Portugal

Feliz temporada nova?

Clássico é aquele típico jogo que, em tese, não tem favoritos, e onde o time em pior fase geralmente apronta para cima daquele que está por cima. Pois bem. Benfica e Sporting estiverma longe de levar essa máxima adiante. Na quarta-feira, o 2 a 1 aplicado pelas Águias sobre os Leões nas semifinais da Taça da Liga foi o terceiro triunfo encarnado ante o rival em três partidas na temporada. Mais do que ver os “vermelhos” fazerem a trinca no derby, os “verdes” ficaram fora do último torneio que podiam conquistar em 2010/11, e antes mesmo do Carnaval, praticamente se despedem da época. “Praticamente” porque faltam sete jogos para o término da Liga Zon Sagres, e o terceiro lugar, colocação máxima esperada pelos sportinguistas para o atual campeonato, não está assegurado. Nem a vaga à Liga Europa está assegurada, já que a diferença entre a equipe e o Nacional, 6º colocado, é de só 4 pontos.

A derrota de quarta foi dolorida não somente por ela ter vindo após uma boa partida do Sporting – que equilibrou as ações com o Benfica ao longo de todo o confronto, tendo inclusive saído à frente -, com um gol marcado aos 47 minutos dos segundo tempo, mas pelo conjunto da obra. A dor dos Leões se deve, essencialmente, ao sentimento de impotência mostrado ante os dois maiores rivais, e à terceira temporada consecutiva sem títulos, nem mesmo da ignorada Taça da Liga. Impotência que vai não se limita ao time, que é tecnicamente inferior a Porto e Benfica em todas as posições, mas pela incerteza sobre o que esperar, tanto até o fim da temporada, como para 2011/12. O clube tem orçamento pouco acima da metade daquele que benfiquistas e portistas possuem, está com um treinador interino – que divide funções com a direção de futebol – e não sabe a quem recorrer no mercado, embora o nome de Leonardo Jardim, que se demitiu do Beira-Mar, esteja cotado.

O fracasso é fruto de um longo caminho. Passa, por exemplo, pelo insucesso no mercado de transferências. Quer dizer, insucesso em termos. Jaime Valdés ou Marco Torsiglieri não são maus reforços. O primeiro teve bons momentos no primeiro turno, enquanto o segundo começa a ganhar espaço e, em condições normais, deve assumir a titularidade com Daniel Carriço. No entanto, demoraram a se adaptar. O chileno, pelas constantes modificações táticas às quais era submetido. O argentino, pela insistência em Anderson Polga. Maniche, de quem muito se esperava, foi uma grande decepção. Evaldo também foi aquém do lateral que brilhou no Braga. Já Alberto Zapater e Diogo Salomão, que chegaram ao Sporting “para somar”, como se diz, foram melhor que a encomenda, mas não ganharam frequência, sendo prejudicados. E Cristiano, que veio para substituir Liedson, foi um grande tiro n'água. Sem contar a até agora inexplicável contratação de Timo Hildebrand para a reserva de Rui Patrício.

O trajeto também é composto por várias polêmicas administrativas. Só nesta temporada, o clube não ofereceu resistência (salarial e contratual) para manter João Moutinho, Miguel Veloso e Liedson. O caso de Moutinho, aliás, chega a ser caricato, pela grande facilidade com a qual o Porto conseguiu sua liberação, pagando a rescisão (que apesar de relativamente elevada – cerca de 11 milhões de euros – teve ótimo custo-benefício), e cedendo o “excedente” Nuno André Coelho. Também não se soube administrar os quase-litígios de Simon Vukcevic e Marat Izmailov, dois dos principais elementos da equipe. O russo, aliás, chegou a ser dado como fora do Sporting. Da mesma forma, as críticas públicas de Costinha à venda de Liedson e à (ainda inexplicável) contratação de José Couceiro resultaram em sua queda – isso porque, algum tempo antes, Ricardo Sá Pinto também deixou essa diretoria após polêmica. E nem se falará do pedido de demissão do presidente José Eduardo Bettencourt…

O insucesso nos gramados vem como “consequência” do que veio dando errado lá atrás. Paulo Sérgio nunca foi uma unanimidade na torcida, desde sua chegada. Foi anunciado justamente quando Carlos Carvalhal mostrava evolução no comando da equipe. Visivelmente com a cabeça em Lisboa, encerrou a última temporada perdendo uma vaga europeia que lhe estava nas mãos pelo Vitória de Guimarães. No comando leonino, não conseguiu encontrar a formação ideal. Sempre mantendo a linha de quatro atrás, buscou variar a disposição dos jogadores do meio para frente, ainda que os cabasse “prendendo” às posições, o que dificultou a regularidade de jogadores como Matias Fernandez, Valdés, Vukcevic e Yannick Djaló. Mudou várias vezes a dupla de volantes, e mesmo com Zapater tendo boas atuações, insistiu com Maniche – e depois André Santos. À frente, não deu as oportunidades que Salomão merecia.

Por fim, como já se comentou aqui, Paulo Bento, quando deixou o Sporting, observou que a equipe sentira muito o excepcional início de temporada do Benfica em 2009/10. Ficava claro que, mais do que superar todos os rivais, a preocupação que predominava era de ficar a frente das Águias. Algo que, já há um tempo, anda longe de acontecer. Nos últimos cinco clássicos, quatro vitórias benfiquistas e um empate, sempre com os Leões acuados ante o time encarnado. E quando isso não acontece, como na partida de quarta, na qual o Sporting até manteve o jogo acirrado e equilibrado, a falta de um atleta diferente – mesmo que não seja necessariamente um craque -, daqueles que possam armar e antever uma jogada (como Moutinho), ou dar perigo à zaga adversária por sua presença de área (Liedson), e de um coletivo psicologicamente estável para não deixar o desespero tomar conta, é fatal. Psicológico, aliás, é o que mais anda em falta em Alvalade nos clássicos contra os da Luz.

Não é a demissão de Paulo Sérgio – que, faça-se justiça, buscou de todas as formas encontrar a melhor forma de deixar o Sporting competitivo – que mudará as coisas. O processo começa fora dele, e até por isso, a eleição presidencial do clube é aguardada. O racha interno não é pequeno, afinal são esperados pelo menos quatro candidatos no pleito do fim de março. E esse novo comandante deverá ter um perfil com o que faltou a Bettancourt: mais enérgico e atuante nos problemas do clube, e dotado de uma mentalidade vencedora – a começar na escolha do treinador – , diferente da presenciada nos campeonatos recentes, em que superar o Benfica era o que bastava para um final de temporada feliz. Em que pesem as críticas à sua pessoa, o presidente do Porto, Pinto da Costa, é um exemplo de mandatário que mudou o pensamento do clube que assumiu. Da década de 80 para cá, os Dragões dominaram Portugal.

Foto de Equipe Trivela

Equipe Trivela

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