Como Eles Roubaram o Jogo

Em “Como eles roubaram o jogo – segredos dos subterrâneos da FIFA”, o renomado jornalista inglês David Yallop dedica 365 páginas para satanizar um homem, carinhosamente apelidado no livro como Rei Sol. O astro da obra é o ilustre brasileiro Jean Marie Faustin Godefroid Havelange. Por isso o título mais apropriado para o livro seria “Como ele roubou o jogo”.

Yallop disseca Havelange através de uma interessante combinação de detalhada análise psicológica, obcecada pesquisa jornalística e uma boa dose de juízo pessoal de valor. Como não poderia deixar de ser, o tema futebol suscita a veia passional do autor, o que, se acrescenta tempero ao livro, termina por tirar-lhe certa parte da credibilidade. Prova disso é o flerte do autor com a teoria da conspiração, nas diversas passagens em que destaca o lado anti-Europa e em especial anti-Inglaterra que norteou a longa carreira do cartola tupiniquim.

Através de uma narrativa extremamente maniqueísta, o autor se dedica a dividir a história do futebol em antes de Havelange e depois de Havelange. Antes de Havelange o futebol era lindo, romântico, puro e deliciosamente amador. Depois de Havelange o jogo foi embrulhado para presente e temperado com generosas pitadas de materialismo, corrupção, favorecimento, negociações escusas, autoritarismo, tráfico de influência e enriquecimento ilícito. Ao concluir a leitura da última página o leitor sai com a exata impressão de que Havelange é o filho do Rei Luis XIV com o Poderoso chefão.

Fruto de um intenso trabalho investigativo nos quatro cantos do mundo e entrevistas com jogadores, empresários, árbitros, dirigentes, políticos, psicólogos e juízes, o livro caminha no limiar entre o profundo e o maçante. O livro impressiona pela riqueza de detalheas, ao mesmo tempo em que contém enviesadas passagens anti-latinas, anti-brasileiras e por vezes pateticamente pró-britânicas.

Para desvendar o emaranhado jogo político que permeia os bastidores da FIFA, David nos leva a uma viagem no tempo, quando Havelange competiu como atleta olímpico nos jogos de 1936. Passa pelas primeiras experiências administrativas do Rei Sol, na Viação Cometa, e desemboca na escolha de Havelange para presidir a CBD em 1956, etapa essa que catapultou o cartola ao posto de mandatário supremo do futebol por 24 anos. Um agradável efeito colateral da leitura são as narrativas das Copas de 54 em diante. Nelas, o autor aproveita para mistificar seres como Garrincha, Maradona e, acima de tudo, Edson Arantes do Nascimento. Se para o autor Havelange é o demônio, Pelé é deus. Seja por seus talentos futebolísticos, seja por sua oposição ao ex-presidente da FIFA, seja pelos projetos políticos liderados pelo ex-ministro extraordinário dos esportes.

As histórias envolvendo partidas de Copas pouco agregam de novidade ao leitor mais fanático, mas é sempre interessante observar um retrato do futebol brasileiro pela ótica de um estrangeiro. Um estrangeiro que sabe do que está falando. Chegado a um extremismo, o autor pinta futebol brasileiro dentro das quatro linhas como a mais lírica obra de arte (em especial o time de 1970) e a mais desavergonhada bagunça fora dele. Quando cansa de bater em Havelange, David parte pra cima de Blatter, Horst Dassler (ex-chefão da Adidas) e do glorioso Ricardo Teixeira. Entre a acidez de uma crítica e a indignação com os trambiques revelados, o autor nos brinda com doses do incomparável humor britânico.

Traçando um paralelo, o livro é uma mistura do estilo José Trajano, saudoso de um estilo de jogo da época em que se amarrava cachorro com lingüiça, com a linha de investigação política à la Juca Kfouri, dedicada a descortinar a podridão dos bastidores do futebol.

Sem dúvida alguma o autor faz seu ponto ao demonstrar como interesses de marketing se sobrepuseram de maneira selvagem às preocupações com os aspectos estéticos e sentimentais que envolvem o futebol. No entanto, se considerarmos que este jogo mágico é a válvula de escape para tantos desiludidos com a vida cotidiana, chegaremos à conclusão que muitas vezes a ignorância anda de mãos dadas com a felicidade. Tem coisas que a gente simplesmente não precisa saber.

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Equipe Trivela

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