Meninos mimados
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O leitor brasileiro certamente pouco terá ouvido falar de Miguel Veloso, pretenso “menino prodígio” saído das categorias de base do Sporting – o mesmo clube que revelou ao mundo Luís Figo e Cristiano Ronaldo, para ficarmos em apenas dois exemplos. Pois bem, Miguel Veloso deixou de comparecer ao treino de sua equipe na última segunda-feira (2 de fevereiro), sem justificativa. Motivo aparente: o fracasso das negociações que o levariam para o Bolton, da Inglaterra.
A ausência do jogador no treino foi algo que não caiu bem junto ao elenco e ao treinador da equipe, Paulo Bento. A diretoria sportinguista, por sua vez, também não ficou nada satisfeita com mais uma atitude destemperada em torno do jovem de 22 anos. No ano passado, outra confusão envolvendo Miguel Veloso foi protagonizada por seu pai, o ex-jogador António Veloso (chegou a ser capitão do Benfica nos anos 90), que usou a imprensa para “cavar” um lugar no time titular do Sporting para seu filho – algo que deu margem a inúmeros desentendimentos com Paulo Bento.
Veloso, o pai, ficou marcado na história do Benfica, entre outras coisas, por ter desperdiçado o pênalti que, na finalíssima da Liga de Campeões de 1988, deu o título ao PSV Eindhoven (o jogo normal e a prorrogação haviam acabado em 0 a 0). Pelas ligações familiares com o Benfica, há quem diga que as indisposições de Miguel Veloso com o Sporting têm como princípio forçar uma ida do jogador para o clube da Luz – de onde foi dispensado quando garoto por o considerarem “gordinho”.
A par tudo isso, Miguel Veloso ficou estigmatizado pelos convites que recebeu para participar de desfiles de moda. Vaidoso ao extremo, é capaz de mudar sua aparência e seu cabelo a cada 15 dias – o que já motivou inúmeras anedotas nos programas humorísticos de Portugal. Pois seria melhor que o jovem prodígio crescesse e encarasse sua profissão com mais profissionalismo. Era justamente para ele que, em tom provocador, o técnico Luiz Felipe Scolari afirmou que não queria “jogador de bunda grande” na seleção portuguesa, aludindo ao pouco empenho de Miguel Veloso com a parte física.
Outros mimados formados pelo Sporting
Mas não é só Veloso que mostrou ser garoto mimado no Sporting. Mesmo com a possibilidade de atuar na Liga Inglesa – onde ganharia mais e onde talvez brilhasse menos –, sua reação destemperada pouco se justifica, já que o Bolton sequer luta para disputar uma Liga dos Campeões. Mesma reação foi a que João Moutinho demonstrou no início da temporada, quando o Sporting negou-se a negociá-lo com o Everton, devido a uma discordância de valores. Até hoje, há em Alvalade quem não tenha digerido bem a postura do atual capitão leonino.
Cristiano Ronaldo é outro jovem valor que também cairia bem no rótulo de “menino mimado” – mas esse, pelo menos, alcançou cedo o estrelado e hoje reina absoluto com o título de melhor do mundo. Talvez outro jovem revelado pelo Sporting encaixe-se melhor nessa categoria: Ricardo Quaresma. Negociado com o Barcelona em 2003, o atacante fracassou na Catalunha e foi para o Porto no ano seguinte. Melhor jogador da liga portuguesa por vários anos, Quaresma desentendeu-se com a torcida devido às vaias – injustas, diga-se de passagem – que recebia no Estádio do Dragão. Só sossegou quando conseguiu sair do clube e assinar com a Inter de Milão, em 2008.
Quando todos esperavam que Quaresma deixaria de ser apenas uma promessa ao lado de José Mourinho, eis que o jogador transfere-se para o Chelsea de Felipão – o mesmo Felipão que, em 2006, negou-se a levá-lo para a Copa do Mundo da Alemanha, apesar da temporada brilhante do jogador em Portugal. Será que Quaresma irá conseguir brilhar agora na Inglaterra? Não se sabe. Pelo menos, Scolari parece que aprendeu a gostar do “menino”: foi em defesa dele que o então técnico da seleção portuguesa agrediu com um soco o zagueiro sérvio Dragutinovic, em 2007, em partida realizada em Lisboa e válida pelas eliminatórias para a Eurocopa de 2008.
Golo de Letra
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
(Poema de Mário Cesariny)