Carta aberta ao Come-Fogo

Querido Come-Fogo

Esta é uma carta de rompimento. Vou ser simples e direto: não podemos continuar nos encontrando desta maneira.

É triste dizer isso após um jogo emocionante, bem do tipo que eu gosto: jogo de futebol de verdade, com virada, pênalti perdido, poucos jogadores com nome de avenida e dois golaços de Eliomar Bombinha. Esse, sim, tem nome de jogador. Ah, se ele se chamasse Elithesea Little Bomb, seria idolatrado no Brasil. No primeiro gol, subiu muito, acima do zagueiro e fez, de cabeça. No segundo, um chute cruzado, sem chances para o Márcio. Gols de atacante competente.

Pois é, o jogo foi ótimo, mas não dá mais. A culpa não é sua. Não é minha, também. É do capitalismo. Futebol precisa dar lucro. Um time grande precisa ter de 12 a 15 mil pessoas em campo a cada jogo para que continue valendo a pena. Querido Come-Fogo, depois de 25 anos ausente da principal divisão paulista, uma cidade pujante como Ribeirão Preto não consegue levar mais que 8200 torcedores ao bom estádio do Botafogo.

Não dá, né. O nome disso é fracasso. Fracasso do campeonato paulista, pelo menos nesse formato. Não é possível disputar 190 jogos para decidir quais serão os OITO classificados para a segunda fase. Depois, as quartas-de-final e semifinais em jogo único. Convenhamos, é muita preliminar para pouca ação.

São jogos sem público. O Santos foi a Jundiaí e levou TRES mil pessoa ao campo. Ah, o Santos estava com time misto? Mas o Paulista era líder. Então, o líder não consegue levar TRES mil pessoas ao estádio?  A verdade é dura: quem torce para Catanduvense? Quem sabe se o Grêmio é Barueri ou Prudente? Guaratinguetá ou Americana?

Adoro futebol do interior, adoro futebol brasileiro. Sou da turma do pernil. Por isso, eu digo que não dá mais. Campeonato regional é um anacronismo. É necessária a volta da Copa do Nordeste, do Sul-Minas e do Rio-São Paulo. O Campeonato Paulista poderia ser classificatório para o Rio-São Paulo, poderia ter uma fase com muitos clubes do interior e os melhores se classificariam para um turno final com os grandes, poderia ser em estilo Copa do Mundo, com sedes…. O que não pode é continuar assim.

Querido Come-Fogo, eu continuaria a acompanhá-lo, como acompanho dede os tempos de Sócrates, Geraldão, Carlos César e Paulo Bim. Mas onde? Aí, depende de Comercial e Botafogo. Poderia, se continuassem com mentalidade pequena, na Copa São Paulo. Ou, se resolvessem crescer novamente, na Série A ou B do Brasileiro.

O que não pode é ser como hoje: em um campeonato que só se justifica como forma de manutenção de poder do presidente da Federação Paulista, que fica no ocaso o resto do ano. É um campeonato de favor aos pequenos – mesmo pequenos-gigantes como Comercial e Botafogo – e que nega aos grandes um melhor planejamento, com uma boa pré-temporada e tempo para excursão.

É, Come-Fogo, assim não dá mais. Esta carta deveria ser endereraçada ao Paulistão, mas preferi falar com vocês, clubes fortes da minha infância. No ano que vem, vou ver de novo, a paixão continua, mas a razão tende a falar mais alto. Hoje, é apenas um clássico subsidiado pelos grandes. É preciso correr atrás da grandeza antiga, como Ponte e Guarani, com tantas dificuldades, fazem.

Mostrar mais

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo