Insistência leonina
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Já tratei deste assunto semanas atrás – e um leitor português discordou de meu ponto de vista, incluindo sua opinião no espaço que o site dedica aos comentários do leitor. Volto ao tema com uma convicção maior do que a que tinha naquela época: o Sporting está cometendo um erro monstruoso ao manter o técnico Paulo Bento no comando da equipe. Os Leões, hoje, têm um elenco desmotivado e cheio de fissuras internas – algumas delas provocadas pelo próprio Paulo Bento nos últimos anos. A torcida já se cansou dos maus resultados e, nas últimas partidas disputadas no Estádio Alvalade Século XXI, vem pedindo a saída do treinador. Não há mais clima nem hipóteses para que ele permaneça.
O Sporting, para infelicidade de sua massa associativa, vive sérios problemas financeiros – tanto que, há várias temporadas, é o clube grande português de menor orçamento e o que menos consegue injetar recursos no futebol profissional. Gestões equivocadas nos últimos anos (que não conseguiram reaplicar o dinheiro obtido com as vendas de Cristiano Ronaldo e Nani para o Manchester United) e dívidas bancárias têm minado o patrimônio do clube. Mesmo assim, os Leões têm chegado à frente do Benfica no campeonato nacional. Só que, num torneio em que já se sabe de antemão que o título ficará entre três equipes, ser segundo colocado representa quase o mesmo que ser o antepenúltimo.
Paulo Bento encerrou a carreira em 2004 no próprio Sporting e logo se tornou treinador da equipe de juniores dos Leões. Na primeira temporada no cargo, venceu o campeonato português da categoria. Em 2005, foi então promovido a treinador da equipe principal, cargo que ocupa até hoje. Nessas quatro temporadas, venceu por duas vezes a Taça de Portugal e outras duas a Supertaça. São esses os argumentos de quem vê em Paulo Bento um técnico vencedor. Para mim, é pouco. E não porque ele seja ruim. Simplesmente porque ele é muito jovem na nova profissão para assumir logo de cara – e por tanto tempo – o comando de uma equipe de ponta em Portugal.
O que o mantém no cargo é a sua própria teimosia e a teimosia do atual presidente do clube, José Eduardo Bettencourt. Por gratidão ou por falta de quem o possa substituir, certo é que a diretoria sportinguista está perdendo tempo ao insistir com a permanência de Paulo Bento no comando da equipe. O atual elenco leonino precisa ser sacudido por alguém que tenha a autoridade necessária para lidar com egos inflados e com a escassez de recursos. Falta comando no clube, em diferentes níveis. Se não quiser comprometer a temporada, seria bom que o futebol profissional saísse das mãos de quem não consegue mais convencer nem a imprensa, nem os adeptos, nem os próprios comandados.
Aonde vais, Braga?
No último sábado (31 de outubro), o Braga venceu o Benfica em casa por 2 a 0 e isolou-se na liderança do Campeonato Português, três pontos à frente da equipe da Luz. Com esse resultado, o clube bracarense soma inacreditáveis três vitórias sobre os três grandes de Portugal – e olha que não se disputou nem 1/3 do campeonato. Se mantiver esse ritmo, será difícil alcançá-lo na ponta. Cá pra mim, ainda me restam dúvidas sobre o fôlego da equipe. O campeonato só começa a se decidir após o Carnaval – daí que é preciso esperar o movimento da janela de transferências de janeiro e a volta das míniférias de fim-de-ano.
Além disso, o Braga parece não estar atento a uma condicionante que valia para o Campeonato Paulista (quando o torneio tinha muito mais importância do que hoje) e que vale igualmente para o Campeonato Português: o título não se vence diante dos grandes, mas sim diante dos pequenos. Não adianta nada superar o trio-de-ferro (Benfica, Porto e Sporting) e perder pontos para os pequenos (como empatar com o Rio Ave). De todo modo, como o Braga já está fora das competições européias, o time poderá dedicar-se inteiramente ao campeonato nacional. Os três grandes estarão dispersos entre várias competições, já que o Porto já está apurado para a próxima fase da Liga dos Campeões, enquanto que Benfica e Sporting dificilmente deixaram de seguir adiante na Liga Europa.
O que será da seleção sem Ronaldo?
A seleção da Bósnia-Herzegovina ganhou um reforço de peso para o confronto de ida-e-volta que terá contra Portugal, na luta de uma vaga para a Copa do Mundo de 2010. O departamento médico do Real Madrid divulgou uma nota nesta semana dando conta de que a lesão de Cristiano Ronaldo não teve nenhum tipo de melhora nos últimos 20 dias e que o atleta terá que prorrogar o tratamento por mais um mês. A imprensa portuguesa estranhou a situação e lançou a suspeita: será um blefe do clube madrileno apenas para impedir que o CR-9 atue por Portugal nos dias 14 e 18 de novembro? Há quem diga que o presidente do Real, Florentino Pérez, teria “contas a acertar” com o atual técnico da seleção lusa, Carlos Queiroz, de quando este dirigiu os merengues. Além disso, Ronaldo estaria sendo preservado para o superclássico com o Barcelona, em 28 de novembro.
Se as insinuações não forem verdadeiras, fica ao menos uma certeza: a incompetência do departamento médico do Real Madrid, que não consegue progressos na cura de um atleta após 20 dias de tratamento. Pior para Portugal, que perde peça simbólica extremamente importante nos dois embates com a Bósnia. Certo é que a seleção portuguesa estava apresentando-se até melhor sem Ronaldo. Mas sua presença em campo poderia ser animicamente decisiva nesses confrontos. Fica a lição: é bom que os portugueses, na candidatura conjunta com a Espanha para sediar o Mundial de 2018, procurem não entrar em atrito com o Real Madrid – o queridinho da coroa espanhola.
Golo de Letra
Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam…
Depois de escrever, leio…
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?…
(Poema “Às vezes”, de Álvaro de Campos – heterônimo de Fernando Pessoa)