Avramovic: “Somos os melhores do sudeste da Ásia”
Com um discurso frontal e esbanjando confiança, o sérvio Radojko Avramovic, treinador da seleção de Cingapura, falou à Trivela numa entrevista exclusiva. ‘Raddy’, como é carinhosamente chamado, contou como levou a seleção dessa pequena ilha a ganhar, recentemente, o bicampeonato da Tiger Cup, o principal torneio de seleções do sudeste asiático.
Ex-goleiro da seleção da Iugoslávia e com experiência no futebol inglês, Raddy, de 57 anos, aparece na foto abaixo cumprimentando o primeiro ministro de Cingapura, Lee Hsien Loong. Avramovic começou a carreira de treinador na Croácia, para depois se aventurar no Oriente Médio, mas frita os dirigentes do Kuwait: “Só querem aparecer”.
Confira como foi esse contato com um dos treinadores da moda na Ásia.
O futebol de Cingapura vive um bom momento em relação ao passado. A seleção acabou de ganhar o bicampeonato da Tiger Cup (2004 e 2007), batendo rivais como Malásia, Indonésia e Tailândia, e se consolidando como uma força no sudeste da Ásia. O que você mudou na mentalidade dos jogadores desde sua chegada, há quatro anos?
Geralmente, eu convoco jogadores jovens para a seleção e dou a oportunidade de provarem seus níveis em torneios internacionais. Nós tentamos vencer cada jogo, fazendo com que esses jovens entendam que o compromisso total com a seleção é essencial.
Como você avalia a conquista da Tiger Cup 2007?
Foi duro vencer porque o progresso no futebol dos países da região foi grande, em relação as últimas edições. Todos estavam se preparando para tentar nos vencer. Nós tivemos sorte que nas últimas duas competições não perdemos nenhum jogo, até nos apresentarmos na final e nos garantir como a melhor seleção do sudeste asiático.
Um dos destaques no título da Tiger Cup foi o Noh Alam Shah, que foi artilheiro e eleito melhor jogador. Há alguns meses, o meia brasileiro Peres de Oliveira, uma das estrelas da S-League, nos disse que Alam Shah é um jogador explosivo, mas não é inteligente. Como você avalia a opinião de Peres?
Eu acho normal que o Peres prefira jogar com Egmar e Indra, porque eles jogaram juntos por muito tempo no Home United. Depois, ele foi para o Tampines Rovers e, de algum modo, ele ainda não está muito adaptado a seus novos companheiros. Eu acho que Peres deveria tentar explorar as qualidades de Alam Shah e Grabovac em prol da equipe.
Na seleção de Cingapura, existem muitos estrangeiros naturalizados. O que os jogadores cingapureanos pensam a respeito disso? Há problemas?
Enquanto eu for treinador da seleção, nenhum jogador terá vantagem ou tratamento especial da minha parte por ser cingapureano ou estrangeiro. Eu deixo tudo muito claro para os jogadores, que eu escolherei para a seleção os que merecerem ter uma chance pelas suas qualidades, e não pelo lugar onde nasceram.
Recentemente, o técnico inglês Steve Darby, que trabalhou muitos anos em Cingapura e atualmente está no Perak, da Malásia, nos disse que a Super League, na Malásia, tem mais qualidade que a S-League. No entanto, a seleção cingapureana ganha mais títulos do que a malaia. Qual sua visão sobre essa questão?
Eu acho que a Malásia tem mais qualidade e um número maior de opções em termos de jogadores, mas a seleção não produz o que poderia produzir.
O goleiro da seleção de Cingapura, Lionel Lewis, foi eleito um dos oito melhores jogadores da Ásia, em 2006. Você, como um ex-goleiro, acompanhou o desenvolvimento dele. Ele poderia ter uma chance na Europa?
Sou completamente favorável à idéia de Lewis ter uma chance na Europa. Ele poderia provar suas qualidades em competições de alto nível. Com certeza, ele melhoraria muito em alguns aspectos. É uma tarefa obrigatória para qualquer jogador profissional tentar melhorar sempre. Especialmente indo jogar em torneios de alto nível.
Os treinadores dos clubes da S-League fazem um bom trabalho?
Eu acho que alguns treinadores estão fazendo um bom trabalho e outros não.
Muitos elogiam a organização da S-League e o marketing realizado em cima da competição pelos dirigentes cingapureanos, que a consideram um sucesso. Como você enxerga esse deslumbramento por parte dos cartolas do país?
Eu acho questionável dizer que a S-League é um sucesso, porque existe muita coisa para melhorar, e eu não vi diferença nesse sentido durante esses quatro anos em que estou aqui.
Como você vê o futebol no sul da Ásia para o futuro?
Já existem grandes mudanças, e acho que ainda tem muita coisa para desenvolver com mais qualidade. Vejo que mais associações estão trabalhando sério no desenvolvimento de categorias de base, e isso será benéfico para as seleções em etapas futuras.
Como estava a seleção do Kuwait quando você assumiu o comando, depois da demissão do alemão Berti Vogts?
Desorganizada e com os jogadores desmotivados. Eu trouxe muitos jovens jogadores, e nós começamos a formar um novo time.
Percebe-se no Oriente Médio que alguns países, como Omã e Bahrein, estão emergindo, enquanto tradicionais como o Kuwait estão em decadência. Pela sua vivência como treinador da seleção kuwaitiana, qual o problema do futebol por lá?
Geralmente, tem muitos ‘chefes’, e todos eles ficam tentando aparecer e disputar quem tem mais influência.
Na eleição da Fifa para escolha dos melhores jogadores do mundo em 2006, você votou, por ordem, em Pirlo, Cannavaro e Henry. Por quê?
Pirlo e Cannavaro foram decisivos para a Itália ganhar a Copa do Mundo, e Henry fez um bom Mundial e colecionou grandes performances no Arsenal, levando a equipe à final da Liga dos Campeões.
Você gosta do futebol brasileiro? O que sabe sobre nosso futebol?
Quando alguém fala sobre o futebol brasileiro, para mim significa falar de grandes individualidades. Eu digo isso porque, ano após ano, são produzidas grandes individualidades no Brasil. Mas a Seleção Brasileira prova que ter os melhores jogadores não significa ter o melhor time. No momento, nós temos um brasileiro fazendo parte do time do Young Lions, que é nossa seleção sub-23. Se ele for bem, poderá fazer parte da seleção principal (trata-se do meia Leandro Rodrigues, que foi indicado por Peres de Oliveira).