 mil habitantes para que se divirtam com o jogo. Difícil imaginar profissionalismo em um território cuja população é pouco maior que o número de jogadores brasileiros registrados apenas na CBF (cerca de 12 mil, sem entrar na conta os que atuam fora do país).

De fato, apesar do futebol ser muito popular no arquipélago, o esporte é mais tratado como uma diversão do que algo realmente sério. A recente influência norte-americana, com a chegada do beisebol, só dificulta o já lento desenvolvimento de uma liga unificada: atualmente, existem duas competições amadoras, disputadas paralelamente em ilhas diferentes.

A Tortola League, fundada em 1970, sempre foi considerada a principal, por ser disputada na ilha homônima, a maior do território, onde está situada a capital, Road Town. Contudo, os clubes desistiram de finalizar a edição de 2005 e, no ano seguinte, sequer houve torneio, sendo sua continuidade uma incógnita.

Com isso, a Virgin Gorda League, localizada na homônima ilha, que é a terceira maior do arquipélago, permanece como única em atividade. O principal time é o Rangers, campeão de sete das últimas oito edições da liga. A hegemonia foi quebrada somente em 2005, quando o Hairoun surpreendeu e levantou o caneco. O Rangers é a base da seleção local, já que os poucos atletas que saíram para outros países não atenderam à convocação recente de Patrick Mitchell.

O fato de ter entrado em campo apenas com os jogadores locais é mais um motivo para a entusiasmada comemoração dos Nature Boyz em Bahamas. O avanço é enorme se comparado às duas eliminatórias anteriores: placar agregado de 0 a 10 contra Santa Lúcia na Copa de 2006 e 1 a 14 contra as Bermudas na estréia, em 2002. Na atual campanha, nada de goleadas e sim dois empates conquistados com muito brio.

Outra razão para o resultado ser elogiado: como preparação para as eliminatórias, as vizinhas Ilhas Virgens Britânicas e Americanas realizaram dois amistosos, ambos em Tortola, com dois empates. Até aí nada de mais, afinal a seleção adversária é a última colocada no ranking da Fifa. O que chama a atenção é que esses amistosos foram as primeiras partidas das Ilhas Virgens Britânicas em três anos. A última vez que entraram em campo foi em dezembro de 2004, quando perderam no placar agregado por 6 a 0 para Trinidad e Tobago no qualificatório para a Copa Ouro.

Se atualmente as dificuldades são grandes, difícil imaginar como a federação local pôde ser fundada em 1974. A falta de infra-estrutura, de vontade política e de apoio da comunidade certamente foram fundamentais para que a primeira partida da seleção acontecesse somente 17 anos depois, numa derrota por 2 a 1 para as Ilhas Cayman. A ingerência inglesa nos assuntos do arquipélago é apontada pelos locais como outro fator desagregador e somente em 1996 aconteceu a filiação à Fifa.

A partir daí, o trabalho tem sido intenso para melhorar as condições do futebol nas ilhas. O dinheiro investido pela Fifa em 2004 foi bem-vindo e rendeu um centro de treinamento bem acima dos padrões regionais. Por outro lado, o estádio Sherly Ground, em Road Town, não pôde ser reformado a tempo de atender as exigências da entidade para partidas internacionais e a já difícil missão tornou-se mais complicada por ter de jogar ida e volta nas Bahamas. Os resultados mostraram que, se tivessem jogado em casa, as Ilhas Virgens poderiam até sonhar com a classificação.

É com todos esses percalços que, aos poucos, o país tenta entrar não só para o mapa do futebol mundial, mas também para o próprio mapa-múndi, deixando de ser tão ‘inocente’.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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