Catalunya con la Roja

A repórter Vanessa Ruiz, correspondente da rádio Estadão/ESPN e do Tazio, acompanhou como os catalães de Barcelona e região assistiram à final da Eurocopa e como foi a comemoração de uma região espanhola sempre caracterizada como separatista e alheio à capital do país. Você também pode acompanhar o trabalho dela pelo blog da Vanessa e no Twitter @vanessaruiz.

Por Vanessa Ruiz, de Barcelona (ESP)

O domingo começou muito chuvoso, seguindo-se aos dias de “onda de calor” aqui na Espanha (pelo menos foi assim que a mídia classificou as temperaturas da semana passada). Primeiro de julho era não somente o dia inicial das liquidações de verão da Catalunha como também o principal dia dos eventos do “Pride Barcelona”, eventos que culminam na parada do Orgulho GLBT.

Primeiro de julho era também o dia da final da Eurocopa 2012, Espanha x Itália.

Seria hipócrita dizer que Barcelona respirava “La Roja”. Não respirava, não. O que não quer dizer que o jogo estava sendo ignorado. Nos dias anteriores, o PP, partido do Primeiro Ministro Mariano Rajoy (que anda com a popularidade na lama por causa do agravamento da crise econômica), pediu que a Prefeitura de BCN instalasse um telão para que a população pudesse assistir ao jogo junta. O prefeito negou e o jornal La Vanguardia, maior por aqui, resolveu fazer uma pesquisa em seu site. É claro que a amostragem não é científica nem nada, mas a maioria era a favor do tal telão. Havia ainda alguns comentários pesados dos leitores, na linha de que nem todos os catalães são necessariamente separatistas e que os governos locais praticam uma espécie de “ditadura antiespanhola”.

Por algum infortúnio, já que consta que este não é um canal pago, a Telecinco não pega no meu apartamento. Eu teria, então, que encarar o temporal e procurar um lugar para assistir ao jogo. Chovia demais mesmo, as ruas estavam vazias pelos lados do Eixample, a região central de Barcelona.

Lendo os jornais, fiquei sabendo de um telão bancado pela Telecinco e pela Cadena SER em Cornellà de Llobregat, uma cidade menor nos arredores, como se ficasse na “Grande Barcelona”. Planejei-me relativamente mal e acabei perdendo o primeiro tempo na chuva, mas salva pelo celular 3G, onde eu consegui acessar o “player” da Estadão/ESPN.

Peguei o metrô e andei mais 1,5 km por Cornellà – ainda mais vazia que Barcelona – até chegar ao Parc Esportiu, ao lado do estádio do Espanyol, o Estadi Cornellà-El Prat. O telão estava montado dentro do ginásio e, de fora, mesmo próxima à porta, a sensação que eu tinha era de estranhamento: parecia tudo muito calmo.

Na porta, a policial deu uma olhada na minha bolsa, mas não me revistou. Outra moça fechou uma pulseirinha vermelha no meu braço e eu entrei. Não havia nem mil pessoas ali, mas aos poucos fui me deixando contagiar pelo clima. O placar ainda era de 2 a 0 para a Espanha, mas os primeiros gritos de “campeón” começaram a soar.

Numa Catalunha que se mostra ao mundo como 100% separatista, é interessante ver que não é exatamente assim que as coisas funcionam por aqui. Por mais que os catalães tenham muito orgulho da sua cultura, da sua língua, nem todos são de fato separatistas. Ali naquele ginásio, catalães de todas as idades amarraram suas bandeiras espanholas nas costas e gritaram pela Fúria, pela Roja.

Aos poucos, me envolvi no ambiente com aquelas pessoas. Em alguns momentos, eu esquecia completamente o jogo apenas para ficar observando como é que eles torciam. Não havia aquele furor descontrolado que nos acostumamos a ver no Brasil, mas, ao mesmo tempo, algo ali era de arrepiar — é daquelas coisas que só se perderia tempo tentando precisar porque tenho certeza que você consegue imaginar do que é que estou falando.

A organização, aliás, era impressionante para os nosso padrões. Havia pessoas sentadas na arquibancada e outras na quadra, no chão mas também em cadeiras soltas organizadas em fileiras. Num determinado momento, um grupo acabou bagunçando as cadeiras quando levantou para pular e puxar um grito de guerra. Assim que a poeira baixou, trataram de colocar tudo no lugar antes de sentarem-se novamente.

O próprio fato de as pessoas estarem sentadas na maior parte do tempo contribuía para tornar mais grandioso o momento dos gritos. De repente, alguém puxava: “Yo soy español, español, español”, e aos poucos todos iam se levantando para acompanhar. Catalães são espanhóis, e eles sabem disso melhor que nós, ainda que os mais rebeldes critiquem os “compatriotas” por seguirem a vitoriosa Roja.

