Portugal

Questão de projeto

O Benfica é o típico caso da empresa de sucesso que nunca pode iniciar uma temporada sem novas aquisições para o quadro de pessoal ou inovações em suas cadeias produtivas, por mais que o atual cenário se mostre mais que positivo. Donos da maior torcida de Portugal e responsáveis por um quase monopólio das manchetes esportivas do país, os Encarnados precisam causar impacto, trazer reforços de peso ou, na pior das hipóteses, mostrar que estão atentos ao mercado e que têm bala na agulha. Essa pressão, por vezes, faz com que a equação do nada matemático mundo do futebol nem sempre feche. Não à toa, as Águias se caracterizaram, nos últimos anos, justamente por várias contratações que só serviram para aumentar a folha salarial do clube e obrigar comissão técnica e diretoria a, ao fim de cada época, sentar e definir o futuro de cada um desse “excesso de contingente”.

Mas uma grande parte do sucesso do Benfica na atual temporada passa exatamente pela abdicação dessa filosofia. Não que o clube tenha contratado menos (na verdade, foram 18 novas caras trazidas desde a janela de verão, mais que os 12 contratados em 2010/11 – considerando aí o empréstimo de Eduardo Sálvio). Contudo, dos reforços da época anterior, apenas Nicolas Gaitán e Rodrigo Moreno (vá lá, Jardel também) se afirmaram – sendo que Rodrigo só estourou nesta temporada (esteve emprestado), Gaitán demorou quase seis meses para se encontrar e Jardel veio apenas na segunda metade do campeonato. Do contingente trazido para 2011/12, por sua vez, já se vê Artur Moraes, Bruno César, Nolito, Emerson, Ezequiel Garay e Alex Witsel como nomes importantes da equipe. E considerar Eduardo (que entrou bem quando exigido) uma contratação furada é forçar a barra, vista a ótima fase de Artur.

Tal ponto até já foi comentado por esta coluna em outubro, quando os Encarnados já despontavam exatamente pelo encaixe da grande maioria dos reforços trazidos na janela de verão. Mas era aquela coisa: o campeonato ainda estava em seus primeiros movimentos, uma nova janela iria se abrir no final do ano e nada surpreenderia se as Águias fossem com voracidade atrás de novos nomes. Eis que além de (realmente) poucos nomes terem sido ventilados para a Luz, o único deles cujo interesse esteve declarado – Yannick Djaló – de fato veio a Lisboa. Uma contratação que, no primeiro momento, causou alguma dúvida no colunista, mas que, com o passar dos dias e a estreia do jogador, logo se esvaiu: Yannick (que não teve custos aos cofres vermelhos) vinha mesmo para suprir a carência de jogadores mais “velocistas” no elenco benfiquista, e não necessariamente para atuar no ataque.

“Ah, mas ainda assim, há dez encostados no grupo”. Não é exatamente assim. Apenas quatro jogadores podem efetivamente serem enquadrados como reforços que ainda não vingaram como se poderia esperar: Joan Capdevilla, Rodrigo Mora, Enzo Peréz e Nemanja Matic. O espanhol veio para ser o titular da lateral esquerda, mas praticamente não entrou e campo e não só perdeu a concorrência para Emerson como ficou até fora da lista de inscritos para a primeira fase da Liga dos Campeões. Mora e Peréz, por sua vez, de fato não agradaram quando utilizados, e Matic hoje sofre com a dura concorrência no meio-campo, sendo opção no banco. Os outros seis atletas trazidos no começo da temporada vieram visivelmente com perspectivas futuras. Casos de Léo (zagueiro, ex-Cruzeiro de Porto Alegre), Mika e Melgarejo, mas também de Nuno Coelho, Daniel Wass e André Almeida.

Naturalmente, esse acerto na “mão” vem acompanhado de uma boa dose de sorte. Mas não se pode ignorar tato do treinador nesse processo. E se na temporada anterior faltou a Jorge Jesus o tato para encaixar as peças em campo – principalmente na primeira metade da época, quando abusou das improvisações para encontrar (sem sucesso) um meio de suprir as ausências de Ángel Di Maria e Ramires – dessa vez o comandante encarnado vem sendo bem eficiente. Tem conseguido impor variações táticas interessantes, seja atuando com um ou dois atacantes, liberando mais os laterais ou ainda preenchendo o meio-campo com armadores de chegada. A vinda de Yannick dará mais uma possibilidade a Jesus, que poderá investir, por exemplo, em um sistema com dois homens de velocidade abertos (Yannick e Gaitán) aproximando-se de um ou dois homens mais próximos da área.

