12º – José Mourinho: um técnico especial

A frase ficou para a história. Em sua apresentação ao Chelsea, José Mourinho se definiu de forma marcante: “Por favor, não me chamem de arrogante, mas eu sou campeão europeu e penso que sou alguém especial”. Quase sete anos depois, muito mais celebrado do que antes, o português continua praticamente tido da mesma forma. Acusado como arrogante, o “Special One” faz cair todas as desconfianças com seus números. Já são oito anos seguidos faturando ao menos algum título com os clubes que dirigiu.

Mourinho se poupa da falsa modéstia, tão comum no futebol. Sabe chamar a atenção para si. Mesmo que cause polêmica, consegue aliviar a pressão sobre seus times e apresentar resultados em campo. Mourinho é muito mais que uma personalidade. É também um profundo estudioso. Conhece perfeitamente os seus elencos e possui excelente visão para mudar os rumos de uma partida. Os resultados são apenas parte do processo que o tornam um dos maiores técnicos de todos os tempos.

Sonho pelo futebol

A personalidade forte e a paixão pelo futebol começaram a ser talhados logo na tenra infância de José Mourinho. Filho de Félix Mourinho, goleiro com passagens pelo Belenenses e por Vitória de Setúbal, o garoto não se contentava com nada além do esporte. Seus presentes de Natal, por exemplo, não eram bons o suficiente se não fossem relacionados ao futebol. Mais do que praticar e assistir ao jogo, Mourinho gostava de entendê-lo.

Segundo a mãe, a professora Maria Júlia, traços de liderança e do tão característico perfeccionismo de Mou já eram percebidos em seus hábitos. Aos seis anos de idade, durante a transferência do pai-goleiro, sentiu bastante a mudança de Setúbal para Belenenses. E foi a partir daí que José Mourinho passou a acompanhar Félix sempre que podia, vivenciando o futebol ainda pequeno.

A atenção aos estudos fazia com que também pusesse um olhar diferenciado sobre o esporte. Por volta dos 10 anos de idade, ganhava assinaturas de revistas estrangeiras, como a World Soccer e a Onze Mondial. Além de entrar em contato mais rapidamente com línguas como o francês e o inglês, Mourinho não se limitava a ler as revistas; ele as estudava.

Formando o treinador

Outra mudança na carreira de Félix foi crucial para que José aprofundasse ainda mais o seu entendimento do esporte. Com o pai tornando-se técnico, o adolescente passou a lidar mais frequentemente com táticas e linguagem específica. Viajava sempre que podia e servia como uma espécie de assistente de Félix. Por volta dos 16 anos de idade, manifestou ao pai o interesse de seguir a mesma carreira.

Sua passagem começou como goleiro, mas a falta de qualidade não permitiu que fosse capaz de grandes feitos. E o próprio Mourinho teve a perspicácia de buscar novos caminhos o quanto antes possível. Aos 19 anos, quando defendia o Rio Ave, clube do qual foi demitido junto com o pai, já estudava princípios de treinamento e educação física. Pendurou as luvas aos 23 e, logo em seguida, ingressou na universidade. Apesar do estímulo da mãe para que se formasse em Administração, Mou optou pelo Instituto Superior de Educação Física da Universidade Técnica de Lisboa.

Apesar de um curso com aberturas amplas, José Mourinho o aproveitava na especificidade que queria, o futebol. Passava um bom tempo na biblioteca a estudar, entrando em contato com uma diversidade maior de publicações. Formou-se com louvores em apenas cinco anos, chegando mesmo a lecionar educação física no período. Depois, passou a procurar cursos voltados à preparação de treinadores, alguns desses na Football Association, a federação inglesa, e na FA escocesa.

Uma década de aprendizado

O primeiro de trabalho de José Mourinho dentro do futebol foi nas categorias de base do Vitória de Setúbal, em 1990. Tempos depois, tornou-se assistente técnico de Jesualdo Ferreira, então comandante do Estrela Amadora. A primeira passagem por um dos grandes veio em 1993, quando o Sporting procurava treinadores locais para o auxílio de Bobby Robson, recém chegado ao banco do clube.

Enquanto Mourinho o traduzia, Robson tornou-se uma espécie de tutor do jovem. Mais que isso, eram amigos. Após ser demitido do Sporting, o inglês levou Mou junto consigo ao Porto, onde conquistaram o bicampeonato português, além da Copa de Portugal em outra oportunidade. Em 1996, Sir Bobby Robson foi convidado a treinar o Barcelona, assumindo o cargo após oito anos de Johan Cruyff na equipe blaugrana. Mourinho, naturalmente, o acompanhou. Além de aprender o catalão, o português ganhava gradativamente uma função cada vez mais próxima do técnico, tendo voz ativa dentro do elenco.

