De Sendai a Caxias
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Crescido no CFZ, time do ex-craque Zico, o defensor Ricardo Cavalcante, 30 anos, que atualmente defende as cores do Juventude, no Brasileirão 2007, conversou conosco sobre seus 9 anos no futebol japonês. Depois de Rui Ramos e Bismarck, foi um dos brasileiros com maior tempo de permanência no futebol da terra do sol nascente.
Bastante solícito, este carioca (na foto à esq.) falou sobre inúmeros aspectos da J-League e J-League 2, as duas principais divisões do país, sua relação com Zico, para quem nutre uma profunda admiração, e o carinho que guarda dos torcedores japoneses, especialmente do Vegalta Sendai. Confira abaixo como foi este contato e conheça mais detalhes do futebol nipônico através de sua vasta experiência no oriente.
No Brasil é muito difundida a idéia de que o futebol japonês se baseia puramente na correria. Recentemente um comentarista, que foi ex-jogador, chegou ao cúmulo de dizer que se os orientais não tivessem velocidade, não teriam condições de jogar futebol. Pelos seus 9 anos de Japão, o que você tem a dizer sobre tudo isso?
O futebol japonês é realmente de velocidade, mas com a presença de muitos jogadores brasileiros, o panorama tem se modificado. Posso dizer que o futebol japonês é dividido em ‘antes e depois de Zico’. Vejo, pelo tempo que vivi no Japão, que há mistura de técnica e velocidade. Mas a presença de brasileiros ainda faz muita diferença nos times, tanto da primeira como da segunda divisão.
Logo na sua primeira temporada você conquistou o título japonês pelo Kashima Antlers, em 98. Quais lembranças você tem daquela conquista?
As lembranças são as melhores possíveis. Principalmente por estar jogando com grandes craques do futebol brasileiro, como Jorginho, Bismarck e Mazinho, além de ter conquistado meu primeiro título japonês por um dos melhores times do Japão.
Naquela oportunidade o treinador era o Zé Mário, que hoje está nos Emirados Árabes. Como é trabalhar com o Zé Mário?
Zé Mário é um grande treinador. Ele sempre teve um excelente relacionamento com os jogadores. Conversava, aconselhava, além de gostar de trabalhar com jogadores das categorias de base, jovens.
Naquele mesmo ano em que você foi campeão japonês, em 98, o Rui Ramos se aposentou, depois de 22 anos de carreira. O que representou o Rui Ramos para o futebol japonês?
Posso dizer que Rui Ramos foi quem abriu as portas para todos os jogadores e treinadores brasileiros no Japão. Ele foi um grande jogador e é um ídolo do futebol japonês.
Ainda no Kashima Antlers, quando Zé Mário saiu, Zico assumiu a equipe, em 99. Conte-nos como é trabalhar com o Zico no dia-a-dia, nos treinos? Ele gosta de futebol bem jogado?
Sou suspeito para falar do Zico. Tenho-o como um pai, pois grande parte do que sou, devo a ele. Além de ser um grande jogador e treinador, é também um ser humano incrível, de uma humildade impressionante. Zico gosta do futebol arte, gosta que o jogador mostre o seu futebol à vontade.
Depois que você saiu, em 2000 o Kashima contratou o tetracampeão Bebeto. Teve um jogo da J-league onde o zagueiro Akita pediu aos gritos para o técnico Toninho Cerezo tirar o Bebeto do jogo porque ele estava jogando mal. Era comum o Akita ter essas atitudes pouco profissionais com os companheiros?
Joguei com Akita no Kashima. Infelizmente ele tem esse jeito mesmo. Não estranhei essa atitude dele.
Depois de dois anos numa equipe expressiva como o Kashima Antlers, como você encontrou motivação para jogar a J-league 2, pelo Vegalta Sendai?
O Kashima foi a primeira porta que se abriu pra mim. A proposta do Vegalta Sendai veio como reconhecimento do meu trabalho. Sendai é um grande clube, tem uma torcida impressionante, que lota os estádios em todos os jogos. Foi Zico quem, mais uma vez, me aconselhou a aceitar. No Vegalta joguei por três anos e uma das maiores alegrias foi quando fomos campeões em 2001, subindo pra primeira divisão.
Quais as principais diferenças entre a J-League e a J-League 2?
Existem muitas diferenças. Na J-1 existe mais técnica, o jogo é mais cadenciado, além de ter jogadores brasileiros de alto nível.
Por coincidência, o período que você esteve no Vegalta, foi também o período onde um treinador permaneceu por mais tempo no cargo na história do clube. O Hidehiko Shimizu, que esteve entre 99 e 2003 por lá. Como era trabalhar com o Mister Shimizu?
Shimizu é um dos melhores técnicos japoneses. Passou por grandes clubes como Vissel Kobe, Yokohama Marinos e outros. Era um técnico de bom relacionamento e bom-humor, além de falar português, o que facilitava a vida dos brasileiros.
Depois que o Vegalta conseguiu o acesso, porquê você quis permanecer na J-League 2, defendendo, desta vez, o Sanfrecce Hiroshima?
Como todo profissional de qualquer área, somos movidos por boas propostas e grandes desafios. A contratação de César Sampaio e Marcelo Ramos para a temporada me mostrou que a briga por mais uma ascensão para a J-1 ia ser boa. Não me enganei.
Inclusive, 2003 foi a primeira vez que o Sanfrecce jogou a segundona. A pressão para retornar para a J-league era muito grande?
Não existia pressão, o time tava bem montado e as vitórias foram vindo. Foi um belo campeonato.
Muitos jogadores sempre elogiaram a postura do César Sampaio. Diziam que ele era capaz de liderar a equipe sem berros. O César Sampaio também tinha muita influência no grupo do Sanfrecce?
Sampaio era capitão do time, falava japonês e com sua experiência liderava o grupo de verdade. Digo, sem gaguejar, que César Sampaio foi o jogador mais equilibrado com quem já joguei. Tenho uma admiração tanto pelo profissionalismo como pela pessoa que ele é. Assim como Zico, a humildade de Sampaio é uma lição pra todos os jogadores que estão iniciando a carreira.
Existe um desenho animado japonês chamado “Capitão Tsubasa”, onde o personagem principal é um jogador de futebol do Sanfrecce Hiroshima.Você ouviu falar desse desenho, que fez um tremendo sucesso no Japão?
Confesso que não me recordo desse desenho.
No Kyoto Sanga, você esteve no céu e no inferno, vencendo a J-League 2, mas no ano seguinte, caindo novamente. Quais foram as falhas apresentadas pela equipe? É tão difícil assim, uma equipe que vem da J-league 2, permanecer na divisão principal?
O Kyoto, em 2005, fez uma grande campanha e chegamos a abrir 20 pontos do segundo colocado. Fomos campeões com quatro rodadas de antecipação. É comum times que sobem pela primeira vez para J-1, caírem no ano seguinte.
As diretorias dos clubes têm grande influência. Sobem para a primeira divisão, mas a cabeça continua na segunda. Há necessidade de contratação de jogadores japoneses de alto nível e geralmente esses times permanecem com os mesmos jogadores. Então fica difícil permanecer na primeira.
Qual das equipes que você jogou foi inesquecível para você? Porquê?
Vegalta Sendai. Pelo tamanho da torcida que incentivava o time do inicio ao fim da partida e pelo carinho dos torcedores comigo.
Quais os jogadores que mais te impressionaram no Japão?
César Sampaio, Bismark, Nakayama (Jubilo Iwata), Kazu Miura (Yokohama FC), Nakamura (Celtic-Escócia), Hidetoshi Nakata, entre outros.
Quem era difícil marcar?
Marques (atualmente está no Yokohama Marinos) e Emerson (atualmente no Al Sadd, do Qatar). Esses eram muito lisos, ‘ensaboados’.
O brasileiro naturalizado japonês Marcos Túlio Tanaka foi eleito o melhor jogador da J-League 2006. Ele é um jogador de qualidade?
Considero ele um bom jogador. Nunca jogamos juntos. Apenas em times adversários.
Os japoneses sempre admiraram o futebol brasileiro. O que você acha que eles mais absorveram da escola brasileira?
