Croácia: é possível fazer história novamente

Por Daniel Brito
Invasões, conflitos étnicos, guerras civis. Esses são alguns acontecimentos que marcaram a região dos Bálcãs desde o fim do século XIX até o final da década de 1990. Inclusive, foi nos mesmos anos 1990, à medida que os conflitos iam se resolvendo, que a região foi berço de uma das melhores seleções de futebol dos últimos tempos, capaz de colocar uma nação recém-fundada entre as mais tradicionais do esporte.
Estamos falando da Croácia, um país com pouco mais de quatro milhões de habitantes, conhecido não apenas pelas instabilidades políticas do passado, como também por uma recente tradição no futebol, iniciada justamente numa das décadas mais turbulentas de sua história.
Independência e mortes
A Croácia se tornou oficialmente independente da Iugoslávia no dia 8 de outubro de 1991. Após um referendo, realizado em maio deste mesmo ano e com 94% de aprovação, as autoridades croatas iniciaram o processo de separação dos sérvios. Foram meses de tensão até a declaração de independência, que foi seguida por uma guerra brutal entre as duas etnias.
A Guerra da Independência da Croácia teve início no mesmo ano de 1991 e só foi encerrada em 1995, mediante a intervenção das ONU. Estima-se que, ao final do conflito, foram desaparecidas quase 550 mil pessoas – 300 mil sérvios e 247 mil croatas e não sérvios. Além das mortes, as marcas da guerra ainda podem ser vistas, uma vez que diversas cidades do país ainda exibem ruínas decorrentes de bombardeios.
Nascida para jogar futebol
Em meio a um dos períodos mais delicados de sua história, a Croácia viu surgir uma geração inesquecível de jogadores de futebol. A seleção sub-20 da Iugoslávia havia conquistado o Campeonato Mundial da FIFA em 1987, no Chile. Acontece que a base deste time era croata e, como em todos os esportes, com a separação entre os países, a seleção se dividiu.
Assim, foram reunidos jogadores como Dario Simic, Igor Stimac, Slaven Bilic, Robert Jarni, Mario Stanic, Robert Prosinecki, Zvonimir Boban e o goleador Davor Suker, que, mais tarde, formariam a base da seleção para a Eurocopa de 1996. Em seu primeiro torneio oficial, com o técnico Miroslav Blazevic, o time fez uma boa primeira fase, batendo a Turquia e a Dinamarca, de Peter Schmeichel e Michael Laudrup, campeã da última edição. Mesmo perdendo por 3 a 0 para Portugal, de Luis Figo, o time acabou se classificando para a próxima fase.
A surpreendente campanha acabou nas quartas-de-final, em que a Croácia perdeu para os alemães, que viriam a ser os futuros campeões do torneio. Apesar da derrota, o campeonato serviu para que a seleção ganhasse corpo de time, fato que viria a ser confirmado dois anos depois. Sob o comando do mesmo Blazevic e com o talentoso plantel ainda mais experiente, a Croácia se classificava para a Copa do Mundo da França, em 1998.
O desempenho na fase de grupos foi bem semelhante ao da Euro: duas vitórias nos dois primeiros jogos, contra Jamaica e Japão, e uma derrota para a Argentina, de Ortega, Verón e Batistuta. Classificada, a Croácia enfrentou a Romênia, de George Hagi. Uma vitória simples de 1 a 0 levou a seleção de uniforme quadriculado a reencontrar os algozes alemães. Porém, desta vez a história não se repetiu. Com o zagueiro Christian Wörns expulso após falta violenta em Suker, a Croácia mandou no jogo, estabelecendo um convincente 3 a 0.