O inglês durou somente uma temporada, vencendo a Recopa Europeia e a Copa do Rei. Os serviços de Mourinho, porém, eram bem recebidos no clube e ele permaneceu mesmo com a chegada do novo treinador, o holandês Louis Van Gaal. A boa relação com o novo parceiro foi rápida e as funções de Mourinho na equipe ganhavam dimensão. Mais, chegou a comandar partidas do Barcelona B e até mesmo do time principal, com o qual conquistou a Copa da Catalunha, em 2000. A demissão de Van Gaal, naquele mesmo ano, fez também que o português deixasse o Camp Nou.

Início em um grande, sucesso em um pequeno

Um novo convite para trabalhar com Bobby Robson no Newcastle surgiu e o inglês chegou a afirmar que, depois de uma temporada, ele se tornaria dirigente e o português, o novo treinador. Mourinho preferiu não arriscar – afinal, sabia da paixão de Robson pelo clube do coração – e aceitou um convite do Benfica.

Assumiu o time mais popular de Portugal após a saída de Jupp Heynckes, em setembro de 2000. Seus números foram bons, atingindo 63% de aproveitamento nos 11 jogos em que permaneceu à frente da equipe. Contudo, a instabilidade política vivida pelos Encarnados, bem como algumas discordâncias com a diretoria ocorridas logo em suas primeiras semanas, acabaram por abreviar a sua passagem no clube.

O próximo passo seria dado apenas na temporada 2001/02, quando chegou ao pequeno União Leiria. Com um orçamento limitadíssimo (em torno de 100 mil euros), passou algumas rodadas no topo do Campeonato Português daquele ano, figurando até mesmo entre os três primeiros colocados. O trabalho de Mourinho, todavia, ficou limitado a apenas os primeiros seis meses da disputa. Vinte jogos como treinador do Leiria seriam suficientes para que fosse apontado como a nova solução do FC Porto para a metade final da temporada.

Nos Dragões, o domínio do continente

Com o Porto em declínio no Campeonato Português, Mourinho conseguiu recuperar a motivação para o restante da competição, alcançando o terceiro lugar na classificação final. Um bom resultado, mas pouco para as ambições de Mourinho. Apesar de um bom elenco, os portistas estavam um pouco desacreditados. Coube ao português motivar os seus jogadores, transformando atletas até então sem tanta grife, como Deco, Maniche e Ricardo Carvalho, em peças importantíssimas de sua engrenagem.

O discurso inicial no Estádio do Dragão pedia a entrega irrestrita de todo o grupo. A partir de uma equação, mostrou que, se somadas, motivação, ambição, espírito e time resultariam em sucesso. Assim, em sua primeira temporada completa, levou o Porto a ter o melhor desempenho no Campeonato Português desde que os três pontos foram instaurados, com aproveitamento de 84%. Mais, ainda faturou a Copa de Portugal e, sobretudo, a Copa da UEFA, em final decidida contra o Celtic. Acabou reconhecido pela UEFA, eleito o melhor treinador europeu da temporada.

O auge em Portugal só chegaria realmente em 2003/04. Apesar do tropeço na decisão da Supercopa Europeia e na Copa de Portugal, os Dragões alcançaram o bicampeonato nacional, em uma campanha tão dominante como a do ano anterior. A maior glória, no entanto, viria com a repetição da maior conquista da história portista. No mesmo grupo dos galácticos do Real Madrid, o clube português se classificou para a segunda fase da Liga dos Campeões da Europa e, a partir de então, só parou com o título nas mãos.

As partidas mais célebres daquela campanha foram os encontros ante o Manchester United, nos quais José Mourinho teve os primeiros embates com Alex Ferguson. No fim das contas, melhor para Mou, que saiu vitorioso em casa e conseguiu um empate heróico em Old Trafford. Em sequência, vieram as eliminações de Lyon e Deportivo La Corunã, até chegarem à final. Na decisão disputada em Gelsenkirchen, preponderância total sobre o Monaco. Pelo segundo ano consecutivo, Mourinho foi eleito o melhor treinador da Europa e o Porto já parecia pequeno demais para tamanho talento.