Aliás, Jorge Jesus merece uma citação especial. Em entrevista recente, o meia Carlos Martins – que, sem espaço no Benfica, foi cedido ao Granada – respondendo a uma pergunta sobre a contratação de Yannick, descreveu o perfil do comandante. “Jorge Jesus vai espremer o Yannick até ao limite, porque ele é especialista em valorizar os jogadores. Estão criadas as condições para que ele tenha sucesso na sua carreira”. Motivador, participativo e inteligente, o técnico mostra também amadurecimento nessa que, curiosamente, é sua primeira grande experiência como treinador. Sobreviveu às críticas (muitas delas justas) da temporada anterior e reconstruiu o Benfica que tão bem reergueu em 2009/10. O desempenho encarnado na época, com 24 vitórias, oito empates e só uma derrota, bem como seu aproveitamento de 75% no comando das Águias, evidenciam que o trabalho é de alta qualidade.

Restam ainda 13 jogos da Liga Portuguesa e no mínimo mais três envolvendo Liga dos Campeões e Taça da Liga – na qual, aliás, o Benfica tem a melhor campanha sem sequer ter usado seu melhor time. Como se vê, um caminho longo, mas já mais bem esclarecido que há três meses, quando somente 1/3 da temporada havia se decorrido. Aliado à irregularidade do Porto – e como já se vinha desenhando – as Águias são hoje as grandes favoritas à reconquista do Campeonato Português. Em solo europeu, vivem hoje um momento superior ao do Zenit – que, por sua vez, não terá Danny para os jogos decisivos – e também despontam como candidatas à vaga às quartas. Sonhar em repetir o feito do time de Eusébio na década de 60 já é querer demais. Mas a se estudar e manter tal filosofia mais acurada (e até menos midiática) de planejamento, as perspectivas são otimistas.

Leões na final

Lá se vão mais de três anos desde que o Sporting decidiu uma competição ou brigou por títulos pela última vez (ignoremos aqui a Supertaça): a Taça de Portugal de 2008. Na ocasião, com dois gols de Rodrigo Tiuí (sim, ele mesmo!), os Leões derrotaram o Porto por 2 a 0 e ficaram com o título. Desde então, os torcedores alviverdes sofreram com a equipe cada vez mais distante das decisões ou ao menos de fazer frente aos maiores rivais. O caminho deu sinais de que poderia mudar nesta temporada, mas a brusca queda de produção de janeiro para cá (até quarta-feira, eram apenas duas vitórias em nove jogos) fez com que a confiança da torcida arrefecesse. Só não havia chegado ao patamar do início da época porque havia uma luz no fim do túnel: a partida de volta da semifinal da Taça de Portugal, contra o Nacional. E, enfim, a parte verde de Lisboa ganhou motivos para sorrir em 2012.

A classificação dos Leões para a final – na qual enfrentarão a Acadêmica – foi suada. Não faltou empenho, mas observa-se um Sporting que, gradativamente, foi perdendo-se taticamente ao longo da temporada, de uma forma que Domingos ainda não conseguiu corrigir. Na partida, duas atrações: a estreia de Xandão (ex-São Paulo) na zaga e o retorno do volante Fito Rinaudo depois de três meses fora devido a uma lesão. Rinaudo, aliás, mesmo sem ritmo de jogo, foi quem conseguiu reorganizar o meio-campo leonino, e acabou premiado com um golaço de fora da área. A arbitragem de Pedro Proença, diga-se, prejudicou o Nacional: expulsou Mário Rondon de forma duvidosa e marcou pênalti ainda mais questionável de Claudemir em Emiliano Insuá. Aliás, os madeirenses realizaram uma exibição corajosa, bem acima do que vem sendo mostrado na Liga. Mas no fim, deu mesmo Sporting: 3 a 1.

Ele voltou

 

Na semana seguinte à coluna sobre Danilo, o mesmo Porto volta a surpreender e anuncia o retorno de um ídolo recente: Lucho Gonzalez. Se o argentino repetir o futebol praticado até sua negociação com o Olympique de Marseille, será certamente a grande contratação da temporada. Ao lado de João Moutinho, fará um meio-campo bastante interessante e criativo, algo ausente na equipe desde o início da época. A vinda de Marc Janko para o ataque também é positiva, já que o austríaco vinha perdendo espaço no Twente e é exatamente o jogador que os Dragões necessitavam: um atacante de área, uma opção para além de um Kleber que ainda busca a afirmação. A dupla mostrou força logo na estreia, marcando um gol cada no 2 a 0 aplicado no Vitória de Setúbal, pela Taça da Liga. Início promissor para as últimas fichas nas quais os portistas apostam para salvar a temporada.

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Equipe Trivela

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