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Aventura faraônica

João Alves jogou no Santos, na Portuguesa Santista, no Atlético/PR e no Madureira, mas se lançou na carreira de treinador profissional em Portugal. Agora ele se encontra em Port Said, no Egito, dirigindo o El Masry, 11º colocado na Liga Egípcia. Neste bate-papo com a Trivela, o santista (foto ao lado), de 58 anos, conta sobre suas impressões do futebol da terra dos faraós e é realista quanto a situação do clube. “Cheguei há poucos meses com o Campeonato em curso, vamos tentar manter o time na elite”. Confira!

Desde o 3º lugar na temporada 2000/1, o El Masry nunca mais conseguiu ficar nem entre os cinco primeiros na Liga Egípcia. Quais são as maiores dificuldades para fazer o clube voltar a ficar entre os primeiros?
O El Masry é um clube com tradição no Egito, mas o campeonato aqui é competitivo. Penso que com mais tempo poderemos alcançar este objetivo, não este ano.

Qual a maior ambição do El Masry para esta temporada?
Esta temporada não existe outra solução, é pensar na manutenção na elite. Eu só cheguei há pouco menos de três meses…

O técnico José Roberto nos contou, em entrevista, que o clube é dirigido de forma ditatorial por Said Mitualli. Ele tem muitos problemas com a imprensa egípcia. Você tem muito contato com ele? É complicado trabalhar com ele?
Contato tenho todos os dias, mas o Senhor Said é um bom Presidente e, pelo contrario, ele é muito democrático.

Conte-nos um pouco sobre a sua metodologia de trabalho no El Masry? Os treinos são em período integral?
Bom, seria longo pormenorizar esta metodologia, mas, em síntese, trabalho mais com o contato da bola, entra em todos os treinos e normalmente trabalho bi diário.

Logo quando a Liga Egípcia começou, nos anos 40, havia um goleador implacável chamado El Sayed El Dhizui. Ele jogava pelo El Masry. Ainda se fala dele em Port Said ou já está esquecido?
Ele continua a ser lembrado, sim.

A enorme distância estrutural e financeira entre o Al Ahly e os outros clubes egípcios se reflete em campo e consequentemente na quantidade de taças, que é absurdamente superior. Isso desanima e afasta dos estádios os torcedores dos outros clubes? Com exceção dos clássicos, as arquibancadas estão vazias?
O Al Ahly é uma potência no contexto africano, mas longe de desanimar os outros clubes. O Zamalek, o Ismaily e o El Masry tem estrutura e suporte, são clubes tradicionais.
Acha que a derrota para o Etoile du Sahel na final da Liga dos Campeões da África abalou o Al Ahly?
Penso que não esperavam aquela derrota, mas continua a ser uma grande equipa.

Manuel José, técnico do Al Ahly, já chamou José Mourinho de mentiroso. Eles já trocaram muitas ‘farpas’ na imprensa portuguesa. Como é a relação de Manuel José com os outros treinadores no Egito? Você o conhece?
Conheço o Manuel há muitos anos, somos colegas, e conheço Mourinho desde pequeno. Trabalhei em Setúbal, o pai dele (Félix Mourinho) trabalhou no norte do país e eu ainda era jogador. Na equipa que o pai dele treinava tinha alguns brasileiros com os quais eu joguei em outros clubes, portanto, estávamos algumas vezes juntos. Conheço o pai e o filho. Não pronuncio sobre a confusão deles com o Manuel. Quanto a relação do Manuel José com outros treinadores daqui, ela é normal.

Alaa Ibrahim, do Petrojet, é o artilheiro da Liga no momento. É um jogador diferenciado para os padrões locais?
Não, ele jogou no El Masry, é um jogador normal. A equipa (Petrojet) joga em função dele. Existem outros jogadores muito superiores.

Entre a Liga Saudita e a Liga Egípcia, onde existe mais qualidade dentro de campo?
No Egito, sem dúvida. O futebol é mais competitivo, os jogadores, tecnicamente, são superiores e mais profissionais.

É muito comum no Egito os jogadores subirem das categorias de base para os profissionais mau preparados? Quais os vícios mais comuns que você percebe nos jovens jogadores egípcios?
Neste momento, o Egito esta fazendo um bom trabalho nas categorias de base, quantos aos vícios, são os normais de quem esta começando no futebol. Nada muito incomum, não.

Se um jogador estrangeiro lhe pedisse conselhos para se adaptar e fazer sucesso na Liga Egípcia, o que você diria para ele?
Diria para ser o mais profissional possível porque aqui já não existem amadores, o futebol é evoluído e os clubes são bem estruturados, você ficaria surpreendido.

Quando você trabalhou em Angola, nos anos 90, daria para imaginar que um dia eles conseguiriam participar de uma Copa do Mundo?
Angola tem excelentes jogadores. No meu tempo faltava organização, a guerra atrasou muito, não se esqueça que os grandes jogadores portugueses dos anos 50, 60 e 70 eram angolanos, moçambicanos…

Port Said é uma cidade conhecida pelas casas antigas e pelo porto. Como é o turismo por ai?
Port Said já não é uma cidade antiga, é moderna, muito procurada pelo seu sol, suas praias, tem muita vida, uma cidade muito bonita e acolhedora. Lembra muito a minha Santos…

A proximidade com a faixa de Gaza causa algum desconforto nos habitantes?
Nenhum.

FICHA

João Augusto Alves
05/06/1949, Santos (São Paulo).
Clubes:
1978/9: Viseu-POR
1979/0: Vitória de Guimarães-POR
1980/1: Neves FC-POR
1981/2: Viseu-POR
1982/3: Viseu-POR
1983/4: Associação Desportiva da Guarda-POR
1987/8: Desportivo de Cinfães-POR
1988/9: Desportivo de Cinfães-POR
1989/0: Desportivo de Cinfães-POR
1991: Cabinda-ANG
1992: Cabinda-ANG
1993: Cabinda-ANG
1994: Cabinda-ANG
1995: Cabinda-ANG
1996: ARA da Gabela-ANG
1997: ARA da Gabela-ANG
1998/9: Al Shabab-ARA
2002/3: Abha-ARA
2003/4: Abha-ARA
2004/5: Abha-ARA
2007/8: El Masry-EGT

Títulos: Bicampeão da Segunda Divisão de Portugal (1981/2 e 1988/9), e Campeão Saudita (1998/9).

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Equipe Trivela

A equipe da redação da Trivela, site especializado em futebol que desde 1998 traz informação e análise. Fale com a equipe ou mande sua sugestão de pauta: [email protected]

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