Idolatria azul

O Chelsea nadava em dinheiro desde a chegada de Roman Abramovich em 2003, mas faltava alguém que transformasse as benesses financeiras em títulos. Na temporada anterior, Cláudio Ranieri fracassara na missão. Mourinho chegava para tornar o Chelsea maior do que sempre foi. O limite não era a Inglaterra, como sempre aconteceu, mas sim a Europa. E o português sabia o motivo de serem investidos cinco milhões de libras anuais em sua conta bancária. Trouxe consigo uma comissão de confiança e ganhou reforços do calibre de Didier Drogba e Michael Essien.

O início do Special One foi dos mais promissores. Depois da temporada perfeita do Arsenal na Premier League anterior, os Blues conseguiram derrubar a hegemonia rival e, por uma derrota, quase repetiram o feito dos Gunners. O segundo título viria também em 2005, na Copa da Liga Inglesa. O sonho da Champions, no entanto, foi abreviado nas semifinais. Depois de derrotar Barcelona e Bayern, o Chelsea foi caiu ante o Liverpool.

Um ano e já era tempo o suficiente para Mourinho ser idolatrado de forma massiva pela torcida dos Blues. Uma relação cativada pelo ritmo que deu ao time dentro de campo e a forma como o português se manifestava publicamente. Um exemplo claro veio logo no início da sua segunda temporada, o que endossou o carinho. Após o título da FA Community Shield, Mou lançou a medalha de campeão ao público. Ainda viria o bicampeonato na Premier League, desta vez com menor vantagem na tabela. Na Liga dos Campeões, novo tropeço, com o Barcelona vingando a eliminação anterior nas oitavas de final.

Como bem sabido desde o início de sua estadia em Stamford Bridge, Mourinho teria que lidar com as interferências de Roman Abramovich no time, o que foi relativamente bem administrado nas duas primeiras temporadas. Porém, sinais de desgaste começaram a aparecer em seu terceiro ano em Londres. A insistência do russo por Schevchenko, palpitando em decisões restritas a Mourinho, gerou tensões no clube. Pela primeira vez o time treinado pelo português não vencia o Campeonato Inglês, acabando com a segunda colocação. Duas taças foram erguidas, na Copa da Liga e na FA Cup, mas nova falha se deu nas semifinais da Champions. Depois de rumores sobre a sua saída e da continuidade na pré-temporada, Mourinho teve o seu contrato rescindido após as primeiras rodadas da temporada, em setembro de 2007.

O que o faz tão especial?

José Mourinho pode ser considerado uma espécie de inovador do futebol. Não proporcionou grandes novidades táticas ao esporte, mas não se pode deixar de dizer que seus métodos trouxeram diversas modificações à modalidade. Modos específicos com os quais age em treinos, jogos ou mesmo nas relações pessoais com os atletas e que explicam muito de seu sucesso.

A maneira de se comunicar é a principal delas. O português sabe como transmitir confiança. E de uma forma diferente para o público e para seus jogadores. A forma provocativa, mas ao mesmo tempo inteligente e convicta, com a qual se manifesta na imprensa gera certa admiração em torno de seu personagem. Com seus atletas, a impressão é a de que exista outro Mourinho. Um técnico que cobra, mas que não deixa de passar confiança e que acaba conquistando também os seus comandados. Dois em um só. Porém, que não entram em incongruência por conta da firmeza em seus atos, que não deixam dúvidas quanto aos seus objetivos. É um líder que consegue trabalhar de diferentes formas as técnicas de motivação.

A quantidade de jogadores que triunfam com Mourinho é bem maior do que a daqueles que fracassam. São vários aqueles que chegaram ao estrelato sob suas ordens, isso desde o Porto. A forma igual com que trata a todos, tentando sempre se comunicar na língua nativa do atleta, também ajuda. O português se empenhou bastante nos estudos para se tornar um técnico de ponta. Sabia que o estudo de idiomas era importante e, não à toa, é fluente em cinco diferentes línguas.

Não é daqueles técnicos que podem ser taxados de ofensivos ou defensivos, e sim do tipo que se adapta à ocasião. Segundo o próprio Mourinho, os cinco primeiros minutos de jogo são essenciais, pois é aí que ele faz uma leitura geral da partida e dá o retorno ao time sobre quais as principais armas a utilizar. A antevisão privilegiada de Mou permite que ele trabalhe de forma diferenciada nos treinamentos. Não existem exercícios específicos, mas ele procura “treinar a matriz de jogo”. É a reunião de testes físicos, táticos e técnicos em situações que simulem situações da partida, algo que ele aperfeiçoou.