Veio o apito final, veio a tripleta e a sensação – sensação, não, certeza – de que eles eram os melhores não só da Europa, mas do mundo. O melhor futebol do mundo. O melhor povo do mundo, por que não? Não há nada demais em reconhecer-se bom contanto que isso não se transforme em esnobismo. Nós, brasileiros, já sentimos muito este mesmo gosto – levantamos cinco Copas do Mundo, poxa vida.

Na entrega do troféu e das medalhas, vaias para Rajoy, aplausos para todos os jogadores. A quadra se esvaziou rapidamente e, não, as ruas de Cornellà não ficaram tomadas. A festa era na Plaça d'Espanya, em Barcelona, quisesse a Prefeitura ou não.

Nos últimos dias, a Plaça d'Espanya vinha servindo de portal de entrada para os eventos do “Pride Barcelona”. Em 2010, foi o local onde os catalães em Barcelona comemoraram o título mundial conquistado pela Espanha na África do Sul.

Seria exagero dizer que a Plaça ficou cheia. Não ficou, não. Ainda que as vias no entorno estivessem fechadas para o trânsito porque havia gente circulando por ali, havia espaço para pelo menos duas vezes mais só nesta área circular, e muitas vezes mais se fosse ocupada a Avinguda de la Reina Maria Cristina, que é onde se costuma fazer eventos públicos a céu aberto por ali.

Para quem queria comemorar, era gente suficiente. Acho bonito o jeito que eles têm de amarrar a bandeira feito uma capa nas costas — não sei se a gente faz isso em massa no Brasil e é claro que isso não é uma exclusividade espanhola, mas era bonito.

Se a praça não estava exatamente apinhada, o monumento central, este sim, provocava uma disputa por lugar. Um cara subiu no nível intermediário, que já era bem alto, para agitar uma bandeira da União Europeia. É óbvio que a mensagem era muito mais política do que futebolística, mas só Deus sabe o que ele quis com aquilo. Enquanto isso, outro ali embaixo gritava Barça, Barcelona (o FC).

Alguns minutos depois, e já passava da meia-noite, outros dois torcedores subiram no topo do monumento – e isso era BEM alto – e agitaram uma bandeira da Espanha. Não sei precisar até que horas foi a festa. Certamente não foi tão intensa como na Plaza de Cibeles, em Madri, a capital da Espanha.

Como já era quase 1h e, já sabemos, a Prefeitura não estava muito interessada em incentivar uma comemoração teoricamente “não-catalã”, o metrô não operou por nem um minutinho a mais. E foi preciso caminhar uns bons quilômetros até voltar pra casa, o que eu não considero um problema. Esta é, aliás, uma das coisas que eu mais gosto por aqui: poder andar de um lado pro outro na maioria imensa das vezes, pedalar bicicletas públicas, pegar metrô/trem/ônibus sem depender nem um pouquinho de carro.

No caminho, um buzinaço, pessoas para fora das janelas e tetos-solares dos carros agitando bandeiras. De novo, festa de todas as idades. Já em casa, eu ainda ouvia pela janela uma ou outra buzina.

Na segunda-feira, ouso dizer que Barcelona já parecia ter esquecido a conquista do dia anterior. Os sinais eram discretos. Uma bandeira aqui, uma criança com a camisa da Roja ali. Dizer que a cidade estava “pintada de vermelho” seria baboseira.

Pela TV, deu para acompanhar a festa para a recepção dos campeões na Plaza de Cibeles. O clima era de balada, música eletrônica e o desfile dos jogadores em carro aberto. No palco, Pepe Reina, goleiro do Liverpool e reserva de Iker Casillas na seleção, comandou o show. Quem conhece, diz que ele tem esse lado “Faustão”, mesmo – só que aqui não tem Faustão, mas vocês me entendem. O vídeo dele imitando uma aeromoça no voo pós-título já viralizou na internet. Reina chamou um por um dos jogadores, dizia seus primeiros nomes enquanto o público presente gritava os sobrenomes. Alguns fizeram breves discursos, todos agradeceram o apoio do público e Iniesta fez menção ao “momento difícil que vivemos”, ou seja, a crise.

O término do desfile dos campeões se deu no início da noite, quando começava a escurecer, por volta das 21h.

Talvez seja o fim da festa. Não poderei ficar por aqui para acompanhar o desenrolar porque Silverstone e o GP da Grã-Bretanha chamam. Mas certamente é mais uma injeção de ânimo no povo espanhol que, e isso já dá pra dizer, não vai de maneira alguma aumentar a taxa de popularidade de Rajoy porque a Fúria venceu mais um título e entrou para a história com recordes nunca antes alcançados. Eles sabem muito bem separar as coisas.

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