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Copa das Feiras: quando tudo começou

Quando se esboçava uma Liga dos Campeões, em 1955, nem se sonhava com outra competição organizada e promovida pela Uefa na Europa. O que se viu surgir, aos poucos, a passos lentos, e de forma não oficial, foi um evento mais comercial que esportivo, que visava promover feiras internacionais usando o futebol.

Durante certo período, os eventos começaram a contar com alguns grupos que realizavam jogos amistosos entre os times das cidades que sediavam as feiras. Com o tempo, as “peladas” foram se tornando mais regulares e empolgando os participantes, aumentando rixas e rivalidades. Não deu outra, em 1955, três figuras decidiram oficializar e regularizar o torneio, que passou então a ser conhecido como “Copa das Feiras”. O objetivo principal era colocar em disputa os times das cidades onde se realizavam os encontros comerciais, e ajudar a aumentar a popularidade e as vendas, apelando pro esporte.

O suíço Ernst Thommem, o italiano Otorrino Barrasi e o inglês Stanley Rous, que futuramente ocupariam cargos na Uefa e na Fifa, foram os idealizadores do que, em 18 de abril de 1955, seria conhecido por Inter-Cities Fairs Cup. A criação não foi aleatória; duas semanas antes, surgia a Liga dos Campeões, visando reunir os principais clubes europeus de cada país.

Conforme as edições passaram, o formato foi mudando, e mudando…

O formato da competição foi alterado diversas vezes, até chegar aos moldes do “Uefão” conhecidos hoje. A primeira edição foi peculiar em diversos aspectos: durou três anos, apesar do baixo número de participantes, pois os jogos só poderiam acontecer com datas que coincidissem com as feiras. Os times das doze cidades foram divididos em quatro grupos de três equipes, saindo um vencedor para as semifinais. Os estreantes foram: Barcelona (ESP), Basiléia (SUI), Birmingham (ING), Copenhague (DIN), Frankfurt (ALE), Lausanne (SUI), Leipzig (RDA), Londres (ING), Milão (ITA) e Zagreb (IUG). No entanto, Viena (AUT) e Colônia (ALE) desistiram de participar no meio do caminho, facilitando a classificação das cidades que os enfrentariam nas respectivas chaves. Fora o Barcelona, Birmingham City, Lausanne-Sports e a Internazionale, todos os outros times tinham jogadores selecionados de suas cidades, e não provinham de um clube específico, mas sim de vários.

Com clara superioridade, a taça da competição terminou nas mãos do time catalão, que, após empatar em 2 a 2 em Londres, contou com arquibancada lotada no Camp Nou para que sua cidade levasse o título, com um esmagador 6 a 0 sobre a seleção da capital inglesa.

A segunda edição (1958/60) durou um ano a menos, e mudou alguns padrões: participavam equipes municipais, mas clubes regulares – cujas cidades recebessem as feiras comerciais – também poderiam entrar na disputa. No entanto, agora com 16 equipes, as partidas seriam de mata-mata, ida e volta. Novamente, a hegemonia blaugrana estava nítida desde a primeira fase, e, na final, não deu outra, senão o bicampeonato do Barcelona, sobre os ingleses do Birmigham.

Conforme foi se popularizando, a Copa das Feiras entrou para o calendário geral dos campeonatos europeus, passando a respeitar as temporadas que começam na metade do ano, para terminar somente em meados do ano seguinte. Mas as cidades participantes mantiveram-se na terceira edição (1960/61), e a forma de disputa era a mesma.

Mais uma vez, os ingleses caíram na final, e tiveram de se conformar em ver a taça ser erguida por equipes do Mediterrâneo. Para aumentar a raiva dos ingleses, a derrota ainda contou com um gol contra de Farmers. Dessa vez, quem levou o prêmio após uma apertada vitória foi a Roma, que comemorou em um Estádio Olimpico lotado a glória da capital italiana.

Hegemonia espanhola

Cada vez mais famosa, a Fairs Cup ganha corpo e interessados. Na quarta edição (1961/62), há mais participantes, e alguns até com vaga automática para a segunda fase, para se evitar prolongar demais o torneio. Na final, a certeza de que a taça voltaria para território espanhol: Valencia e Barcelona eliminaram seus adversários na semi, e se encontraram na decisão que teve início mais equilibrado das edições da Copa. Disputando gol a gol no primeiro tempo, o Valencia surpreendeu os blaugranas aos virar um placar que estava em 2 a 2 para 6 a 2, levando a vantagem para o estádio que viu o Barça levar os dois primeiros títulos. Mas a equipe catalã não fez jus ao peso de suas conquistas e viu os valencianos levarem a taça com um empate em seu próprio terreno.

Agora, eram 32 times, sem classificações automáticas para a quinta edição (1962/63), que contou com um time croata na final, novamente com o então detentor da taça, Valencia. Os espanhóis não fizeram por menos, e derrotaram o Dinamo Zagreb na ida e na volta, e se consagraram também bicampeões, ao lado do Barcelona. Na sexta edição (163/64), só o Copenhague levou uma equipe puramente municipal, o que deu uma cara mais profissional ao popular evento, e que seria então finalizado na temporada seguinte (1964/65), em que nenhum participante representou uma seleção municipal, já com 48 clubes na disputa. Uma mudança importante na sexta e sétima edições foi a alteração da final para uma só partida, não mais de ida e volta. Porém, o sistema retornou ao seu normal na edição seguinte.

Os blaugranas voltariam a tomar gosto pelo campeonato na oitava edição (1965/66), após uma emocionante final – mais uma entre espanhóis – com o Zaragoza. A partida de ida, em Camp Nou, foi desanimadora: 1 a 0 para os visitantes. No entanto, o Barcelona não se entregou e contou com o brilhantismo de Pujol para levar os catalães a mais um título. Encerrando a primeira etapa com empate, com um pra cada lado, e vendo logo após o intervalo os donos da casa virarem, o Barça teria tudo para jogar a toalha. Porém, Zaballa igualou, e Torres colocou novamente os blaugranas na vantagem, levando a emocionante partida para a prorrogação. Para fechar com chave de ouro, Pujol não fez feio e marcou o gol decisivo, que deixaria o Barcelona à frente no número de títulos da Fairs Cup, sendo, até seu fim, o único que levou três campeonatos.

Mudanças para inglês ver

As edições seguintes (1966/67 e 1967/68) mantiveram o número de 48 participantes, sendo que a décima edição abriu as portas para a hegemonia inglesa nas quatro temporadas seguintes, após a vitória do Leeds United – que na nona edição foi à final, mas perdeu para o Dinamo Zagreb – sobre o Ferencvaros.

Mas a principal mudança surgiu na décima primeira edição (1968/69), quando a Copa das Feiras passou a aceitar os vice-campeões de alguns países, o que fez com que fosse conhecida também como “Runners-up Cup”, ou a “Copa dos Vices”, subindo o número de participantes para 60. Em 1969, o Newcastle garantiu o segundo título para os ingleses ao vencer os húngaros do Újpest com facilidade, somando 6 a 2 no placar geral.

A década de 60 chega ao fim, assim como a Fairs Cup como foi concebida. Já bem diferente, cada vez mais se encaixaria nos moldes do que seria a hoje tão conhecida Copa Uefa. Na décima segunda edição (1969/70), 64 equipes disputaram, e o desequilíbrio da primeira fase colocou frente a frente times muito díspares em qualidade técnica, o que provocou goleadas como o 10 a 0 do Liverpool sobre o irlandês Dundalk só no jogo de ida (e que somou mais 4 a 0 para a partida de volta), além de promover alguns clássicos no meio do caminho. Barcelona x Internazionale se encontraram nas oitavas-de-final, em que os nerazzurri levaram a melhor, com aperto. A final, no entanto, se deu entre o Arsenal, que eliminou o Ajax na semi, e o Anderlecht, que surpreendeu fazendo 2 a 0 na Inter em Milão. Porém, os belgas não tiveram a mesma sorte na decisão e cederam à pressão dos Gunners, que, em uma virada impressionante, recuperaram a desvantagem de 3 a 1 do jogo de ida e marcaram três em casa, mantendo pela terceira edição seguida a taça na Inglaterra.

A edição final (1970/71) já era outra coisa, e dava a entender que a competição que tinha mudado de cara, deveria também mudar de nome. Não havia mais clubes municipais nem feiras comerciais, a disputa era concreta, de grandes clubes europeus, que brigavam por uma vaga no torneio.

Na decisão, Leeds United, detentor de um título, e a Juventus, que já tinha participado de uma final e perdido para o Ferencvaros na sétima edição. A primeira partida, em Turim, teve que ser interrompida na metade pelas péssimas condições de tempo, tendo sido recomeçada três dias depois. Com clima de despedida repleta de emoção, terminou em empate de 2 a 2, que contou com gols de Bettega e Fabio Capello para os donos da casa, enquanto Madeley e Bates marcaram para os ingleses. Sem goleada, o jogo de volta ficou no empate em 1 a 1, mas que dava o título aos ingleses, pelo critério de maior número de gols marcados fora de seu mando. Assim, o Leeds levou a taça pela segunda vez e coroou o encerramento da Copa das Feiras.

Quem quer levar pra casa?

A magnitude que o torneio ganhou não deixou escolhas para a Uefa, que decidiu então assumir o comando da competição na temporada seguinte (1971/72), criando novas formas de classificação, novos critérios, e, claro, uma nova taça.

Porém, uma séria pendência precisava ser resolvida: quem ficaria em definitivo com o troféu? Para resolver o dilema, a entidade resolveu promover uma partida única entre o primeiro a vencer a Copa das Feiras, e o último. Assim, Barcelona e Leeds United, também os times com melhor ranking na competição desde o seu início, disputariam um play-off, para finalmente dar por encerrada a Fairs Cup. Em setembro de 1971, os blaugranas venceram o confronto com um placar de 2 a 1, no Camp Nou, e mantiveram a taça, que viram por três vezes ser erguida pelas mãos de seus jogadores.

Hoje, o “Uefão” também encerra sua história, na última edição. A partir da próxima temporada, mudará de formato, pois o presidente da entidade, Michel Platini, decidiu montar um novo ciclo estrutural, querendo renovar o conceito da competição, para que deixe de ser apenas a “segunda” na Europa. Dentre as mudanças, está a formação de uma nova fase de grupos, mais simples e organizado, semelhante ao da Liga dos Campeões. Neste novo torneio, chamado de Liga Europa, participarão 48 clubes, divididos em 12 grupos de quatro, com jogos de ida e volta, ao invés de 40, divididos em oito grupos de cinco, disputados em turno único.

Agora resta saber quem levará para casa pela última vez a taça da mais nova extinta Copa europeia.

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Equipe Trivela

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