Futebol português

Leão bipolar

Rui Patrício; Abel, Daniel Carriço, Nuno André Coelho e Evaldo; Maniche, André Santos, João Pereira e Diogo Salomão; Liedson e Postiga. Esse foi o time que Paulo Sérgio mandou a campo para vencer, no sufoco, o lanterna Rio Ave por 1 a 0, com um gol chorado de Abel, já no fim da partida. Agora vejam: Hildebrand; Abel, Daniel Carriço, Anderson Polga e Evaldo; Maniche, André Santos, João Pereira e Diogo Salomão; Liedson e Postiga. Com essa equipe, o Sporting aplicou inapeláveis 5 a 1 no Gent, pela terceira rodada da Liga Europa. Torneio, aliás, onde os Leões têm a melhor campanha e o melhor ataque, com 12 tentos até o momento.

Como se vê, poucas diferenças entre os dois times. Apenas Rui Patrício voltando ao gol no lugar de Hildebrand (há uma expectativa de que Paulo Sérgio promova um revezamento), e Polga, que saiu machucado, dando lugar a Nuno André Coelho. O resto da equipe era o mesmo, tal qual o esquema de jogo adotado, com João Pereira e Salomão atuando como meias abertos e bem ofensivos, com André Santos mais preso à marcação na volância e Maniche, também volante, saindo para ajudar o ataque. No entanto, o que pode justificar duas apresentações tão distintas com equipes quase idênticas, sendo que a atuação negativa se deu justamente contra o rival mais fraco?

O curioso é que não é a primeira vez que essa alternância tão drástica de desempenho se dá na temporada. Já após de fazer 5 a 0 no Levski Sofia, na rodada passada da Liga Europa, o Sporting patinara na Liga Zon Sagres, empatando em 1 a 1 com o Beira-Mar. Contra os búlgaros, Paulo Sérgio escalou: Rui Patrício; João Pereira, Anderson Polga, Daniel Carriço e Evaldo; Maniche, Zapater, Matías Fernandez, Diogo Salomão e Vukcevic; Postiga. Ante os aveirenses, foi mandado a campo justamente o mesmo time. Enquanto na Europa os Leões fazem bonito, com 3 vitórias e o melhor ataque, em casa o time é apenas o 7º, com apenas 7 gols feitos em 8 jogos.

O que pode explicar, pelo menos em partes, essa bipolaridade tão marcante do Sporting na temporada? Um ponto é justamente a diferença de adversários, nem tanto pela diferença de qualidade dos rivais, mas pelos concorrentes europeus não conhecerem o SCP tão bem como os adversários locais, mesmo estes sendo tecnicamente bem inferiores. De forma geral, times como Rio Ave, União de Leiria ou Beira-Mar, acostumados a se deparar com os Leões e com os jogadores do emblema de Alvalade, conseguem alinhar esquemas táticos e marcações mais eficientes que aqueles montados por equipes como Lille ou Gent.

Ainda no campo tático – e aí chega-se a uma conclusão que surgiu durante boa conversa com o amigo jornalista português Nuno Almeida -, a própria forma como o Sporting é lançado ao gramado por vezes “ajuda” os rivais. O 4-4-2 usado por Paulo Sérgio, com praticamente três linhas – uma com quatro defensores, uma com quatro meias (dois abertos com alguma liberdade para subir) e outra com dois atacantes -, já entra naquele hall de esquemas “manjados”, até mesmo pelos rivais mais limitados. O que, aliado ao fator discutido no parágrafo acima, só deixa mais exposto a forma como os Leões pretendem atuar, principalmente em terras portuguesas.

Aliás, adequar taticamente o Sporting não tem sido fácil na temporada. A coluna já bateu na tecla há um tempo e no blog Comunicagolo, este que vos escreve tocou no mesmo ponto: Paulo Sérgio não tem conseguido dar um padrão ao time leonino desde que assumiu a equipe. Testou o grupo em variações do 4-4-2, fosse com um volante mais fixo e três meias mais próximos dos atacantes ou no próprio formato que se viu ante Gent e Rio Ave. Usou também o 4-3-3 com um ou dois volantes, e durante um bom tempo, parecia ter se decidido em atuar com um atacante mais isolado, dois volantes e um meia mais de ligação e dois alas bem abertos.

Cenário diferente, por exemplo, dos rivais Porto e Benfica. Os primeiros já se encontraram no 4-3-3 e vêm atropelando quem vem pela frente na temporada, enquanto o Benfica até tentou adotar a estratégia de três atacantes, como forma de tentar suprir as dificuldades causadas pela ausência de Di Maria e Ramires, mas logo se viu que o time fluiria mesmo com a manutenção do 4-3-3 adaptado de Jorge Jesus, com um volante (Javi Garcia), um meia-armador (Aimar) e dois meias abertos (Gaitán e Carlos Martins). Em que pese os Encarnados pecarem pela irregularidade na nova temporada, há ao menos um padrão, um entrosamento, que já os coloca a frente dos Leões.

Não se pode dizer, à primeira vista, que o Sporting não tem jogadores capazes de “encaixar” na equipe. Maniche é um volante de raça e qualidade. Matías Fernandez pode estar longe de toda a badalação com a qual chegou em Lisboa, mas não é mau jogador, e quando está em um bom dia sabe ser decisivo. E há ainda Simon Vukcevic, cuja ausência na titularidade é uma questões mais inexplicáveis do trabalho em Alvalade. No entanto, além da alternância do inevitável fator sorte, a qualidade destes não têm sido capaz de se manter regular para a armação de jogadas, principalmente quando atuam diante de marcações mais acirradas na liga portuguesa.

Nem tudo, porém, é preocupante. A boa campanha europeia – que pelo andar da carruagem, deve ser mesmo o carro-chefe dos objetivos sportinguistas para 2010/11, considerando já a distância que o clube tem para o Porto – se deve muito às atuações decisivas de jogadores como os jovens Diogo Salomão e Daniel Carriço e o atacante Postiga – talvez o principal leão dos últimos jogos, e que dá uma bela volta por cima após um deprimente 2009/10, época na qual assinalou apenas dois gols, mesmo em vários momentos sendo titular. Até mesmo Liedson, em que pese a visível irregularidade, pelo menos quando em campo pela Liga Europa, mostra seus dotes de goleador.

Ainda assim, o Sporting deve ter em mente que apesar das duas goleadas aplicadas no torneio continental nos três jogos disputados, foram duas vitórias ante equipes que desde o princípio já se previa brigarem pelas últimas posições da chave. O triunfo que talvez seja o mais relevante é, pelo menos na ótica do colunista, o obtido contra o Lille, fora de casa, por ser contra rival mais perigoso da chave. Apertado (2 a 1), mas foi mais “próximo” do calor que se espera para os Leões nas fases seguintes. Até por isso, antes que a barriga não suporte mais empurrar os dois principais torneios que disputa, o time de Paulo Sérgio precisa ao menos detectar o que vem causando essa bipolaridade, e tratá-la o quanto antes, para que 2010 não se encerre com o clube já pensando na temporada seguinte, tal qual se deu em 2009/10.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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