Adeus Morumbi

Recebi este relato do leitor Victor Lucindo:

“São Paulo x Atlético Nacional foi minha primeira ida ao Morumbi neste ano, e a empolgação de voltar a ver o time ao vivo acabou depois de 45 minutos, e não pelo futebol insosso do primeiro tempo. Estava com amigos na arquibancada azul, no meio dos ex São-Paulinos da Geral, quando no meio tempo a PM veio retirar um torcedor que estava com um sinalizador. Disseram-lhe que se dissesse mais alguém que estava com sinalizador, poderia ficar no jogo. Como a única outra pessoa era uma criança de uns 12 anos, o cara não disse nada e teve que se resignar a ser levado pelos oficiais.

Pois bem, menos de 5 minutos depois a PM voltou á aquela região da bancada pra arrancar faixas levadas por torcedores que estavam junto ao parapeito. A grita foi geral para que deixassem os torcedores com a faixa, e eu não me furtei de expressar meu descontentamento, sem que no entanto sequer saísse do lugar ou me dirigisse especificamente a um policial. Qual não foi a minha surpresa quando alguns segundos depois apareceu um brutamontes fardado trazendo mais uns 3 a tiracolo, dizendo que era eu mesmo que queriam. Não só eu, como meus amigos e as pessoas em volta ficaram perplexas com a agressividade e arbitrariedade da ação. O brutamontes fardado me acusava de tê-lo chamado de racista (revelando assim sua inteligência, já que era um PM branco tirando as faixas de torcedores loirinhos da perigosíssima bancada azul…) e eu me segurei pra não responder que não, ele havia se enganado, e na verdade era uma palavra parecida que começava com f…

Me levaram então para o corredor da amarela e fizeram uma roda em volta para me apavorar. Brandiam os cacetetes, o brutamontes me dizia que se eu fosse bandido ou maconheiro ia ser muito pior. Me dizia que eu ''estava incitando a massa, atrapalhando a ordem pública''. Me perguntou quem eu achava que era para questionar seu trabalho. Respondi que era um cidadão que discordava do que estavam fazendo. Mesmo sendo uma situação perigosa em que um ''a'' poderia me fazer perder um dente, tentei manter a cabeça erguida e não me acovardar, mantive minha convicção durante todo o tempo. Depois fui levado ao Jecrim, onde os policiais prontamente instaram os outros a fazerem piada comigo. Apoiava os dois braços no balcão enquanto dava minhas informações pessoais, quando de repente um policial veio por trás e me deu um murro bem dado no ombro me dizendo para ''desempoleirar''. Jamais me senti mais humilhado e a revolta cresceu porque sabia que se não fosse estudante universitário e branco teria uma sorte muito pior, como eles não fizeram qualquer questão de esconder. Se eu fosse um moleque negro e pobre duvido que pudesse me dar ao luxo de ser orgulhoso sem sair machucado.

Um policial me perguntou o que eu tinha feito, e disse que nada, apenas havia discordado da ação dos oficiais. Ele me disse que isso era um juizo de valor que não tinha importância alguma e que se eu não gostasse, saísse do país. Depois de alguns minutos ali, uns caras da azul com quem não tive a chance de conversar, mas a quem estou muito agradecido, foram atrás de mim para me liberar (fato que só fiquei sabendo depois, senão certamente teria agradecido a ajuda ali mesmo). Fui expulso do estádio disposto a não voltar enquanto as pessoas não forem tratadas com o minímo de respeito, como membros com voz ativa na sociedade. Que a censura e a repressão da expressão individual não foram abolidas da sociedade brasileira todos sabem, mas ela ainda está institucionalizada na força policial.
Então amigos, abro mão de um dos maiores prazeres da minha vida até aqui. Porque não aguento mais ter que parar o carro longe do estádio para não ter que pagar por vagas públicas, ver vendedores ambulantes escorraçados pela PM enquanto cambistas rapinam as bilheterias soltos, gente tomando borrachada simplesmente por estar no lugar errado na hora errada (no episódio do jogo contra o América-RN por pouco não estive no meio do confusão, mas tive tempo de ver uma Blazer da ROTA rasgando em velocidade rua acima, no meio de uma multidão que abarrotava as ruas).

Não aguento mais a diretoria do São Paulo esperando que os torcedores incentivem financeiramente o clube se dentro do estádio não oferecem qualquer comforto ou segurança. Não aguento mais ver a Independente ser escoltada e poder usar sinalizadores, faixas e instrumentos musicais enquanto policiais predam em cima de torcedores comuns que estavam ali apenas para assistir o jogo. Às organizadas, tudo, aos torcedores comuns, a arbitrariedade e a truculência. Sinceramente, tomo esta decisão de cabeça quente, mas com convicção. Quem sabe um dia não me façam mudar de idéia. Por enquanto, adeus Morumbi.”

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