O pragmatismo e, sobretudo, o perfeccionismo se aplicam também no trato com as táticas do jogo. É aficionado por informações. Possui um laptop que é chamado de “bíblia”, onde armazena informações sobre desempenhos e padrões que aplica aos seus times. Além disso, tenta mapear cada atitude de seus jogadores, facilitando bastante na montagem de seus times. Mourinho sabe muito bem utilizar as peças que tem.

Reinado e turbulência na Itália

Após quase um ano sem treinar nenhum clube depois da saída do Chelsea, José Mourinho chegou à Internazionale em junho de 2008, assumindo um time campeão nacional, mas descontente com o seu desempenho em campo. Logo em sua apresentação Mourinho surpreendeu pela fluência em italiano, prontamente estudado durante as negociações com os nerazzurri.

Com a manutenção da base que tinha em mãos, mais uns poucos reforços, Mourinho logo faturou a Serie A, a quarta seguida da Inter. O título foi assegurado de forma tranquila, com sobras, diferentemente do ano anterior. Contudo, a queda nas semifinais da Copa da Itália e, sobretudo, a eliminação nas quartas da Liga dos Campeões, após uma primeira fase bastante inconsistente, fizeram com que o português não fosse aprovado de imediato. Para piorar, as declarações intempestivas feitas na imprensa, geraram uma série de críticas ao estilo de Mourinho.

A afirmação definitiva no Giuseppe Meazza aconteceu na temporada seguinte. Boa parte do elenco foi reformulada e Mourinho recebeu novas peças importantes, como Sneijder, Diego Milito, Eto’o e Lúcio. Mais que isso, o português conseguiu incutir mais profundamente a sua filosofia de jogo à equipe, tornando-a muito mais sólida do ponto de vista tático do que na temporada anterior. A conquista de outra Serie A – desta vez de forma muito mais apertada, diga-se – e da Copa da Itália ampliaram a lista de troféus galgados por Mourinho. Mas foi a Liga dos Campeões que o impulsionou a um patamar ainda maior.

Como no ano anterior, a Internazionale não chegou à liderança de seu grupo na primeira fase. Com um chaveamento mais difícil, os italianos empataram três partidas e foram derrotados pelo Barcelona, assegurando a classificação na última rodada. A escalada só começaria nas oitavas, com dupla vitória sobre o Chelsea. Depois da eliminação do CSKA, as semifinais guardariam o grande lance de Mourinho no torneio: as duas partidas ante o favorito Barcelona. Em casa, a Inter se opôs à pressão do Barcelona e soube explorar as brechas dos catalães; na volta, foi a vez de os nerazzurri darem uma aula de dedicação defensiva e, com um a menos, suportarem os ímpetos blaugranas. Na decisão, claramente superior ao Bayern, Mourinho ficou com o caneco em noite inspirada de Diego Milito.

Desafio no Bernabéu

Pela segunda vez consecutiva, Mourinho deixou seu clube após vencer a Champions. Eleito pela terceira vez o melhor treinador pela UEFA, não havia melhor opção para o projeto megalomaníaco de Florentino Pérez, ainda mais após o insucesso de Manuel Pellegrini à frente dos Merengues.

Com um elenco estrelado, que já contava com Cristiano Ronaldo, Casillas e Kaká, José Mourinho ainda ganhou reforços preciosos ao seu esquema, como Khedira, Özil e Di María. Por enquanto, a única mácula entre os Blancos foi a retumbante derrota por 5 a 0 no clássico contra o Barcelona – antes, a maior “goleada” que havia sofrido foi um 3 a 0, quando estava no Porto. De resto, a campanha na Liga dos Campeões seguiu irretocável durante a primeira fase e, apesar da distância, a perseguição ao Barça no Campeonato Espanhol está mantida.

E esse é só o primeiro ano no Santiago Bernabéu. Em Madrid, José Mourinho sabe que tem a chance de entrar de vez no hall dos grandes. O seu terceiro título da Champions com uma equipe diferente e a quarta conquista nacional em uma liga europeia são marcas que ele está próximo de atingir nas temporadas em que permanecer no Real. Feitos que ajudarão a imortalizar ainda mais o seu nome em meio a recordes. Caso outro ranking dos melhores técnicos da história seja feito daqui a um tempo, não é de se duvidar que ele galgue mais alguns degraus rumo ao topo. Afinal, ele é especial.

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Equipe Trivela

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