Beira-Mar: O estádio da discórdia

Por Leonardo Rossato

Alguns clubes consideram a construção de um estádio a solução para todos os seus problemas. Para o Beira-Mar, no entanto, ter “ganhado” um estádio foi o estopim para a maior crise da história do clube, que quase levou o auri-negro de Aveiro a encerrar suas atividades no final do ano passado.

Agora com o título da Liga de Honra, o Beira-Mar busca se recuperar, esquecer os traumas recentes e dar uma solução para o problema do Estádio Municipal de Aveiro, que se tornou um elefante branco para o clube no norte de Portugal datado da década de 20.

O início

O Sport Club Beira-Mar foi fundado oficialmente em 1 de janeiro de 1922 por um grupo de jovens da cidade de Aveiro, que desde 1918 se associavam para praticar futebol na região praiana da cidade. Disputou apenas campeonatos amadores até 1924, quando conseguiu reconhecimento pelo governo municipal de Aveiro e passou a disputar campeonatos regionais, tendo conquistado seu primeiro título profissional em 1928.

Apesar da tradição local, o Beira-Mar só começou a se destacar no futebol português no final da década de 50, quando foi campeão da terceira divisão nacional, na temporada 1958/1959, e da segunda divisão – na temporada 1960/1961. A estréia na primeira divisão foi mal sucedida, e o rebaixamento ocorreu já na primeira temporada.

Merece menção, à época, o incêndio que destruiu parte da sede do clube em junho de 1965.A reconstrução da mesma, nos anos seguintes, em colaboração entre o clube, os torcedores e a prefeitura de Aveiro que coincidiu com o retorno do clube à elite portuguesa, nas temporadas 1965/1966 e 1966/1967.

O Beira-Mar só se consolidou na primeira divisão portuguesa na década de 70, sempre fazendo campanhas discretas, e teve seu maior destaque na temporada 1976-1977, quando o veterano ídolo Eusébio atuou pelo time. Em 1975 também estreou pelo clube Antonio Sousa, até hoje considerado o maior ídolo da história do clube. Novamente os resultados não apareceram.

O renascimento

O Beira-Mar sempre perdeu bons atletas para equipes mais tradicionais. Especialmente Porto e Boavista, também localizados na região norte de Portugal. Em 1979, o ídolo Antonio Sousa foi para o Porto, e o clube foi rebaixado novamente em 1980. Após quase uma década relegado à divisão de acesso, o time retornou à elite portuguesa em 1988.

O retorno à primeira divisão e a volta do ídolo Antonio Sousa ao clube, em 1989, depois de construir uma sólida carreira no Porto, no Sporting FC e na seleção portuguesa, foram determinantes para as boas campanhas dos anos seguintes.

O Beira-Mar conseguiu o sexto lugar do campeonato de 1990, que até hoje é o melhor resultado do clube na divisão principal, e dois oitavos lugares nos campeonatos seguintes. O clube ainda foi vice-campeão da Taça de Portugal em 1991, perdendo a final para o poderoso FC Porto. No entanto, a base do clube não se manteve (o próprio Antonio Sousa saiu em 1993, aos 36 anos) e em 1995 o time foi rebaixado novamente.
Título de Pai e filho

O calvário durou pouco: na temporada 1997-1998, o clube retornou à elite portuguesa. A temporada 1998-1999 marcou o retorno do ídolo Antonio Sousa, agora como técnico. O que não impediu o rebaixamento da equipe, que tornou-se irrelevante, graças a inédita conquista da Taça de Portugal pelo Beira-Mar.

Em um torneio em que os grandes saíram cedo, o Beira-Mar eliminou o CF Benfica (não confundir com o Sport Lisboa e Benfica, o Benfica “original”) Portomosense, União Leiria, Moreirense e Vitória de Setúbal, e disputou uma final inusitada contra o Campomaiorense, vencida por 1 a 0. O gol do título foi de Ricardo Sousa, filho do treinador Antonio Sousa. O título resultou na única participação do clube em torneios europeus: o clube foi eliminado na primeira fase da Copa da UEFA 1999/2000 em dois jogos contra o Vitesse, com uma derrota por 2 a 1 e um empate em 0 a 0.

Estádio: do sonho ao pesadelo

O Beira-Mar retornou no ano de 2000 à elite portuguesa, sendo rebaixado apenas em 2005. Nesse período, foi inaugurado o Estádio Municipal de Aveiro, com capacidade para 33 mil pessoas. No entanto, o gerenciamento financeiro equivocado , que levou a dívida do clube à casa dos seis milhões de euros, aliado ao alto custo de manutenção do novo estádio, levaram o Beira-Mar a uma situação insustentável.

Em novembro de 2009, os salários estavam em atraso, os jogadores do clube ameaçaram a diretoria com uma pré-rescisão e a demolição do estádio era defendida pela prefeitura, como forma de diminuir os gastos do clube. A situação política do clube e o futuro do estádio continuam indefinidos, mas as dívidas foram controladas, os salários atrasados pagos, e o título contribuiu para a reestruturação do clube, que deve, em breve, ser mais um dos times portugueses a se tornar uma SAD (Sociedade Anônima Desportiva).

Mais um recomeço na história de um clube que parece estar acostumado a recomeçar sua caminhada em todas as oportunidades.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo