Ciao, Ciao, Parque Antartica…

por Ayres Santos*

A primeira vez que entrei no Parque Antartica foi inesquecível. Sempre tive essa vontade de conhecer a “turma do amendoim”, de ver os velhinhos corneteiros palestrinos, parte importante do folclore nacional futebolístico. E não me decepcionei nem um pouco. O calor da torcida, os cânticos, o sotaque italiano dos torcedores da antiga fizeram daquela tarde noite um momento inesquecivel de minha vida. Me lembro de um senhor sentado atras de mim e que xingava os jogadores em italiano, acredite se quiser, ele tinha uns 70 anos, provavelmente tinha vivido no Brasil a vida inteira, (esse jogo que descrevo aconteceu a uns 20 anos atras), mas parecia que ele tinha desembarcado no porto de Santos a poucos dias, direto da Vecchia Italia. Sou carioca, filho de portugues e vascaino, e de cara notei que o jeito do palmeirense torcer eh diferente de todos os outros, e muito, mas muito similar mesmo ao vascaino, troca-se o sotaque italiano pelo portugues,, mas ambos sao extremamente exigentes (ou permissivos) com relacao a seus jogadores. Nao eh a toa que o maior idolo da era moderna vascaina, Edmundo, eh tambem idolatrado pelos alviverdes. Hoje Diego Souza esta tentando construir sua historia na colina, depois de uma realvcao de amor e odio pelo alviverde, vamos ver no que vai dar em Sao Janu. Vascainos e Palmeirenses tem em comum a paixao pelo jogador que luta, briga, ama a camisa que veste, acho que o fato das torcidas ficarem muito proximas aos seus idolos, tanto em Sao Januario quanto no Parque Antartica, tem muito a ver com isso. Tenho uma teoria de que a posicao mais dificil para um jogador no Vasco eh lateral, porque o cara corre do lado da torcida e nao tem refresco nunca, se eh craque, como foi o Felipe no final da decada de 90, a torcida empurra e vira genio, se eh mediocre, ou se esconde e nao consegue fazer nada ou se destaca pela raca e consegue um sucesso nunca replicado em outros times, o proximidade da torcida pode ser um catalizador bom ou uma bomba-relogio prester a explodir e sei que esse fenomeno tambem acontece na historia palmeirense, com certeza. Ha jogadores na historia do Palmeiras e do Vasco que tiveram excepcionais carreiras pelos dois mas que nunca produziram nada por clubes rivais muito em funcao disso.
As colonias que geraram as duas agremiacoes, Italiana e Portuguesa, tem muito mais um comum do que realizamos, cresci num ambiente com muita influencia lusa, com certeza, mas convivi muito tambem com amigos de descendencia italiana, e vi muitas similaridades, o prazer de receber, a mesa farta, o palavrorio alto, o gestual frequente e teatral, o amor e odio, o adoro isso/detesto aquilo que permeia as relacoes ate com coisas banais da vida, tao caracteristicos da cultura meditarranea. Isso se replica no futebol com certeza, e nos permite, Vascainos e Palmeirenses ter um sabor diferente que nunca sera replicado pelos clubes que nos rivalizam. Obviamente por termos milhoes de torcedores espalhados por todo pais, abrigamos pessoas de todos as classes, todos as etnias e racas, mas carregaremos sempre, orgulhosamente. a bandeira de ser times que cresceram pelo amor de imigrantes ao esporte que amamos. Italianos e portugueses que se uniram pra construir/renovar estadios, tirando dinheiro do proprio bolso pra financiar seu sonho em um novo pais que abracaram. Essas raizes comuns sao preciosas e unicas e nos diferenciam dos rivais, que carecem dessa base historica que nos caracteriza.
Os nossos maiores rivais, tiveram um crescimento baseado em duas coisas; no caso do rival carioca, na massificacao da Globo na decada de 70, coincidindo com uma bolha de jogadores talentosos que passaram pela Gavea, criando uma imagem de “Barcelona do Brasil” e multiplicando exponencialmente o numero de torcedores rubronegros, afinal quem nao entende nada de futebol quer torcer pra quem esta ganhando (isso tbm explica o crescimento nos ultimos anos da torcida do tricolor paulista); no caso paulista foi o contrario, o sofrimento de mais de 20 anos sem titulos, tambem no mesmo periodo, criou uma visao caricata, mitica/comica do torcedor corintiano, Jo Soares tinha um personagem que falava “esse time so me da alegria” pra definir o Timao. Essa seca de conquistas criou uma uniao ainda maior entre os corintianos que historicamente sempre tiveram times inferiores aos rivais e sempre se caracterizaram por tentar igualar no grito da torcida. Alem disso, e talvez o fator mais importante nessa equacao, o boom populacional de SP ofereceu aos “novos paulistas” (imigrantes do nordeste principalmente) a possibilidade de adotar o time sofredor, ate por nao querer torcer pelos times que representavam o morador tradicional (mesmo fenomeno se passou no Rio tbm, com Flu e Bota).
Espero poder um dia assistir partidas na Arena Palestra Italia, um projeto belissimo que com certeza vai catapultar o Palmeiras para muitas conquistas, mas carregarei pra sempre na memoria a imagem daquele tarde/noite naquele estadinho charmoso construido na virada do seculo e comprado pelo Palmeiras em 1920. Sei que a fila anda e que as demandas do futebol moderno nao comportavam mais jogos no velhinho centenario, mas as marcas indeleveis daquele que foi o templo palestrino durante mais de oitenta anos vao sempre estar na minha memoria e vao sempre me lembrar da maneira de jogar da “Academia”, o time que dava aula de futebol e fazia a bola passear pela grama, de craques como Ademir da Guia, Dudu, Leivinha, Luis Pereira e antes Julinho Botelho, Servilio e outros. Que ressurja o alviverde imponente na Arena.

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Equipe Trivela

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