Minhotos ainda vivos
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Não que o Braga fosse um exemplo de Cirque Du Soleil – muito longe disso, evidentemente. No entanto, era uma equipe cujo jogo rápido e padrão tático surpreendiam positivamente, como já haviam provado Celtic e Sevilla, e tornavam os jogos, principalmente ante rivais tecnicamente superiores, interessantes de serem assistidos. A goleada por 6 a 0 sofrida para o Arsenal visivelmente comprometeu esse estilo, haja vista que embora tenha até feito boas partidas desde então, como contra Shakthar e Benfica, o time do Minho parecia ter perdido a confiança que o caracterizou recentemente.
Eis que veio o decisivo jogo contra o Partizan, na terça, e com ele, a primeira vitória da história do clube em uma fase de grupos de Liga dos Campeões. Triunfo que é importante não somente pela ótica matemática do grupo, mas pelo momento que ele se deu, com reflexos possíveis tanto no planejamento futuro da equipe no torneio europeu como – e talvez principalmente – no certame nacional, onde os arsenalistas já vinham perdendo espaço e nem pensam mais em repetir 2009/10, quando brigaram pelo título até o final. Decididamente, um 2 a 0 que caiu do céu.
Não foi uma vitória brilhante ou empolgante, é importante dizer. Mas a circunstância na qual ela veio é importante para que se “dê corda” na equipe. Os três pontos não surgiram pelo futebol rápido e ágil que o time aplicou em etapas anteriores do torneio, mas pela mais uma vez destacável adequação tática da equipe, que se ajustou a um esquema diferente do habitual, mais atento defensivamente. Domingos Paciência surpreendeu a mandar para campo um time com dois volantes fixos (Vandinho e Andrés Madrid), dois meias abertos (Alan e Matheus) e dois atacantes (Paulo César e Lima).
De um lado, a decisão de Paciência pode ser questionável, tendo em vista a necessidade de vitória ante o rival mais fraco da chave e a possibilidade de levar a melhor com o jogo veloz de sempre. De outro, a falta de confiança da equipe, que já afetara o modo de jogo bracarense, pesou claramente na opção tática do treinador arsenalista. As apostas eram na esperada superioridade do Braga em comparação com o Partizan e na fácil adaptação tática que os comandados de Paciência adquiriram desde o ano passado para um esquema que, no papel, até era ofensivo, mas no fundo, primava mesmo pela cautela.
O domínio bracarense foi o esperado, ainda que faltasse a velocidade que marcou a equipe do Minho até pouco tempo e que foi decisiva, por exemplo, na histórica vitória contra o Sevilla. No entanto, essa estratégia mais segura mostrou-se efetiva, já que Felipe teve como lance de maior destaque uma defesa de um chute de fora da área, nos últimos minutos. No 4-2-2-2 de Paciência, os laterais Sílvio e Elderson subiram pouco, deixando essa incumbência das pontas a Matheus e Alan e dando maior tranquilidade para os dois volantes saírem com a bola na ligação com os quatro homens de frente.
O primeiro tempo foi fraco, tanto que apesar de estar com mais posse de bola e claramente poder partir para cima, o Braga só deu o primeiro real chute a gol só no golaço de falta de Lima, após os 30 minutos. O que pode ser explicado pela ausência de um jogador de ligação, já que Vandinho e Madrid não tem esse cacoete. A vitória parcial levou os minhotos a ganhar mais confiança no segundo tempo, ainda que não se arriscassem a transcender suas posições iniciais. As entradas de Luís Aguiar e Leandro Salino deram gás aos bracarenses, mesmo que estes não tenham repetido atuações passadas.
Foi uma boa partida do Braga no geral? Digamos que em uma escala de 0 a 10, uma atuação nota 6. O time teve bons momentos na defesa, como não tivera ainda na LC. No entanto, Paciência, embora tenha tido algum sucesso com a adoção desse jogo mais “quadrado”, sabe que isso compromete sensivelmente a qualidade de alguns de seus principais jogadores de ataque, dando-os claramente menos liberdade e “obrigando“ jogadores como Alan e Matheus a atuarem inicialmente mais distantes da área, tendo que buscar mais a bola. O risco, pelo menos nesta terça, valeu a pena.
