Portugal

Uma campanha histórica e o fim do jejum: 19 anos depois, Sporting é campeão português

Em um grande trabalho de Ruben Amorim, Sporting acaba com o jejum e volta a ser campeão português pela primeira vez desde 2001/02

Ser campeão em Portugal sem ser Benfica ou Porto é uma tarefa árdua. O Sporting, um dos maiores clubes do país, sentia as dores de um jejum que já durava 19 anos. A temporada espetacular em 2020/21 tornou o sonho possível, fez os Leões rugirem alto e finalmente colocarem um fim a essa longa espera. A vitória desta terça-feira contra o Boavista por 1 a 0 el Alvalade, com um gol de Paulinho, os torcedores finalmente podem deixar que as lágrimas desçam, mas desta vez de alegria. O torcedor podia gritar algo que há tanto não dizia: Sporting campeão português.

Foram 19 anos, 6.953 dias e um mundo de decepções até que o calvário tivesse um fim. Um mar de tristeza que teve um dos momentos mais baixos em maio de 2018, quando torcedores organizados, com a anuência de integrantes da diretoria, invadiram o Centro de Treinamento do clube para agredir os jogadores. Bruno de Carvalho, presidente da época, acabou detido pelo envolvimento no episódio terrível da história sportinguista.

O Sporting se recuperou, como os grandes clubes conseguem sempre se recuperar. A temporada 2020/21 é tão incrível que está intacta até aqui, sem uma derrota sequer. São 32 jogos até aqui, 25 vitórias e sete empates. São 57 gols marcados e apenas 15 sofridos. Uma sequência de invencibilidade histórica em Portugal.

Em março de 2020, o Sporting pagou € 10 milhões, valor da multa rescisória, para contratar o então novato técnico Rúben Amorim, um jovem de 35 anos. Parecia uma loucura e uma aposta arriscada, ainda mais para um clube que não nada em dinheiro. Seu único trabalho tinha sido assumir o comando do Braga no meio da temporada 2019/20 e levar o clube à conquista da Taça da Liga, em grande estilo.

Desde o início da temporada, Rúben Amorim conseguiu colocar o time em uma rota vencedora. Em janeiro, colheu os primeiros frutos com o título da Taça da Liga. Em março, o Sporting anunciava a renovação do contrato do técnico, que liderava com folga o Campeonato Português. Havia esperança e expectativa para que o jejum, enfim, terminasse.

Pudera: o que se via em campo era um Sporting consistente e que, mesmo com os problemas, conseguia os resultados diante das maiores dificuldades. Foi acumulando vitórias aos montes, O Porto, habitual no posto de liderança, não conseguia acompanhar o ritmo dos Leões. Jogadores como o goleiro Luis Maximiano, sempre seguro; o atacante Pedro Gonçalves, com seus 18 gols; e o zagueiro Sebastián Coates, dando solidez ao time, empilhavam boas atuações, dando a Rúben Amorim um time capaz de manter-se invicto até este momento da campanha – e certamente um objetivo para as duas rodadas finais, em busca de conseguir algo histórico.

Jogadores como João Palhinha cresceram demais ao longo da campanha, conquistando inclusive um papel importante no elenco da seleção portuguesa. Paulinho foi outro a crescer ao longo da campanha. O atacante, de 28 anos, estava longe de ser dos mais cotados, mas seus gols na reta final foram cruciais para que o clube conquistasse pontos que garantiram o primeiro lugar, como foi na noite desta terça-feira contra o Boavista e já tinha sido contra outros adversários, inclusive contra seu ex-clube, o Braga.

O jogo contra o Boavista não era, nem de longe, o mais complicado para os sportinguistas, mas certamente foi um dos jogos que os Leões mais sentiram a ansiedade. Não deixaram que isso atrapalhasse a busca pela vitória, os três pontos cruciais para encerrar a fome imensa que tinha. 

Rúben Amorim: “Vou sentir o clube de uma forma diferente da que sentia quando aqui cheguei

“Principalmente o staff passou maus momentos, tiveram a recompensa hoje. O mérito é dos jogadores que acreditaram, que são muito humildes. É o reflexo da nossa época, fomos melhores, sofremos mas conseguimos no fim. Eu sentia o peso, é algo que realmente me tiram de cima, pelo campeonato, pela aposta arriscada, queria ganhar pelo clube e também por outras razões que não são nada saudáveis. Toda a gente precisa de tempo. O Paulinho marcou um golo, falhou três ou quatro. Ganhámos, esta época só podia acabar assim: com muito sofrimento, com um golo do Paulinho e com esta gente toda. Vou sentir o clube de uma forma diferente da que sentia quando aqui cheguei. Isso não há dúvida. Não vou a lado nenhum, a não ser que paguem tudo. Se Deus quiser cá estaremos. Ainda vou trabalhar com mais prazer. Eu só fiz duas promessas, quando nasceu o primeiro e o meu segundo filho. A bola entra, somos ou não somos campeões… é sorte. Agora tenho de passar no curso, vai ser muito difícil. O ano passado tivemos a época com mais derrotas, esta fomos campeões… é por isto que o futebol é tão bonito”, continuou Rúben Amorim.

