Portugal

O retorno do “rei”

Esta coluna, quando findada a Copa do Mundo para Portugal, foi bastante crítica com Cristiano Ronaldo. Relembrou o que se esperava do jogador, muito pela forma como o próprio mostrava lidar com a situação na qual estava inserido (capitão e ídolo) e resumiu o que representou sua fraca atuação no Mundial, onde apresentou pouca efetividade, parco jogo de equipe e um maior objetivo pessoal do que efetivamente referente à seleção.

Pois nesse novo (e promissor) momento que surge para a equipe das Quinas, o camisa 7 pode ser considerado o símbolo da volta por cima portuguesa. Ronaldo não foi necessariamente o melhor em campo nas vitórias contra Dinamarca e Islândia, mas em ambas demonstrou algo que lhe era muito cobrado, às vezes até mesmo no Real Madrid, e que muito esteve ausente com a camisa portuguesa no Mundial: raça, determinação, trabalho em grupo e muita movimentação. Ou como qualificou a imprensa, “o retorno do rei”.

É bem verdade que a volta do jogador à seleção – Ronaldo não jogou contra Chipre e Noruega por estar lesionado – não começou bem. Nem tanto por seus primeiros minutos em campo ante os dinamarqueses, mas por algumas audíveis represálias das arquibancadas do Estádio do Dragão. Em dados momentos que Ronaldo tocava na bola, recebia de torcedores ainda inconformados com o fraco desempenho daquele que devia “carregar” Portugal na Copa.

No entanto, à medida que o jogo contra os escandinavos se deu, Ronaldo, se não foi aquele Ronaldo brilhante do Manchester United e do Real Madrid, mostrou vontade para se aproximar de tal. Partiu para cima, tramou jogadas com os demais jogadores, criou lances. Deu assistência à ao primeiro gol de Nani na vitória contra a Dinamarca e fez o seu quando o marcador já estava 2 a 0 para os tugas, após passe do ex-companheiro no futebol inglês.

Já no jogo contra a Islândia, marcou, logo no princípio da partida, um belo gol de falta, além de ter feito a jogada que culminou no tento de Postiga, que garantiu o triunfo luso ante o rival nórdico, e recolocou Portugal de vez na briga por vaga na próxima Euro 2012. Tal qual toda a equipe, não teve uma atuação tão marcante como no duelo com a Dinamarca – e no fundo, nem precisava, tendo em vista a fragilidade islandesa -, mas novamente mostrou vontade e um trabalho ofensivo muito bom.

Faça-se justiça também ao fato de que Ronaldo teve um importante auxílio nos dois jogos: a presença de um esquema tático ofensivo instituído por Paulo Bento, com os homens de meio (João Moutinho e Carlos Martins) atuando bem mais próximos do ataque do que na era Carlos Queiroz e a dupla feita com Nani pelas pontas, usando e abusando do entrosamento da época em que atuavam juntos no Manchester United, jogando com velocidade e por vezes invertendo os lados de ação.

Além disso, há de se salientar que não foi apenas na ótica tática que Paulo Bento valorizou Ronaldo, que antes reclamava (e com alguma razão) de jogar por vezes isolado no ataque enquanto o onze de Queiroz tinha o meio congestionado de volantes. Mesmo com todas as críticas, o novo treinador deu o camisa 7 a faixa de capitão e um voto de confiança. Não em seu futebol, mas na capacidade do jogador ser a referência da equipe. E pelo menos nesse momento, a retribuição tem sido das melhores.

Claro que é cedo para afirmar que o Ronaldo da seleção, daqui em diante, será o Ronaldo dos clubes. No entanto, os dois jogos foram suficientes para se notar um jogador muito diferente do da Copa. Trata-se de um Ronaldo disposto a merecer realmente ser capitão, disposto a dar carrinho, disposto a recuperar a plena admiração do torcedor português. Com o camisa 7 jogando dessa forma, não será exagero dizer para que a Europa fique de olhos bem abertos ao que Portugal pode mostrar para 2012.

O dedo de Bento

Como dito acima, parte da ascensão de Ronaldo se deve a Paulo Bento, tanto pela confiança depositada no jogador como por uma melhor disposição dos jogadores em campo, de forma que o craque tuga não jogasse mais sozinho à frente. E não foi só o camisa 7 que cresceu com no novo modo de jogo português. Paulo Bento conseguiu, com peças antigas e algumas novas, e curiosamente adotando um esquema “igual” ao de Carlos Queiroz, mudar a cara da equipe.

Primeiramente porque o 4-3-3 do novo comandante não conta com as improvisações de Queiroz – leia-se colocar Pepe como volante para manter Ricardo Carvalho e Bruno Alves na zaga. Bento optou em formar a dupla defensiva com Carvalho e Pepe. Nas laterais, manteve Fábio Coentrão e, na ausência de Bosingwa e com a aposentadoria de Miguel (que, à bem da verdade, já passara mesmo seu tempo na seleção), encontrou em João Pereira um nome à altura e em boa fase.

No meio, Paulo Bento deixou o time mais criativo e ofensivo. Com Pepe na zaga, Raul Meireles foi para a volância e ao invés de manter dos meias que não contam com grande vocação ofensiva, Bento optou em usar dois que atuam próximos ao ataque, dando mais dinamismo às ações de frente. Martins e Moutinho deram conta do recado, e Meireles, que é um volante de origem, marcou com eficiência e apoiou bem o ataque, com avanços e chutes poderosos, como o que resultou no golaço ante a Islândia.

No ataque, a provável manutenção de Varela e Postiga deve ser vista com bons olhos. O primeiro porque vem em grande momento no Porto e é importante opção para as pontas, especialmente pela irregularidade, com a camisa da seleção, de Danny. O segundo, por sua vez, teve uma temporada 2009/10 triste pelo Sporting, mas ofuscou Liedson na atual época e, diga-se, conta até com mais recursos com a bola nos pés que Hugo Almeida – ainda que este seja mais “matador”, por assim dizer.

Paulo Bento não trouxe mudanças somente na forma da equipe atuar. A equipe é mais ativa, animada, parecendo inclusive mais imersa no jogo que outrora. A primeira oportunidade de alguns, o retorno de outros e o claro descontentamento com a forma como as coisas eram tocadas na época de Queiroz – com a consequente felicidade com o novo comandante – são características claras que ajudam a entender este momento. Algo que confirma: Portugal não deixou de ter um elenco competitivo nos últimos tempos, como pareceu. Só não era um time. E agora já parece o ser novamente.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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