Portugal

Reflexos da crise

No dia 10 de junho, o Varzim derrotava o Tondela por 3 a 1 e conquistava pela quarta vez em sua história o título da II Divisão de Portugal. O acesso para a Liga de Honra — que já estava garantido desde três dias antes, quando da vitória sobre o Fátima por 4 a 1 — foi coroado com a conquista da taça, a mesma que o clube havia ganho nas temporadas de 1962/63, 1975/76 e 1995/96.

Mas, a partir daí, o que deveria ser motivo de festa para a torcida do time da cidade de Póvoa de Varzim virou, cada vez mais, sinônimo de preocupação. Em Portugal, jogar a Segunda Liga significa também aderir ao profissionalismo e isso custa dinheiro. No caso do Varzim, precisamente € 600 mil (equivalente a aproximadamente R$ 1,4 milhão).

O valor é referente a uma dívida do clube com o Fisco português. Em caso de não pagamento, o time seria automaticamente impedido de se inscrever para disputar a segundona na temporada que está para se iniciar. O prazo vencia no final da tarde de quarta-feira, dia 18.

Resultado: o dinheiro não apareceu, a dívida continua e os torcedores terão de ver o Varzim, novamente, numa competição amadora.

Nos dias que antecederam ao anúncio pela Liga Portuguesa de Futebol Profissional (LPFP) de que o Varzim não jogaria a Liga de Honra, o próprio presidente do clube, Lopes de Castro, dava indícios de que o gato havia subido no telhado. “Há poucas probabilidades de reunir esse dinheiro”, disse numa reunião do conselho do clube.

No mesmo encontro, ele garantiu que renunciaria à presidência caso a dívida não fosse paga em tempo hábil de o Varzim disputar a competição profissional. “Eu serei o responsável e não terei condições para continuar. Não fará sentido falhar e manter-me no clube.”

Horas depois de a LPFP ter anunciado que o clube realmente estava fora da Segunda Liga, o discurso do presidente manteve-se o mesmo. Lopes classificou o ocorrido como sendo um “fracasso”, que ele tem de assumir. Por outro lado, garantiu a presença da equipe na II Divisão (tentará um curioso bicampeonato) e a manutenção das categorias de base.

Quem lucrou com a falta de regularização do Varzim foi o Portimonense. Rebaixado na Liga de Honra na temporada passada, com uma campanha de apenas oito vitórias em 30 jogos disputados, o time estava fadado a deixar o profissionalismo em 2012/13, mas agora ganha nova chance. Em seu comunicado divulgado na madrugada de quarta para quinta-feira, a LPFP anunciou que o clube substituirá o Varzim na próxima Liga de Honra.

Apesar de comemorar o “acesso”, o time de Portimão foi comedido nos festejos. “Sinto alegria, porque o Portimonense pode disputar as competições profissionais, e tristeza pelo Varzim, um clube com história”, disse Fernando Rocha, presidente do Portimonense e amigo pessoal de Lopes de Castro.

Para onde caminha?

 

O problema vivido pelos poveiros (como são chamados os torcedores do Varzim) vai além de um caso isolado de um clube com dificuldades financeiras. O caso, na verdade, deve servir para reflexão sobre o momento econômico nada agradável vivido pelo futebol português de maneira geral — a começar pela crise financeira vivida pela Europa que, em maior ou menor medida, sempre vai atingir os clubes.

Mais dois episódios ocorridos nesta semana também servem para mostrar que a situação atual merece, no mínimo, um pouco de preocupação. Um deles é o fato de que cerca de 50 trabalhadores, funcionários dos clubes de futebol profissional, fizeram um protesto em frente à sede da LPFP. Organizados em sindicato, eles querem 3% de aumento salarial e avanços no Contrato Coletivo de Trabalho.

O outro é que a própria Liga anunciou que pretende reduzir em 20% o valor pago aos árbitros, por partida. O cachê cairia dos atuais € 1.342 para € 1.074 (de R$ 3,3 mil para R$ 2,6 mil, aproximadamente). Os árbitros, claro, não concordam e reivindicam aumento. Eles querem ganhar € 1.462 (R$ 3,6 mil) por partida.

Há ainda o exemplar problema vivido pelo União de Leiria, que na temporada passada viu uma debandada geral de jogadores que abandonaram o clube por falta de pagamento e quase não teve time para entrar em campo.

Enfim, exemplos de como a situação financeira anda preocupante não faltam. A tristeza do momento é do Varvim, mas a reflexão sobre as soluções econômicas para o futebol português deveria ser de todos, grandes e pequenos.

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