“Obrigado aos jogadores. Foi muito difícil porque fomos muito criticados e aproveitámos para trabalhar. Era normal. Mas eles merecem, o Alex, o enfermeiro, a malta do scouting a carregar malas quando era preciso. Foi a tempestade perfeita. O jogo na Madeira foi muito especial. Eu fico mais orgulhoso para não termos justificado eliminações na Liga Europa, encaixámos as críticas todas. É um orgulho ver que os jogadores não se queixaram de nada. É o caráter deste grupo, onde não havia vedetas. Falo muito do Vitorino, do João Pereira, porque são jogadores que dão tudo quando entravam e quando era preciso. Eu acredito sempre, sempre acreditei noutros clubes e aqui não é diferente. Agora, para o próximo ano, as competições europeias… vai ser difícil, muito difícil. Se não vencêssemos hoje já iam falar do autocarro que andou a passear… enfim. Os sportinguistas levaram com isto durante muito tempo, que aproveitem. Finalmente vou dormir bem e preparar o Benfica porque temos um jogo muito importante e queremos continuar a vencer”, disse ainda o técnico, em entrevista à Sporting TV.

O autor do gol da vitória, Paulinho, comentou sobre a histórica conquista. “Não há palavras. São 28 anos a pensar neste momento. Mais difícil quando estamos num clube que não ganha há 19 anos. Fui a transferência mais cara do clube, mas não sou que decido. Queria representar um grande de Portugal e ser campeão. Acreditava muito que o Sporting seria campeão”, disse Paulinho ao Sport TV. Foi interrompido pelo técnico Rúben Amorim, que brincou com ele: “Agora podes dizer que fostes barato”. O jogador era muito criticado no começo da temporada, justamente pela expectativa criada pelos € 16 milhões pagos pela sua contratação. “Às vezes não é um ataque ao Paulinho, é um ataque ao Sporting. Encontrei um grupo muito unido, sou campeão graças a eles”.

Coates: “Vão passar dias, meses e anos e vamos continuar a recordar sempre”

Sebastián Coates, contratado em 2017 pelo Sporting e que viveu momentos difíceis pelo clube, se emocionou muito depois do apito final, em meio a comemorações. “Ainda não temos o sentimento daquilo que acabamos de fazer com a nossa família. Durante todo o ano houve muita gente que acreditou em nós, que trabalham todos os dias connosco. É um sentimento inexplicável. Vão passar dias, meses e anos e vamos continuar a recordar sempre. Na primeira vez que cheguei aqui disse que vinha para ser campeão. Demorou mais tempo do que imaginava, mas era o meu sonho. Sempre lutei por isto. É graças a toda a equipa, ao mÍster, aos roupeiros, posto médico, a todos que trabalham conosco para tudo. é para todos os sportinguistas, que em Portugal e no mundo devem estar felizes”, declarou o urugiuaio à Sporting TV.

“Acho que a vida é sempre assim. Tem altos e baixos. Pode ser um ano bom, um ano mau. Continuei a trabalhar. Sempre tive confiança no que podia fazer, tive ajuda familiar importantíssima, amigos num momento importante que agora não estão cá como o Marcos Acuña, o Battaglia, o Vietto. É também para o Bryan [Ruiz], para o Ezequiel [Schelotto] que fizeram muito comigo, que me ajudaram muito e para toda a equipe”, continuou o jogador. “Noção do que significa isto? Ainda não. Vão passar dias, meses e anos e não vamos ter a noção. Há que desfrutar agora, com calma, com cuidado. Somos campeões e temos de desfrutar”.

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Felipe Lobo

Formado em Comunicação e Multimeios na PUC-SP e Jornalismo pela USP, encontrou no jornalismo a melhor forma de unir duas paixões: futebol e escrever. Acha que é um grande técnico no Football Manager e se apaixonou por futebol italiano (Forza Inter!) desde as transmissões da Band. Saiu da posição de leitor para trabalhar na Trivela em 2009.

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