Era a vez dos donos da casa, a França do craque Zinedine Zidane. Não mais subestimada, a Croácia jogou de igual para igual e, após um primeiro tempo sem gols, inaugurou o placar com o oportunista Suker. Porém, num erro de passe de Boban, a França empatou no minuto seguinte, com o lateral Lilian Thuram. Ele, inclusive, faria o gol da vitória dos bleus dez minutos depois, levando a Croácia para a disputa de terceiro lugar contra a Holanda, que havia perdido a outra semi para o Brasil.
Com gols de Prosinecki e Suker, a Croácia conquistava o terceiro lugar em sua primeira Copa do Mundo, ganhando de 2 a 1 da Holanda. Suker, inclusive, ganhou o a Chuteira de Ouro por ser o artilheiro da Copa, com seis gols. Neste mesmo ano, a Croácia foi premiada pela Fifa como a equipe que mais progrediu no ano. Era a segunda vez que a seleção obtinha este reconhecimento, uma vez que havia ganhado este mesmo prêmio em 1994.
Anos de estagnação
Com alguns desses jogadores se aposentando e outros longe de seu auge, a campanha na Eurocopa de 2000 foi decepcionante, com o time sendo batido ainda na fase de grupos. De técnico novo, o ex-jogador Mirko Jozic, a Croácia foi à Copa de 2002 apostando na experiência e, mesmo ganhando de 2 a 1 da favorita Itália, acabou sendo eliminada ainda nesta fase, com derrotas para México e Equador.
Dois anos depois, agora sob o comando do antigo técnico do Fenerbahçe, Otto Baric, a Croácia novamente não passava da fase de grupos na Euro 2004. Ao contrário de vezes anteriores, o time não conseguiu arrancar uma vaga das favoritas França e Inglaterra.
Em 2006, o ex-jogador Zlatko Kranjcar tinha a missão de comandar a seleção croata e resgatar sua recente tradição no futebol. A seleção, que permaneceu invicta nas eliminatórias, mais uma vez ficou na fase de grupos. Com a derrota para o Brasil e empates com Japão e Austrália, o time que contava com os experientes Niko Kovac e Dado Prso se distanciava ainda mais daquela primeira e marcante impressão que deixou para o mundo em 98.
Bilic – uma nova esperança
Após o fracasso na Copa, Slaven Bilic, que fez parte da campanha de 98, é nomeado como técnico, com o objetivo de levar o time para a Euro de 2008. Com uma campanha convincente, chegando inclusive a ganhar da Inglaterra por duas vezes, a Croácia chegou à Eurocopa liderada pelos meias Luka Modric e Darijo Srna.
A seleção colocaria um fim das eliminações na fase de grupos e em grande estilo: 100% de aproveitamento, com vitórias em cima da Áustria, Polônia e Alemanha. Infelizmente, a promissora campanha teria fim nas quartas, frente à Turquia, num emocionante jogo decidido nos pênaltis.
O próximo passo era assegurar uma vaga para a Copa do Mundo de 2010. Após ganhar do Cazaquistão, a Croácia foi derrotada dentro e fora de casa pela Inglaterra. Os outros times do grupo eram a inexpressiva Andorra e a Ucrânia, sendo que esta última conseguiu uma vitória sobre a Inglaterra, forçando os croatas a vencerem este confronto. Com um empate em 0 a 0 fora de casa e 2 a 2 dentro, a Croácia ficou em terceiro no grupo, dando adeus ao sonho da Copa de 2010.
Ao contrário do que toda a opinião pública pensou, os dirigentes da seleção croata renovaram o contrato de Bilic, levando em conta o fato do time ter lutado até o fim, mesmo com desfalques importantes ao longo da campanha – entre eles, o do brasileiro naturalizado croata Eduardo da Silva.
A decisão vem se mostrando acertada: a Croácia está com a vaga assegurada para a Euro de 2014. Resta saber como será a campanha no torneio e como ela refletirá para a Copa do Mundo de 2014. Não há como negar a aptidão que este país tem para o futebol. Entretanto, resta saber quanto tempo iremos esperar para ver uma nova geração capaz de fazer história novamente.



