Chateauroux: O caçula da UEFA

Pela 35ª rodada do campeonato francês, o Paris Saint-Germain jogava contra o Rennes, de olho nos resultados de Sochaux e Auxerre, que enfrentavam, respectivamente, Lens e Ajaccio. A rodada poderia garantir com antecedência a classificação do PSG para a Liga dos Campeões; bastava uma combinação favorável. Em casa, os Leões cairiam por 3 a 0. Também em seu estádio, o AJA empataria por 1 a 1. A apreensão da torcida tomava conta do Parc des Princes, à espera de um gol. O capitão Frédéric Déhu aliviou a angústia parisiense ao marcar o tento que selava o retorno do clube à LC. Festa nas arquibancadas, mas a maior celebração acontecia a cerca de 250 quilômetros dali.

Em Chateauroux, a comemoração teve um gosto de agradecimento ao time da capital. Explica-se: a vitória do PSG automaticamente classificou o Chateauroux para, pela primeira vez em sua história, disputar a Copa UEFA. O time já havia conseguido a façanha de se classificar para a final da Copa da França contra o mesmo PSG. O vencedor desse torneio garante uma vaga na Copa UEFA. Como o clube parisiense havia assegurado seu ingresso na LC, mesmo que vencesse a Copa da França ele seria obrigado a ceder o direito à Copa UEFA ao vice. Assim, o pequeno clube da região central francesa, conhecida pela exuberância dos inúmeros castelos ali construídos, despontava para o cenário europeu.

Destinos semelhantes

Pela quinta vez desde 1996, um time pequeno conseguiu uma vaga na final da Copa da França. O Chateauroux teve o mesmo destino de Nimes (1996), Sedan (1999), Calais (2000) e Amiens (2001): perdeu a final ao cair por 1 a 0 diante do PSG. O maior título conquistado pelo Chateauroux em toda sua longa história permanece o de 1996/7, quando a equipe sagrou-se campeã da segunda divisão, assegurando pela primeira vez o acesso à elite do futebol francês. Porém, a permanência entre os grandes durou pouco tempo: o time terminou em 17º em sua temporada de estréia e retornou à Segundona. Depois dessa única experiência, o Chateauroux cumpriu campanhas apenas regulares, ocupando posições intermediárias. Em 2003/4, acabou em 11º lugar.

O Chateauroux nasceu em 1883. Nesse ano, um professor do liceu criou uma sociedade de ginástica chamada La Berrichonne. A seção de futebol viria a aparecer somente em 1914, quando Léon Talichet estava na presidência do clube. Ainda não era a modalidade padrão. Em 1916, as primeiras equipes de football association despontaram na cidade por conta de militares baseados ali em virtude da Primeira Guerra Mundial. O futebol se desenvolveu e ganhou corpo em Chateauroux quando, em 1935, fundiram-se o clube de ginástica e o ASC. O azul e o vermelho foram adotados como as cores oficiais da recém-criada equipe.

História de (poucas) conquistas

Logo veio o primeiro título, com a conquista da Copa do Departamento (espécie de torneio regional) em 1937. Passaram-se 13 anos para o Chateauroux chegar ao CFA (abreviatura de campeonato amador francês). Caiu em 1957/8 e retornaria em 1960/1. No ano do rebaixamento, Claude Jamet tornou-se presidente do clube, cargo que ocuparia até 1989. Outra taça chegou em 1963/4, quando o time venceu o grupo oeste da CFA. O Chateauroux inaugurou seu novo estádio em 1965. No ano seguinte, ganharia outro troféu, dessa vez como campeão do grupo central da CFA.

O acesso à segunda divisão veio apenas em 1972. Com campanhas razoáveis, o clube não chegava a disputar o título, ma também ficava distante da ameaça do rebaixamento. Porém, duas quedas consecutivas abalaram o Chateauroux, na metade da década de 80. Nesse período crítico, houve constantes mudanças de treinadores. Aos poucos, o Chateauroux se acertou e em 1990/1 voltaria à segunda divisão. Foi aprovado também o estatuto profissional que promoveu a reorganização do clube. Em 1992/3, caiu novamente para, na temporada seguinte, levantar a taça da terceira divisão (chamada de National). O clube crescia a cada ano, e tal tendência teve seu auge em 1996/7, com o título da segunda divisão. Experimentou a elite por pouco tempo e, desde então, procura demonstrar alguma força na disputa da Copa da França e da Copa da Liga.

Reforma para receber a elite

O estádio Gaston Petit, inaugurado em 1965, abriga 17 mil pessoas. Petit foi prefeito da cidade entre 1967 e 1971, ano de sua morte. Nascido em 1914, ele começou a carreira de professor universitário em 1941. Em 1945, tornou-se inspetor na direção departamental da juventude e dos esportes. Nomeado chefe de serviço em 1949, Petit não deixava de freqüentar o cenário político local. Foi eleito conselheiro municipal em 1953 e passou pela função de primeiro adjunto (1959) antes de assumir a prefeitura. Por seu trabalho de incentivo ao esporte, recebeu essa homenagem de batizar o estádio do Chateauroux.

Apesar de 1997/8 ter sido a única temporada do clube na primeira divisão, o Gaston Petit foi reformado para abrigar com mais conforto seus torcedores para os jogos do torneio. Ganhou quatro tribunas cobertas. O recorde de espectadores foi estabelecido em 24 de janeiro de 1998, na partida contra o Olympique de Marselha: na ocasião, 15.896 pessoas compareceram ao estádio. Nas partidas da segunda divisão, em média, o time costuma levar cerca de 6 mil torcedores.

Chegar até a Copa UEFA parece um sonho surreal para um clube bastante modesto. Disputar um torneio continental significa uma vitrine jamais imaginada. Claro, o Chateauroux dificilmente irá longe, mas sua classificação prova mais uma vez que os pequenos também podem chegar lá e roubar o lugar dos chamados times grandes. Enquanto o Chateauroux enfrentará equipes de outros países, o Olympique de Marselha, por exemplo, torcerá pelo sucesso do ´Berri´ pela televisão.

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