Dragão sem chamas
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Perder para um Arsenal em alta, que briga ponto a ponto pelo título da Premier League, não é nenhuma vergonha. As apostas de todos realmente pendiam para os Gunners. O que surpreende é a apatia com a qual o Porto foi atropelado em Londres e a antes inimaginável crise na qual o clube das Antas se vê após, em uma semana, ver a Liga dos Campeões ir para o espaço e a Liga Sagres ficar praticamente impossível de ser conquistada.
De alguma forma, essa crise já era meio desenhada por uma série de ocorrências ao longo da temporada, com ênfase em duas principais: as demoras para se repor um atleta essencial vendido na janela do início da época, e para efetivamente “acordar” no campeonato. Como se sabe, logo no princípio da temporada, o Porto negociou seus três principais nomes: Lisandro, Cissokho e Lucho Gonzalez. Os lucros com as vendas foram bons, é verdade, mas os reforços, em sua esmagadora maioria, não estiveram a altura.
Não demorou para o maior temor dos torcedores se confirmar: justo Lucho, cérebro e referência da equipe nos últimos anos, estava sem um substituto adequado, e fazia falta. Demais. Isso se evidenciou por dois grandes motivos: a falta de critério em várias contratações e a insistência de Jesualdo Ferreira em manter, sem as peças ideais, seu esquema de preferência: quatro homens atrás, três no meio, com um volante fixo e dois meias que saem para o jogo, dois pontas e um centroavante.
O exemplo mais evidente foi o da má utilização do bom meia Belluschi. Jogador basicamente ofensivo, que rende mais quando tem liberdade para atuar logo atrás dos atacantes, o argentino acabou, na marra, recuado para a armação, como “substituto” de Lucho. Como já se falou aqui, a emenda ficou pior que o soneto, e Belluschi acabou queimado junto à torcida, sob a sombra do patrício, hoje no Olympique de Marselha.
Isso também ajuda a entender a demora do Porto em se ligar no que acontecia no campeonato nacional. Antes considerado um verdadeiro “time de chegada”, o Dragão nunca ameaçou realmente a dupla Braga-Benfica, que disparou logo nas primeiras rodadas na briga pelo título. No máximo, foram alguns lampejos, especialmente com a virada de ano, que veio acompanhada de goleadas e exibições bastante convincentes. Parecia que aquela era a hora do “bom e velho” Porto.
Os sinais de recuperação ganharam evidência com a chegada tardia, mas salvadora, de Ruben Micael. Ao lado de Belluschi, em um meio campo de futebol mais atraente e ofensivo, Micael foi o grande nome da “nova fase” do Porto. O 5 a 1 aplicado no Braga (esse com Meireles-Micael no meio) e o 5 a 2 sobre o Sporting não deixam mentir. O problema é que, a cada rodada, o título ficava mais distante, já que o novo líder, Benfica, seguia atropelando seus adversários, e mesmo os arsenalistas logo se reabilitaram do tropeço.
Até quando a empolgação portista permaneceria? Como se viu, não durou muito tempo – como quase toda tentativa na temporada de, enfim, emplacar uma reação. Bastou a inesperada derrota por 3 a 0 para o mesmo Sporting para que a moral dos portistas desabasse e evidenciasse a grave deficiência psicológica do elenco, de altos e baixos ao longo da época, que, daí em diante, teria sua maior queda de rendimento nos últimos anos.
O empate com enorme sabor de derrota em casa com o Olhanense (que conta com diversos jogadores jovens emprestados pelo próprio Porto), aliado a mais um triunfo benfiquista, que levou os encarnados a abrirem 11 pontos para os azuis, aumentou ainda mais a pressão para o duelo contra o Arsenal. E em Londres, viu-se um time abatido e retrancado, assustado com uma temporada desastrosa para as pretensões da equipe.
Mais uma vez, Jesualdo tentou inventar, escalando o jovem zagueiro Nuno André Coelho ao lado de Rolando e Bruno Alves. O trio, demasiadamente confuso, foi facilmente dominado pelos ingleses, que deitaram e rolaram principalmente pela lateral direita, defendida por Fucile. Não bastasse, o treinador iniciou a partida decisiva novamente com Hulk, que embora seja um ótimo jogador e até tenha partido para o jogo, está sem ritmo para ser titular.
Como se vê, a fase do Porto é fruto de um conjunto de fatores, tanto dentro de campo – como – e principalmente – fora. Fala-se aqui de um clube que, nos últimos anos, acostumou-se a ganhar títulos grandes, inclusive no exterior, e que pode encerrar a temporada com um aproveitamento de conquistas até quantitativamente interessante (o time ainda disputa a final da Taça da Liga e as semi da Taça de Portugal, e já levou a Supercopa), mas qualitativamente pobre, haja vista que a LC já foi e a Liga Sagres está distante.
O modelo de trabalho portista, deve-se reconhecer, foi o que mudou a história da equipe nos últimos anos, mas, ao mesmo tempo, trouxe uma enorme pressão interna por resultados. A demora para que a liderança fosse alcançada e as atuações irregulares ganharam como aliadas as suspensões de Hulk e Sapunaru (outro grave empecilho na temporada dos azuis, haja vista a importância da dupla para o elenco), para acentuar o fervor da panela das Antas.
Para mudar o foco, tentou-se acusar a federação de estar “facilitando as coisas” para o Benfica ser campeão, e até realizar um manifesto, envolvendo todos os jogadores em uma coletiva, para simbolizar que o clube estava unido, que não ia ser derrotado por “fatores externos”, etc. Sinais claros, todavia, de que a pressão interna já estava em um grau bastante avançado, e hoje, fatalmente, já se encontra insuportável.
Dificilmente, portanto, cabeças não irão rolar ao fim do campeonato, mesmo que os dois títulos ainda em jogo sejam obtidos. E a primeira é a de Jesualdo. As “más línguas” indicam que Domingos Paciência (Braga) e Jorge Costa (Olhanense) são nomes fortes para substituir o atual treinador portista, até pela forte ligação de ambos com o clube que defenderam no passado. Alguns colunistas apontam até Paulo Bento, ex-Sporting. Agora, é aguardar.