Futebol ao sol e à sombra

 

Por Daniel Ottoni

Futebol ao sol e a sombra é uma verdadeira obra-prima da literatura. Difícil não apreciar a forma como Eduardo Galeano discorre sobre tempos românticos do futebol, quando Uruguai e Argentina eram as duas potências da época. Uma maneira afinada de conduzir o texto, em breves contos sobre campeonatos, casos, personagens, gols e títulos. Memórias de uma época onde o futebol era jogado como obra-prima prevalecem no livro, que consegue despertar a imaginação e provocar uma saudade, mesmo que nunca vivida. Galeano consegue colocar em nossas bocas todo o gosto de uma primasia que passou e não volta nunca mais.

Época onde o lendário goleiro soviético Lev Yashin tinha o hábito de fumar um cigarro e tomar algumas doses de vodka antes das partidas.

Galeano traz descrições desde os primórdios do esporte, tanto no Brasil como no mundo. As primeiras equipes, as regras, os acessórios. Tudo com detalhes aprimorados, parecendo ter presenciado algumas experiências da construção e desenvolvimento do futebol. Os termos eram, em sua maioria, ingleses, e vieram nos navios que continham os manuais da prática.

Quando chegou nas Américas, o futebol era um esporte de elite, que demoraram até aceitar completamente a presença de menos favorecidos durante seu momento de lazer.

Em vários momentos, critica a transformação do futebol, com jogadores com salários comuns apaixonados por um esporte competitivo, mas sem ganância. Duro, mas leal. Nos dias de hoje, os patrocinadores, a compra de direitos por parte de grandes empresas, o lucro e o destempero são protagonistas no mundo da bola. Brigas na justiça envolvendo clubes, jogadores, investidores e agregados, sempre em busca de mais dinheiro. Um pedaço de papel tomou conta de todo um esporte, trazendo malefícios e deixando um buraco na essência do futebol, no cuidar e apreciar a prática.

O esporte hoje se tornou brusco e defensivo. A vitória vale mais que tudo, o espetáculo (ou sua pretensão) é ignorado.

A poderosa Fifa também é alvo de críticas de Galeano, pelo poder acumulado e pouco combatido. Poder criado com desconfianças, omissões e muito jogo político.

Galeano consegue descrever de forma poética e simples a condução de uma bola, um chute preciso ou uma simples movimentação dentro de campo.

“Pedro Rocha deslizava como cobra pelo pasto. Jogava com prazer, dava prazer: o prazer do jogo, o prazer do gol. Fazia o que queria com a bola, e ela acreditava totalmente nele”.

“Ver Pelé jogar valia uma trégua e muito mais”

“Heleno de Freitas tinha pinta de cigano, cara de Rodolfo Valentino e humor de cão raivoso. Nas canchas, resplandecia”

Em trechos como este, Galeano desperta no leitor uma vontade quase instantânea de presenciar tal fato, que parece um acontecimento de gala, mesmo que passado em poucos segundos. Faz homenagens à mestres da bola, que a trataram tão bem, com tanto zelo e carinho, que fizeram o autor ter os mesmos cuidados com sua lembrança.

A lembrança do autor uruguaio parecem estar aguçadas e limpas. Em muitos momentos, lembra sua época de menino torcedor do Nacional e relatos de jogos históricos e inexpressivos. Jogos da Argentina e da Itália também são repassados com maestria.

Os textos sobre Copa do Mundo sempre são iniciados com um contextualização geral da época, em vários setores. É possível, inclusive, acompanhar a evolução e desenrolar de momentos históricos da humanidade, descobertas, guerras e imposições. Em vários destes, há a citação sobre a possível queda de Fidel Castro, que demorou anos para sair do poder de Cuba.

Mesmo para aqueles que não gostam do esporte mais popular do planeta. Para os que gostam então, é um verdadeiro prato cheio de informações históricas e curiosas, acompanhadas de um texto leve, simples e direto.

Eduardo Galeano nos diverte com vários contos, verdadeiras pérolas do futebol mundial, contando causos de distantes tempo até os mais recentes, passando por Copas do Mundo e Olimpíadas. O autor, em vários momentos, lamenta a perda daquela essência futebolística, quando a paixão predominava e lances geniais de verdadeiros craques eram contados em detalhes.

Vários trechos lembram citações de Armando Nogueira e Nelson Rodrigues. Jogadores que flutuavam com as bolas nos pés, goleiros que mostravam elasticidade ao lado de uma elegância ímpar e artilheiros que tratavam a bola com o maior dos respeitos são alguns dos elementos citados pelo autor que não existem mais nos dias de hoje, onde dinheiro tomou o lugar de qualquer tipo de item que relembre tempos passados e tão bem lembrados.

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Equipe Trivela

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