Higuaín: Entre a Argentina e a França
A vida de uma pessoa é feita de decisões. Quando estas têm uma repercussão pública, elas são ainda mais difíceis de serem tomadas. Se para um adulto, experiente, é assim que funciona. Como será para um adolescente, de dezoito anos, ainda imaturo? Não é mais fácil, com certeza. Gonzalo Higuaín, atacante do River Plate, encaixa-se no perfil desse adolescente. Jovem, ele precisar decidir que país defenderá. Qual cidadania adotará. Não é necessário dizer que essa decisão é muito complicada. Talvez, para uns, não seria. Mas para ele, que possui raízes na França e uma vida na Argentina, é.
“Pipita”, como também é conhecido, nasceu em Brest, onde seu pai, o ex-zagueiro Jorge “Pipa” Higuaín, atuava, defendendo o time local. Antes mesmo de comemorar seu primeiro aniversário, ele se mudou para a Argentina. Durante todo esse tempo, Gonzalo Higuaín permaneceu sem qualquer espécie de documento, razão pela qual ele enfrentou dificuldades ao deixar o continente europeu. Anos depois, “por comodidade e não por conveniência”, como disse “Pipa” em entrevista ao Clarín, ele encaminhou o filho a um consulado francês.
Pronto. A confusão estava armada. Não fosse pelos obstáculos impostos pelas autoridades argentinas e, também, pela pouca paciência de Jorge Higuaín, nada disso estaria acontecendo. Gonza, como ele o chama, não viveria sob a tensão de um país que não o pressiona, mas que, obviamente, torce para que ele opte por aquele que o acolheu. Como o “se” não existe nem no futebol, tampouco na vida, não resta outra saída para argentinos e franceses senão tentar seduzi-lo.
Ao contrário de Alfio Basile, o treinador francês Raymond Domenech expressou, em público, seu interesse em contar com Higuaín. Basile, por sua vez, preferiu fazê-lo de modo privado, sem tanto alarde. Não tardará o momento em que ele decidirá por quem atuar. Isto porque, no início do ano que vem, o ex-técnico do Boca Juniors pretende fazer uma convocatória que contará apenas com os atletas locais. As chances de o atacante “millionario” estar presente são boas. Resta saber se ele extenderá o mistério, como o fez quando chamado para a equipe sub-18 alvi-celeste, ao decliná-lo.
Cerca de dez anos atrás, a Argentina sofreu uma perda em circunstâncias idênticas num caso famoso. David Trezeguet, centroavante da Juventus, assim como a promessa de Nuñes, nasceu em solo francês e teve o mesmo destino após o nascimento. Iniciou sua carreira no Platense, porém, não demorou muito para ele retornar a Europa, para o Mônaco. A escolha pelos Azuis foi questão de tempo. De certo, os portenhos não querem que isso se repita mais uma vez.
Prós e contras
O Vélez Sarsfield conta com um atleta em suas divisões de base que passou pela mesma situação que Gonzalo Higuaín enfrentará. Convocado para defender a Argentina no último Sul-americano sub-15, disputado na Bolívia, outro Gonzalo, este de sobrenome Bozzoni Ruiz, aceitou defendê-la. Detalhe: ele nasceu em Las Palmas, na Espanha.
No futuro, ele pode até se arrepender. Ou não. Talvez, pensando nessas possibilidades, “Pipita” está adiando, ao máximo, a sua decisão. Assim, ciente dos prós e dos contras em atuar por uma ou por outra, ele estará mais convicto ao optar por uma delas. Ou não (!).
Hilário, não? Mas essa é a realidade. Ao que parece, as pistas apresentam um Higuaín propenso a defender os bicampeões mundiais. De acordo com seu representante, Noberto Recassens, essa é a vontade dele. O mesmo Recassens alimenta uma amizade muito próxima com Alfio Basile, o que pode contar pontos a favor dos platinos.
Ainda na ocasião da primeira recusa, o atacante do River Plate disse que se sente mais argentino que outra coisa. Além disso, o fato de ele não saber falar uma só palavra em francês também deve ser levado em consideração.
Como vemos, o panorama é favorável aos portenhos. Contudo, os europeus possuem uma cartada que pode ser implacável. Ainda mais nos dias atuais, onde a principal motivação do futebol é o dinheiro. Se optar pela Argentina, Higuaín perderá a cidadania francesa e, por conseqüência, passará a ser tratado como um extra-comunitário no velho continente. O que isso quer dizer? Menos clubes interessados, menos dinheiro, possivelmente.
O que seduzirá “Pipita”? Não se sabe. Ainda.
O melhor ainda está por vir
A ascensão de Gonzalo Higuaín foi muito rápida. Há pouco mais de um ano, ele estreava como profissional com uma derrota frente o Gimnasia de La Plata. Embora tenha iniciado sua carreira com o pé esquerdo – ele arremata com as duas pernas – o até então reconhecido, simplesmente, como filho de Jorge “Pipa” Higuaín só cresceu a partir daquele dia. Os tentos marcados e, é claro, o excelente futebol atraíram os olhares de todos.
Versátil, ele pode atuar como meio-de-campo, setor onde começou, ou atacante. No ataque, apesar das inúmeras vezes que balançou as redes adversárias, ele ainda precisa aperfeiçoar suas conclusões. Afobado, em virtude inexperiência, nem sempre toma a melhor decisão no lance. Fato que, aliás, motiva as críticas da torcida, que crê que ele prende a bola demais, às vezes. Um típico individualista, um defeito pertinente a quase todos que atuam no ataque.
A maior parte desses ataques em que ele esconde a bola para si, sem repassá-la aos companheiros, é durante suas arrancadas, uma de suas marcas. Não é nada aconselhável marcá-lo à distância. Num piscar, ele terá ultrapassado o adversário. Claro que, para isso, ele conta com uma habilidade apurada, que lhe permite sair da área sem se sentir fora de seu hábitat.
Dentro dela, ele também não faz feio. Do alto dos seus 1.85 metros, ele ostenta uma ótima leitura das tramas, o que lhe favorece no bom posicionamento para finalizar os lances – o que nem sempre é feito com louvor, como dito antes. Essas características aliada às demais são as responsáveis pela alcunha de “sucessor de Kaká”, concedida pela imprensa européia – precipitada mais uma vez – a ele.
Tanto interesse da mídia por “Pipita” não lhe tem feito muito bem. O momento não é dos melhores. Nem o incrível feito realizado no último Superclásico, quando foi às redes duas vezes contra o Boca, lhe garante tranqüilidade. Fato é que, desde a venda de metade de seu passe para a M.S.I., ele não é rende mais tanto quanto costumava. Os mais exaltados não têm poupado ele, um adolescente de quase dezenove anos.
De qualquer forma, se sairá do River Plate como Kaká deixou o São Paulo ou não, só saberemos ano que vem – mais precisamente no meio do ano – quando ele deverá rumar para a Europa. Pretendentes não faltam. França, Espanha e Itália esperam por ele.