Bilé, o craque da camisa 19

A bola é lançada pela lateral direita e Bilé corre para dentro da área deixando para trás, com um sutil drible de corpo, o zagueirão que o marcava. Turco, o veloz atacante, dispara a todo vapor atrás da pelota, que ameaça sair pela linha de fundo, enquanto seu marcador torce desesperadamente para a ela sair. Não deu outra, Turco chegou na bola todo desajeitado e cruzou rasteiro da linha de fundo para o bico da pequena área para Bilé fuzilar a meta adversária. Gol! Esse era o gol que abriu o placar e, por fim, daria o título para o Rui Barbosa Futebol Clube.

Intervalo de partida e Bilé, como sempre, fora substituído. Não que estivesse mal, mas o técnico sempre o tirava. Final de jogo e todo o elenco do Rui Barbosa comemorou muito o título inédito, inclusive o zagueiro Balão – grande parceiro do distinto goleador – que, suspenso, acompanhava o jogo da numerada.

O que chamava atenção naquela equipe era a condição de Bilé, capitão, artilheiro e sempre substituído. Isso incomodava o jogador, que tinha como hábito jogar com uma camisa número 19 costurada à mão, uma pequena demonstração da falta de recursos que assolava a grande maioria dos clubes de futebol. O jogador alcançara essa condição com um pouco de sorte, já que era reserva no time e quase nunca tinha chance de mostrar seu futebol, que não era muito vistoso, diga-se de passagem. Ele, que corria praticamente em câmera lenta, não só pela elegância, mas pela velocidade também, vivia chateado com a situação e era visto com desdém por alguns companheiros de equipe. Mas Bilé era diferente, muito inteligente, sonhava em ser filósofo. Suas frases, na preleção, muitas vezes não eram compreendidas por seus parvos companheiros. Paradoxalmente, o vagaroso centroavante lembrava muito os lendários Vikings, pelo porte atlético e pela voz, muito grave.

Seu objetivo não era fama, nem seus dividendos, mas apenas jogar bola e marcar gols. Especialidade? Não, Bilé não tinha. A não ser pelo incrível faro de gol. Seu chute não era dos mais potentes, seu cabeceio era apenas normal, sua velocidade e habilidade eram abaixo da média, mas ele contrariava a lógica e estufava as redes adversárias em todas as partidas. Ele incorporou a mística do saudoso Garrincha, guardadas as devidas proporções, já que o camisa sete mais famoso de todos os tempos, aparentemente, não levava o menor jeito para a coisa.

O destino, no entanto, reservou um futuro mais digno para Bilé. Depois de encerrar a carreira precocemente depois de sofrer uma queda de bicicleta ao voltar de uma sessão de treinamento, o ex-centroavante do Rui Barbosa, não caiu nas tentações do álcool como Garrincha, embora seja um fã confesso de um mézinho. Bilé não se tornou “Doutor” como Sócrates ou Tostão, nem tampouco se tornou um treinador afamado. Bilé apenas se dedicou a estudar a alma e a mente humana. Futebol? Ah, sim. Para ele é melhor maneira de se analisar alguém; toda quinta-feira na pelada com os amigos e velhos companheiros.
 

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Equipe Trivela

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