A vitória, claro, pode levar a entender que o Braga, daqui em diante, deva jogar desta maneira. Não é bem assim. Particularmente, o colunista acredita que é possível manter o time com dois volantes, mas voltando à dupla Alan e Paulo César (ou Matheus) nas pontas ofensivas, com pelo menos Luís Aguiar em campo para a ligação, desafogando uma responsabilidade que às vezes fica exclusiva em Alan. A contenção dos laterais pode ser bem vinda, mas Sílvio merece ter uma maior liberdade para subir. No entanto, tudo depende, obviamente, do rival e do que está em jogo.
Mais do que estabelecer um novo padrão tático aos minhotos, o real impacto do triunfo é justamente o de devolver à equipe a confiança, visivelmente chutada para longe desde o jogo ante o Arsenal. O adeus à “virgindade” europeia alivia a pressão e, acompanhado da goleada dos Gunners para cima do Shakthar, devolve o Braga à briga pelas oitavas. O que, por si só, já é um motivador e tanto. Havia uma tensão grande antes do duelo contra o Partizan, e a certeza de que o “sonho europeu” está vivo, embora não tenha provocado grandes declarações de Paciência, fez brilhar os olhares dos jogadores.
O “legado” da vitória de terça pode começar a ser observado neste sábado, quando o Braga recebe no Estádio AXA o Olhanense. Adversário interessante, por se tratar de uma equipe que atua de forma aberta e vem bem, podendo ser um termômetro importante do quanto o triunfo bracarense representou para o elenco. Claro que o Partizan – e nem mesmo os algárvios – não são parâmetro para sonhar em ir além na Liga dos Campeões. Mas hoje, o Braga precisa se recompor para superar um adversário que, este sim, é o mais perigoso: ele próprio, quando travestido pela desconfiança.
Acabou a luz?
O Benfica, por sua vez, definitivamente não consegue se afirmar na temporada. A derrota para o Lyon não chega a ser inesperada, mas ratifica a dificuldade que as Águias estão tendo para se aproximar do desempenho de 2009/10. Se o Braga não teve uma atuação brilhante – mas foi eficiente – contra o Partizan, aos encarnados faltou tudo. O time atuou inerte, parecendo que a vitória ante aquele que era o melhor da chave até então cairia no colo, sofreu com a dificuldade de se chegar no campo de ataque e ainda atuou mais da metade do jogo com um a menos, após a expulsão de Gaitán.
Insistir na falta que Di Maria e Ramires fazem à equipe é chover no molhado, e já passou da hora para que os meias de hoje ao menos dessem uma cara melhor à equipe. Aliás, não fosse o contestado Roberto, talvez o time da Luz tivesse voltado para Portugal com o saldo de gols bastante afetado. O que parece agora é que o Benfica não tem sabido se reciclar. Joga sempre da mesma forma, com a diferença que agora é tecnicamente inferior que na temporada passada e não se reforçou como deveria. É um esquema ofensivo, mas que para funcionar, necessita de qualidade para que a parte de trás não fique comprometida.
A classificação não é impossível. Pelo contrário. Os fatos de a equipe ter até dominado boa parte do jogo anterior contra o Schalke 04 jogando fora de casa, e de ainda ter dois jogos na Luz, ante franceses e alemães – a equipe só visitará o lanterna Hapoel Tel-Aviv colocam as Águias até com algum favoritismo ao segundo lugar. Para isso, porém, Jorge Jesus precisará reciclar a forma do time jogar, reconhecer que o time está mais fraco e buscar adequar o atual modo de jogo com as necessidades que permeiam o momento. Em suas devidas proporções – até pelas diferentes pretensões do Benfica –, vale até observar o que Paciência teve de fazer para recolocar o Braga na briga pelas oitavas.