A próxima viagem para Banfield
O trem que parte da Estação Retiro, ao lado da favela mais conhecida de Buenos Aires, treme como aquele que sai da Central do Brasil em direção ao subúrbio do Rio de Janeiro. Quem está ali, no final da tarde, são trabalhadores. Quando são abertas as portas na Estação Banfield, o frio dá lugar ao orgulho do clube de futebol que leva o nome do bairro e das jaquetas antes fechadas surgem camisas de futebol.
O município de Lomas de Zamora, onde fica o bairro de Banfield, fica na Província de Buenos Aires. Lá, num ambiente aparentemente tranquilo para um brasileiro, os torcedores mostram uma devoção sem tamanho num estádio que parece ser desproporcional a seu clube. O caprichado Lecho Sola comporta 34 mil pessoas. Para os nossos padrões, é muito para um time que se aproxima dos 120 anos e só comemorou seu primeiro campeonato nacional em 2009.
Na próxima temporada, quando os trabalhadores descerem apressados da estação de trem do bairro em que moram e acelerarem o passo para a cancha do Banfield, vão acompanhar um time na B Nacional, a segunda divisão argentina. Mesmo sustentado por uma campanha campeã dentro da média dos último três anos, que determina o rebaixamento na Argentina, o Banfield conseguiu a proeza de cair.
De minha parte, fica o pesar e um sentimento de culpa. Quando estive por lá, na primeira rodada do Apertura de 2011, vi um time definhar diante do Atlético Rafaela, time de pouca expressão no cenário nacional. Ao meu lado, Guillermo lamentava cada passe errado. Sua filha, muito bonita por sinal, lamentava que eu estivesse por ali. Estava na cara que aquele brasileiro que seus pais conheceram dias antes no aeroporto e convidaram para a partida era o culpado pela derrota. É impossível não se identificar.
Fora do estádio, nos muros das várias casas de um ou dois andares ao redor do estádio estão pintadas o amor pelo Taladro. Dentro de uma delas, acabei no meio de uma grande família argentina bebendo vinho e assistindo DVDs com gols de Santiago Silva, o grande ídolo dos mais novos, para esquecer a derrota daquela noite. Na cabeça, uma música Banda del Sur que não vai deixar de se ouvir por lá.
Banfield, vos sos mi vida
La locura, sos la alegria
Mi corazón late por vos
Te juro que yo doy la vida por verte campeón
A donde juegues siempre voy a estar, descontrolado
Hoy tenés que ganar que la banda quiere festejar
En Banfield you nací
Y a tu lado yo voy a morir
PS. Um vídeo com incidentes no último jogo da temporada mostra bem a atuação desastrada da polícia na ação.