Como já disse, o futebol japonês é dividido em ‘antes e depois de Zico’. Acredito que praticamente tudo que sabem, aprenderam com os brasileiros que por lá passaram. Principalmente a técnica.
Como é a relação com os jogadores japoneses no dia-a-dia nos treinos?
Eles são legais! Sempre me receberam bem, não há intriga. Em geral, são muito brincalhões e gostam de aprender palavrões em português. (risos)
Em média, eles são disciplinados, treinam forte? Você vê neles ambição de evoluir e atingir níveis mais altos?
Treinam muito. Mesmo quando acaba o treino, eles continuam em campo buscando o aprimoramento. Eles são muito disciplinados. Lá existe multa por minuto de atraso nos treinos. Os japoneses são como os brasileiros: sonham em um dia estar na Seleção.
São muitos os jogadores japoneses que desejam jogar na Europa? Você sentiu que eles tem orgulho de jogar pela seleção japonesa?
Eu creio que não, porque no Japão se paga bem, o país tem a economia estável. Lá, é difícil um jogador ficar desempregado. Se não for em um time da primeira, eles vão para segunda ou terceira divisão. E quanto à Seleção, é muito bonito de se ver o orgulho deles em vestir aquele uniforme azulzinho (risos).
‘Maria chuteira’ no Japão tem muita, ou as mulheres japonesas não tem muito interesse nos futebolistas?
O que pude perceber, nesses 9 anos de Japão, é que as garotas de escola são as mais atiradas. Vez ou outra se vê casos de jogadores sendo punidos por serem pegos com menores de idade. Esse ano, um jogador do Júbilo Iwata se envolveu em caso semelhante e foi punido. Existem muitas ‘Maria-chuteiras’ em todo lugar, em toda parte do mundo, mas, particularmente, acho as japonesas pouco interessantes.
Conte-nos sobre o comportamento dos torcedores no Japão. Existe muita diferença entre torcedores de certas regiões do país ou basicamente as torcidas são parecidas?
Eles são exemplos de como se deve torcer. Nos estádios se vê crianças, idosos, casais, mulheres e torcida organizada. Muito bonito de se ver. Não se vê brigas de torcidas, quebra-quebras, nem xingamentos contra jogadores. O incentivo é do inicio ao fim da partida. São verdadeiros torcedores. A única vez que vi torcedores mais alterados foi em 2005. A torcida do Sendai jogou garrafas plásticas no campo protestando contra o treinador, mas nada grave. Posso dizer que os torcedores do Japão são bem comportados.
Não existe muita diferença de comportamento entre as torcidas. O que diferencia uma das outras é o tamanho. As maiores, como Urawa Reds, Kashima Antlers, Vegalta Sendai, Albirex Niigata, são as mais empolgantes e as mais barulhentas, e incentivam seus times do início ao fim das partidas, sem falar no show que dão nas coreografias.
Pessoalmente, quais os grandes aprendizados que você guarda da sua passagem pelo Japão?
Aprendi muito com os japoneses e com todos os brasileiros com os quais tive a oportunidade de conviver. O Japão é um país muito rico culturalmente e tem costumes que a gente acaba absorvendo, entre eles a pontualidade. Lá, o jogador que chega atrasado para os treinos é multado por minuto. O trabalho vem em primeiro plano e eles trabalham muito em até em alguns feriados. A valorização profissional que tive foi muito especial. Tenho muitas lembranças boas do Japão. Foi lá que fiz minha carreira e foi de lá que veio tudo que eu tenho hoje.
FICHA
Nome: Ricardo Cavalcante Ribeiro
Local de Nascimento: Rio de Janeiro-RJ
Data de Nascimento: 23/02/1977
Clubes:
1996: CFZ
1997: CFZ
1998: Kashima Antlers
1999: Kashima Antlers
2000: Vegalta Sendai
2001: Vegalta Sendai
2002: Vegalta Sendai
2003: Sanfrecce Hiroshima
2004: Sanfrecce Hiroshima
2005: Kyoto Sanga
2006: Kyoto Sanga
2007: Juventude